A agricultura perto da “linha amarela”: morte diária vivida pelos agricultores de Gaza

Atualmente, as áreas cultivadas não ultrapassam 5% do total das terras agrícolas, após a destruição de cerca de 87% dessas áreas, especialmente aquelas situadas a leste da “linha amarela”, que representam 62% do total.

29/04/2026

Agricultor palestino de Gaza tenta trabalhar sua terra. Ao fundo, prédios dizimados pelos bombardeios israelenses. (Foto: AQN)

Por Yahya Mousa*

Ao longo das terras orientais da Faixa de Gaza — as áreas remanescentes após o arrasamento de vastas extensões de terras agrícolas pelo ocupante — os agricultores enfrentam grandes riscos diários enquanto trabalham em suas lavouras, devido aos disparos constantes do exército de ocupação e aos contínuos bombardeios de artilharia.

A área agrícola na Faixa de Gaza é de cerca de 170 mil dunams, aproximadamente metade do território, concentrando-se no norte, sul e leste. Atualmente, as áreas cultivadas não ultrapassam 5% do total das terras agrícolas, após a destruição de cerca de 87% dessas áreas, especialmente aquelas situadas a leste da “linha amarela”, que representam 62% do total.

Amir al-Nasr trabalha em uma terra agrícola que fica a apenas 100 metros da linha amarela, a leste de Al-Bureij, onde cultiva salsa e pimentão. Essa proximidade com as forças do exército de ocupação aumenta os riscos enfrentados no cultivo, fazendo com que cada momento passado no campo ocorra sob o olhar de drones militares que não deixam o céu da região, além dos canhões de tanques apontados para eles do alto de colinas arenosas transformadas em posições militares, e sob a mira de atiradores.

“israel” continua a demolir Gaza, prédio por prédio

Ataques diários

Após um dia exaustivo de trabalho, Al-Nasr joga água no rosto e nas mãos para limpar a poeira e a terra. Em seguida, contou à rede Quds News: “Trabalhar perto da linha amarela é extremamente perigoso. Somos constantemente alvos de disparos intensos de tanques, além de projéteis, o que representa uma ameaça direta à nossa vida enquanto trabalhamos na terra. Temos um terreno de cinco dunams a apenas dezenas de metros da linha amarela, e outro que alugamos mais atrás, com 27 dunams, a cerca de 700 metros da linha”.

A cada nova manhã em que se dirige ao campo, drones do tipo quadricóptero lançam bombas e os tanques disparam, o que afeta a colheita e o cuidado com as plantações. Ele relata, enquanto caminha por uma área cercada de destruição: “Quando atiram contra nós, recuamos e às vezes observamos a terra à distância. Se tudo estiver calmo, irrigamos rapidamente e saímos”.

As máquinas e posições militares são claramente visíveis de sua terra. Ele acrescenta, olhando para o leste: “Toda vez que vamos ao campo, colocamos o coração nas mãos. Não sabemos se voltaremos. Não há limites para o ocupante, e queremos colher para sustentar nossas famílias. Ontem, tiros perdidos foram disparados contra nós e escapei por pouco com meus irmãos”.

Sobre esses perigos, ele continua: “Ficamos no campo da manhã até o pôr do sol. Começamos o dia trabalhando uma ou duas horas na primeira área, cuidando da limpeza e irrigação. Quando vemos movimentação do exército, recuamos para o outro terreno. Assim que um tanque se move, deixamos tudo e saímos, porque começa a atirar”.

Aumento dos custos

Além desses riscos, os agricultores enfrentam grandes dificuldades devido ao aumento dos preços e à escassez de insumos agrícolas, com custos multiplicados em relação ao período anterior à guerra — como tubos de irrigação (conhecidos como “taftouf”), aragem e diesel. Ainda assim, Al-Nasr e sua família não têm alternativa senão continuar, pois esse é seu único meio de subsistência.

Ele explica que o custo diário para operar um gerador para irrigar uma área de 27 dunams chega a 700 shekels, já que a irrigação dura entre seis e oito horas por dia. O preço de um rolo de “taftouf” subiu de 60 shekels antes da guerra para 1000 atualmente. Apesar disso, Amir, seu pai e muitos agricultores continuam apegados à terra: “Não podemos abandoná-la, herdamos essa profissão de nossos antepassados”.

