Por que os sinos não dobram pela Palestina?

11/07/2025
Por: Wellington Lima Amorim

Nas páginas manchadas de sangue da História, um som ressoa como uma interrogação cósmica: o sino que não é o litúrgico que convoca os fiéis, nem tampouco o sino das aldeias que celebram o tempo, mas aquele que anuncia a morte do homem ou de um povo. Ernest Hemingway o ouviu entre as montanhas da Espanha durante a guerra civil espanhola patrocinada por Franco e com a assinatura de Hitler. Raul Seixas o transformou em profecia libertária e a banda Metallica o amplificou em guitarras elétricas, como um trovão pós-industrial. Mas há lugares onde esse sino não dobra e a Palestina é um deles. 

O sino, como símbolo, deveria dobrar por cada vida perdida ou injustiça perpetrada. E no entanto, na Palestina, ele não dobra, não porque ali não haja mortos, mas porque o mundo escolheu não escutar. Quando Hemingway escreveu Por Quem os Sinos Dobram, em 1940, sua intenção era existencial. Inspirado pela Meditação XVII, do poeta inglês John Donne, Hemingway nos apresenta o sino não como um instrumento de lamento privado, mas como um som que nos lembra de nossa interdependência radical: “A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano”, escreve Donne, e Hemingway transforma essa frase em bússola moral para a travessia do horror. 

Há um momento em que o som deixa de ser ruído e se torna revelação. Um instante em que o sino não apenas toca, mas anuncia, convoca e desperta. Não se trata apenas de uma reflexão cristã sobre a morte, mas um gesto de quem ousa escutar o mundo como quem ouve um coração e o sino que pulsa como batida universal. “Nenhum homem é uma ilha, completo em si mesmo”: com essa frase o poeta Donne perfura a arrogância do indivíduo moderno como uma flecha de verdade antiga. Para ele, o ser humano não é autossuficiente, não é um planeta isolado, mas parte de um continente da alma, um arquipélago invisível de comunhão e destino. Ser é ser com e morrer é morrer em todos, e a cada vez que um sino dobra não é apenas por aquele que parte, mas também um aviso, lembrete, eco da nossa própria finitude, som de interdependência. Não há morte que não nos toque e sofrimento que nos seja realmente alheio.

Na literatura, o sino é muitas vezes o anúncio que separa sagrado e profano, antes e depois, Ser e ausência. Toca-se o sino no nascimento, missa, casamento, enterro. Ele é o som da transição, passagem, clarim da mudança, nunca é neutro, carregando sempre um sentido, mesmo quando não o compreendemos. O sino é uma metáfora da mortalidade universal, que atravessa as paredes das igrejas e alcança o coração de todos. Quando o sino dobra por alguém, não é apenas lamento, mas também aviso: “Estás vivo, mas não imune.” 

Há um amor amargo nesse sino que nos une pelo sofrimento: “A morte de qualquer homem me diminui…”. Esse é o verso mais citado e o mais radical, porque dissolve o ego, afirmando que não há separação real entre os homens, mas apenas ilusões. Quando alguém morre, mesmo longe ou anônimo, algo em nós padece da mesma forma, porque somos parte de uma mesma tapeçaria da existência. Esta consciência dolorosa e sagrada! O sino, então, deixa de ser apenas instrumento litúrgico e se torna espelho acústico da nossa fragilidade comum e que nos obriga a lembrar que somos passageiros de um mesmo barco à deriva.

Ao longo dos séculos, o sino ecoou em muitos livros como a voz de um narrador invisível. Na poesia, o sino pode ser o som da alma (como em Edgar Allan Poe), anúncio do apocalipse ou mesmo a linguagem de Deus em silêncio. Ele sempre marca algo que termina ou que começa com a consciência de que um dia tudo terminará. Vivemos em um mundo saturado de vozes, mas carente de escuta. O sino talvez soe hoje mais necessário do que nunca, porque ele não chama apenas os mortos, mas convoca os vivos a acordarem. Ele diz: “Presta atenção. Não és ilha. A dor do outro é tua. E o fim do outro pode ser teu começo.”. É um convite à empatia profunda, não aquela sentimental e passageira, mas ontológica.  O sino não é de ferro; se faz carne, vibrando no espaço invisível entre as pessoas, exigindo ouvidos e corações atentos às suas súplicas. Ele não quer apenas consolar, mas despertar tudo aquilo que é simples, terrível ou belo.

