Quando vou concluir o meu ensino médio em Gaza?
Sempre que tento estudar, lembro de Suhaib, Yazan e Ihab. A morte deles deixou uma ferida profunda.
Uma professora dá aula particular de matemática em uma sala de aula improvisada no bairro de Shaboura, em Rafah, no extremo sul de Gaza, em maio de 2024. (Foto: Ahmad Abu Shawish)
Por Ahmad Abu Shawish*
Em agosto de 2023, eu estava avançando para o último ano escolar – ou tawjihi, como chamamos na Palestina.
O tawjihi é um ano decisivo, marcado por uma enorme pressão para obter uma nota alta nos exames de conclusão do ensino médio, de modo que o estudante possa garantir a vaga no curso universitário que deseja seguir.
Em casa, eu era constantemente chamado de “o aluno do tawjihi” – um apelido dito em tom de brincadeira, mas que carregava pressão.
Com esperança de realizar meu sonho de estudar medicina, escolhi a área de ciências – que inclui matérias desafiadoras, especialmente física e matemática.
Eu precisava me preparar para essas duas disciplinas. Em junho de 2023, me matriculei em um centro de aulas particulares no campo de refugiados de Nuseirat, na região central de Gaza, dois meses antes do início do ano letivo.
Costumava ir às aulas com meus amigos mais próximos: Suhaib, Yazan e Ihab Darwish – eles eram primos.
Sempre coordenávamos nossos horários para assistir às aulas juntos, sentando lado a lado sempre que possível.
Quando o ano escolar oficial começou, nós quatro continuamos sentando juntos na sala de aula.
Os privilégios do tawjihi
Tornar-me um aluno do tawjihi me trouxe alguns privilégios.
Eu estava isento das tarefas mais simples – como levar o lixo para fora, por exemplo.
Minha mãe me tratava como se eu fosse filho único, oferecendo todo conforto para que eu pudesse me concentrar.
Ela preparava meus pratos preferidos – macarrão assado com molho bechamel.
Mesmo quando cozinhava algo de que eu não gostava, ela fazia algo separado só para mim – um peito de frango perfeitamente preparado, por exemplo, ou me comprava um shawarma.
O quarto que eu costumava dividir com meus irmãos, Omran, de 15 anos, e Khaled, de 8, passou a ser só meu, para que eu pudesse estudar com tranquilidade e foco.
Meus irmãos passaram a dormir no quarto da minha irmã ou, às vezes, na sala de estar.
Meu pai não se contentou em me impor uma disciplina acadêmica rigorosa – ele também me comprou uma cadeira nova e confortável para evitar dores nas costas pelas longas horas sentado estudando.
Sempre que eu saía do quarto por alguns minutos, meu pai me chamava de volta, esperando que eu estivesse estudando ou planejando a próxima sessão de estudo.
Quando eu fazia uma pausa para descansar ou comer e ele passava por mim, me lembrava de que eu não tinha tempo a perder se quisesse cursar medicina.
O tawjihi arruinado
Com o início da guerra genocida de Israel contra Gaza, todos os meus preparativos para o tawjihi se tornaram inúteis. Meu foco passou de estudar para sobreviver.
Em outubro de 2023, a família da minha avó teve que fugir de casa no bairro de al-Rimal, na Cidade de Gaza, após bombardeios incessantes do exército de ocupação israelense.
Mais de vinte pessoas buscaram abrigo em nosso pequeno apartamento no campo de Nuseirat.
De repente, me vi cercado por quartos lotados, movimento constante e barulho.
Meu espaço de estudo tranquilo foi transformado em abrigo cheio de rostos exaustos e crianças inquietas.
Já não estava mais isento das tarefas diárias – meus dias foram consumidos por afazeres de sobrevivência: buscar lenha, acender fogueiras e procurar água.
Ihab, Yazan e Suhaib (da esquerda para a direita). (Foto: Cortesia do autor)
Mesmo quando as crianças finalmente dormiam, a noite não era tranquila. O zumbido dos drones e os estrondos distantes dos bombardeios se tornaram o novo ruído de fundo.
Em 19 de novembro de 2023, meus amigos mais próximos – Suhaib, Yazan e Ihab – foram assassinados em um ataque aéreo israelense que atingiu a casa deles no campo de Nuseirat.
Nós quatro crescemos juntos, sempre sentando nas mesmas salas de aula ano após ano, desde a escola primária.