O agricultor em sua terra a poucos metros da “linha amarela” estabelecida por “israel” após o fim oficial da invasão militar a Gaza. Ao fundo, prédios dizimados pelos bombardeios israelenses. (Foto: AQN)

No leste do campo de refugiados de Al-Maghazi, no centro da Faixa de Gaza, o agricultor Hammam Abu Saeed (40 anos) trabalha em condições semelhantes. Sua terra, de 10 dunams, é longa e estreita (18 metros de largura por 350 de comprimento). Devido ao perigo, ele plantou trigo apenas na metade ocidental, deixando a parte oriental sem cultivo, pois fica a apenas 100 metros da linha amarela.

Abu Saeed, sentado em uma cadeira dentro de sua casa no terreno, diz: “Tenho medo por mim e pelos trabalhadores. Quando os veículos militares se movem, nos afastamos, pois eles patrulham e disparam aleatoriamente em direção ao oeste. Quando se retiram, voltamos. Ontem, uma bala perdida atravessou meu quarto”.

Esse estado de tensão é constante. Mesmo após a retirada das forças, os agricultores permanecem sob vigilância de um posto militar próximo. Abu Saeed vive na área chamada “Al-Zaafarana”, onde os moradores possuem e cultivam terras agrícolas.

Ele plantou trigo no final de dezembro passado e espera colher cerca de meia tonelada, em uma experiência nova, já que esse tipo de cultivo entrou em Gaza por meio da FAO para alimentação animal. Utilizou 80 kg de sementes — o dobro do necessário para produzir farinha com qualidade adequada.

No entanto, ele admite que vive apreensivo diante de qualquer escalada: “Com a aproximação da colheita, tememos qualquer ataque ou avanço militar”.

O ocupante não se limita à linha amarela: criou uma zona de segurança avançada que impede os agricultores de se aproximarem, o que impede Abu Saeed de cultivar cinco dunams frontais — situação compartilhada por outros agricultores.

Palestinos que vivem ao longo da “Linha Amarela” enfrentam ataques israelenses diários

Tentativas de reviver a terra

No norte da Faixa, agricultores tentam restaurar algumas terras ainda cultiváveis, apesar da devastação generalizada.

Em uma área de 15 dunams na região de Bir al-Naaja, Samir al-Attar trabalha em uma terra que arrendou e preparou, instalando linhas de água, aguardando sementes cuja entrada é controlada pelo ocupante.

Sem máquinas agrícolas — a maioria destruída — ele utilizou um cavalo para puxar o arado e ferramentas manuais, como faziam os antigos agricultores, levando três semanas para preparar o solo.

Al-Attar, que perdeu suas próprias terras dentro da linha amarela, pretende cultivar abobrinha, pimentão, pepino e outras hortaliças. Ele também incentivou outros agricultores: um limpou 10 dunams, outro 20.

Ele afirma: “Incentivar a agricultura no norte ajudará a reduzir os preços dos vegetais e fortalecer a resistência da população, já que essas áreas foram completamente devastadas”.

Morador de Al-Atatra, perto de Beit Lahia, sua casa fica a apenas 60 metros da linha amarela. Ele observa com tristeza suas terras e granjas destruídas, que foram novamente arrasadas após uma tentativa de cultivo durante a trégua de janeiro de 2025.

A ativação de poços de água não apenas ajuda a restaurar a produção agrícola, mas também atrai moradores para instalar acampamentos ao redor, beneficiando-se da água.

O especialista agrícola Nizar al-Wuhaidi afirma que a situação geral é instável: Gaza perdeu 95% da produção devido à guerra, resultando em crise alimentar e aumento acentuado dos preços. Segundo ele, há insegurança alimentar e fome não declarada, já que os três pilares — disponibilidade, acessibilidade e segurança alimentar — estão ausentes.

Ele acrescenta que a guerra não terminou: “O que existe é um cessar-fogo por parte do povo palestino, enquanto o ocupante continua atirando diariamente”, o que afasta os agricultores de suas terras.

Embora algumas áreas, como Al-Bureij e Al-Maghazi, ainda permitam cultivo, outras — como Al-Mughraqa, perto do Wadi Gaza — são completamente proibidas devido à vigilância e aos disparos constantes. O mesmo ocorre no leste de Deir al-Balah.

Atualmente, a área cultivada em toda a Faixa de Gaza é de apenas 4.000 dunams.

* Repórter em Gaza da Rede Al Quds. Reportagem publicada em 18/04/2026 na Al Quds Network.

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