Décadas depois, do lado de cá do Atlântico, outro visionário escuta o sino, mas desta vez não entre granadas e fuzis, porém entre delírios, ditaduras e a caretice sistêmica. Aqui, o sino não é mais apenas um aviso de morte, mas um sinal de alerta para a vida. Raul o usa como metáfora para a alienação, prisão mental, conformismo da sociedade que toca sinos apenas para os poderosos. O sino de Raul é a lucidez marginal, liberdade interior que resiste ao automatismo social. Há algo em comum com Hemingway: a ideia de que o sino que dobra por outro também toca dentro de nós; estamos todos entrelaçados.

Quando a banda Metálica lança, em 1984, o álbum Ride the Lightning, o sino aparece como prelúdio da destruição, como lamento de jovens mortos por nada, em uma guerra que não é romântica, mas brutal, absurda, insana. A marcha do tempo é indiferente e cega. O sino em Metallica não consola, mas explode um mundo já em colapso, onde a única certeza é o fim.  Paradoxalmente, o mais honesto dos sinos não promete glória ou redenção, apenas o vazio. 

Todavia, é a Palestina, esse pedaço de terra cercado por ódio, drones e silêncio, que deveria ser o lugar onde os sinos deveriam dobrar a cada minuto ou instante em que uma criança é morta, hospitais são bombardeados e mães choram sobre escombros e que não se escuta nada. Não há som. O mundo ocidental engoliu o badalar dos sinos e o substituiu por justificativas, estatísticas e narrativas geopolíticas. Porque para o mundo, nem toda vida tem o mesmo peso. O sino, esse símbolo da comunhão humana, exige reconhecimento do outro como semelhante. Mas a Palestina é, para muitos, um não-lugar habitado por não-humanos. A morte ali não comove, apenas “ocorre” e o sino não dobra porque a empatia foi suspensa. E onde não há empatia, não há sino. 

Os sinos dobram por Paris, Nova York, Kiev. Mas se calam na e pela Palestina, como se a vida ali fosse uma exceção à regra humana da dor compartilhada. Hemingway diria que isso nos diminui. Raul Seixas perguntaria por que dobram apenas por alguns. E o Metallica grita que o tempo avança e a indiferença é o verdadeiro carrasco. O que une Hemingway, Raul e Metallica é a consciência do fim e o sacrifício lúcido, despertar da consciência, grito contra o absurdo. A Palestina vive isso em tempo real, mas sem direito ao simbolismo. Não há literatura oficial para suas tragédias. Ou canção de lamento com reverberação global. O sino ali talvez dobre em cada coração palestino, mas não encontra eco no restante do mundo, porque dobrar-se exige escuta e o mundo escolheu não escutar a Palestina. 

Hemingway termina seu romance com Robert Jordan deitado sob o pinheiro, com a perna destroçada, prestes a enfrentar a morte de olhos abertos, mas em paz. O sino dobra por ele e sua morte tem significado, memória, narrativa. Na Palestina a morte é sem sino, nome ou rosto, silêncio assassino, o verdadeiro horror do nosso tempo: não a violência, mas a hierarquização e indiferença diante da morte. A ideia de que uns merecem sinos e outros apenas comer areia do deserto faz pensar que Raul Seixas nos avisaria com seu deboche profético: “O sistema é foda, te joga na lona e ainda tripudia”. A Palestina é isso: um povo na lona, sem sino ou lamento oficial, silêncio que mata duas vezes, o corpo e a memória. Os Sinos dobraram para os idealistas, rebeldes, para os que morrem sem glória. E pela Palestina? É o abismo onde o sino deveria ecoar, mas é o silêncio que impera. Isso nos condena. Porque se os sinos não dobram pela Palestina, estamos surdos e com isso os sinos nunca dobrarão por nós.

Wellington Lima Amorim psicanalista e professor associado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com pós-doutorado em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em desenvolvimento regional pela Universidade do Contestado (UNC), doutorado interdisciplinar em ciências humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e mestrado em filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Tem especializações em Teoria e Clínica Psicanalítica pela Universidade Celso Lisboa e sobre Ensino de Filosofia pela UNISINOS e é membro da Academia do Escritores do Litoral Norte do Rio Grande do Sul e psicanalista pelo Instituto Távola/Ribeirão Preto-SP.