‘Regavim’: novo posto fronteiriço de “israel” em Rafah carrega mensagem codificada de anexação
Nome de instalação militar israelense na passagem de Gaza com o Egito é ligado a um hino sionista e a uma ONG pró-colonos, sinalizando uma mudança do controle de segurança para uma apropriação de terras ao estilo da Cisjordânia e a desumanização dos palestinos.
Forças israelenses em um posto de controle em Rafah, Gaza, que estão verificando as identidades dos palestinos que entram com base em listas e inspecionando suas bagagens. [divulgação do exército israelense]
Por Mohammad Mansour*
A passagem fronteiriça de Rafah entre Gaza e o Egito foi reaberta parcialmente para alguns palestinos após um fechamento de 18 meses, acompanhado de uma restrição adicional para controlar o movimento dos que retornam. O exército israelense montou um posto de controle chamado Regavim em uma área sob seu controle fora da passagem, para aqueles que entram em Gaza vindos do Egito.
À medida que o primeiro pequeno fluxo de pessoas atravessou os portões na segunda-feira, documentos oficiais do exército israelense lhe atribuíram um nome que indica que a instalação já não está sendo tratada como uma passagem fronteiriça, mas como uma operação de controle populacional.
Em um comunicado oficial publicado em seu site no domingo, o exército israelense anunciou a conclusão do que chamou de “Nekez de Inspeção Regavim”.
Embora os militares israelenses apresentem essa linguagem técnica como rotineira, analistas disseram à Al Jazeera que a escolha das palavras “Regavim” e “Nekez” indica as intenções de longo prazo de Israel.
A Al Jazeera conversou com especialistas em assuntos israelenses que argumentaram que esses termos revelam uma estratégia dupla: evocar a nostalgia sionista para reivindicar a terra, enquanto se utilizam termos de engenharia para desumanizar o povo palestino.
Código histórico: ‘torrão após torrão’
Para o analista Mohannad Mustafa, o nome Regavim não é aleatório; trata-se de um gatilho ideológico deliberado, destinado a ressoar com a base de extrema direita do governo israelense.
“Em hebraico, Regavim significa ‘torrões de terra’ ou parcelas de terra arável”, explicou Mustafa. “Mas não é apenas uma palavra. É um gatilho para a memória coletiva sionista da redenção da terra.”
O termo está indissociavelmente ligado à canção e poema infantis sionistas Dunam Po Ve Dunam Sham (Um dunam aqui, um dunam ali), de Joshua Friedman, que foi um hino do movimento inicial de colonização. A letra celebra a aquisição de terras: “Um dunam aqui e um dunam ali / Torrão após torrão (Regev ahar regev) / Assim redimiremos a terra do povo.”
“Ao nomear oficialmente o corredor de Rafah como Regavim, o exército está enviando uma mensagem subliminar”, disse Mustafa. “Eles estão enquadrando sua presença em Gaza não como uma missão temporária de segurança, mas como uma forma de ‘redenção da terra’, idêntica à ideologia dos primeiros pioneiros.”
Código político: o ‘modelo Cisjordânia’
Para além da nostalgia histórica, o nome tem uma ligação direta com os arquitetos contemporâneos das políticas de anexação de Israel: o Movimento Regavim.
Essa ONG de extrema direita, cofundada em 2006 pelo ministro das Finanças Bezalel Smotrich, tem sido a principal força por trás da expansão do controle israelense na Cisjordânia ocupada. Uma investigação de 2023 do jornal israelense Haaretz detalhou como a organização se tornou, na prática, o “oficial de inteligência” do Estado, usando drones e dados de campo para mapear e demolir estruturas palestinas na Área C — os 61% da Cisjordânia ocupada sob controle total de Israel.
Mustafa argumentou que aplicar esse nome à passagem de Rafah sinaliza a transferência do modelo de “administração civil” da Cisjordânia para Gaza.
“Isso sugere que Gaza já não é uma entidade separada, mas um território a ser administrado com as mesmas ferramentas usadas para impedir a criação de um Estado palestino na Judeia e Samaria”, disse Mustafa, utilizando os termos israelenses para a Cisjordânia.
Código operacional: uma ‘marca política’ e um ‘dreno’
O analista Ihab Jabareen leva o nome Regavim um passo adiante. Ele argumentou que o termo evoluiu para além de seu significado linguístico, tornando-se uma “marca política” moderna da direita colonizadora, usada para normalizar uma presença israelense de longo prazo.
No entanto, Jabareen afirmou que o uso do termo Nekez no comunicado militar israelense anuncia um perigo ainda maior.
“Enquanto Regavim opera como uma marca política, Nekez revela a mentalidade fria e engenheirística dos militares”, disse Jabareen à Al Jazeera. “Um nekez é um ponto de drenagem. É um termo hidráulico usado para gerir esgoto, águas de enchente ou irrigação — não para processar seres humanos.”
Jabareen argumentou que descrever uma passagem fronteiriça humana como um “dreno” reflete três pressupostos inquietantes agora formalizados na doutrina militar:
- Desumanização: “O palestino já não é um cidadão. Ele é uma ‘massa fluida’ ou um ‘fluxo’ que deve ser regulado para evitar transbordamentos”, disse Jabareen.
- Fim das negociações: “Você não negocia com um dreno. Rafah já não é uma fronteira política sujeita à soberania. É um problema de engenharia a ser administrado.”
- Infraestrutura, não fronteira: “A segurança agora está sendo gerida como um sistema de esgoto — puramente técnica, desprovida de direitos.”
“Isso é mais frio e mais perigoso do que a retórica colonizadora padrão”, alertou Jabareen. “Converte a questão política de Gaza em uma função técnica permanente.”
Uma fórmula para o ‘controle silencioso’
Ambos os analistas concordaram que a adoção oficial desses dois termos aponta para uma realidade que não é nem uma retirada completa nem uma anexação declarada.
“É uma fórmula de ‘controle silencioso’”, explicou Jabareen. “Israel não precisa declarar assentamentos imediatos para controlar o território. Ao tratar a terra como ‘Regavim’ (solo a ser mantido) e as pessoas como um ‘Nekez’ (um fluxo a ser filtrado), eles estão estabelecendo uma realidade de longo prazo em que Gaza é um espaço administrado, nunca uma entidade independente.”
Mustafa concordou: “O nome ‘Regavim’ diz aos colonos: ‘Retornamos à terra’. E a designação oficial ‘Nekez’ diz ao aparato de segurança: ‘Temos a válvula para abrir ou fechar o fluxo humano à vontade’.”
* Jornalista vinculado à Al Jazeera. Reportagem publicada em 02/02/2026 no site da Al Jazeera.
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