Ihab sonhava em estudar ciência da computação e se tornar programador – alguém que pudesse resolver problemas e ajudar as pessoas.
Yazan queria viajar pelo mundo, ver algo além do horizonte bloqueado que conhecemos.
E Suhaib só queria viver em paz com sua família.
Sempre que tento estudar, lembro de Suhaib, Yazan e Ihab. A morte deles deixou uma ferida profunda.
A tenda, meu novo quarto de estudos
Em janeiro de 2024, fomos obrigados a deixar nossa casa em Nuseirat e buscar abrigo em uma tenda em Rafah – a cidade mais ao sul de Gaza.
Levei apenas algumas roupas e alguns cobertores, deixando para trás todos os meus livros escolares.
Levamos vários dias para nos acomodar na tenda e estabelecer alguma estrutura básica – como construir um banheiro e garantir uma fonte de água estável para o uso diário.
Depois disso, comecei a procurar materiais de estudo. Os preços eram absurdos.
Os itens de papelaria mais simples se tornaram luxos inacessíveis.
Lembro que, em anos anteriores, eu podia comprar tudo que precisava – canetas, cadernos, marca-textos, post-its – por menos de 90 shekels (26 dólares), e isso durava o ano inteiro.
Agora, esse mesmo valor não dava sequer para comprar os livros escolares. Apenas sete livros estavam sendo vendidos por cerca de 185 shekels (54 dólares). Só consegui comprar dois – matemática e física.
Para as outras matérias, optei por caminhar longas distâncias em busca de internet estável para poder baixar o conteúdo no celular em vez de comprar cópias superfaturadas.
Nossa tenda é insuportavelmente quente durante o dia – como se estivéssemos sob uma lente de aumento.
À noite, quando o frio aperta, me enrolo em cobertores só para não sentir que estou dormindo na rua.
Meu “tempo de estudo” se tornou algo vago – leio e reviso sempre que consigo afastar o medo, o cansaço e o desconforto.
No mesmo lugar onde durmo, sento de pernas cruzadas – meu joelho é a mesa, e a luz da tela do celular é minha luminária.
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Minhas provas finais deveriam ter sido realizadas em maio de 2024, mas nunca aconteceram.
Os resultados finais normalmente seriam divulgados em julho de 2024.
Em outra realidade, eu estaria sentado com minha família, os olhos grudados na tela do celular, com o coração acelerado à espera dos resultados no site do Ministério da Educação.
Minha família deveria estar comemorando meu sucesso – minha entrada na universidade.
Em vez disso, estávamos encolhidos em volta do fogo, envoltos em silêncio e decepção.
Sem provas
Nas semanas que se seguiram, meus dias passaram a se confundir em um ciclo de comer, dormir e tentar escapar da realidade esmagadora.
Fui mergulhando lentamente em uma depressão silenciosa até outubro de 2024, quando o Ministério da Educação anunciou que as provas finais para minha geração – estudantes nascidos em 2006 – seriam realizadas em fevereiro.
Voltei à mesma rotina: lutando para encontrar tempo para estudar, buscando professores particulares e tentando me concentrar, mesmo com fome e vivendo deslocado em uma tenda.
Estudei como forma de moqawama – resistência. Estudar me dava motivação e propósito, a crença de que eu ainda tinha um papel a desempenhar, mesmo durante o genocídio em curso.
Quando as provas foram adiadas novamente para 13 de abril, não perdi a esperança – continuei estudando.
Via meus livros e meus estudos como armas contra a máquina de destruição israelense.
Mas depois que Israel retomou seu inferno na Faixa de Gaza, em março, o Ministério da Educação adiou as provas por tempo indeterminado no dia 8 de abril.
Em 21 de junho, estudantes palestinos da minha idade na Cisjordânia começaram a fazer seu primeiro exame do tawjihi.
Eu – junto com quase 39 mil outros estudantes – ainda estamos esperando, sem qualquer clareza sobre o nosso futuro.
Enquanto o mundo lá fora continua girando, o tempo para os estudantes do tawjihi na Faixa de Gaza parece estar congelado há mais de 20 meses.
Estamos esperando que o tempo volte a andar – presos entre as memórias da vida antes desse genocídio e a luta para sobreviver a cada novo dia.
* jovem jornalista e ativista em Gaza. Ele também é dançarino de dabka e jogador de xadrez. Texto publicado em The Electronic Intifada em 26/06/2025.
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