“israel” usou armas em Gaza que fizeram milhares de palestinos evaporarem

Investigação da Al Jazeera revela como munições térmicas e termobáricas fornecidas pelos EUA, que queimam a 3.500°C, não deixaram vestígios de quase 3.000 palestinos.

11/02/2026

Pessoas tentam apagar um incêndio no local de um ataque israelense contra tendas que abrigavam palestinos deslocados em Deir el-Balah, na região central da Faixa de Gaza, em 14 de outubro de 2024 [Ramadan Abed/Reuters]

Por Mohammad Mansour*

Ao amanhecer de 10 de agosto de 2024, Yasmin Mahani caminhava pelas ruínas ainda fumegantes da escola al-Tabin, na Cidade de Gaza, procurando seu filho, Saad. Ela encontrou o marido gritando, mas de Saad não havia qualquer vestígio.

“Entrei na mesquita e me vi pisando em carne e sangue”, disse Mahani à Al Jazeera Árabe para uma investigação exibida na segunda-feira. Ela procurou por dias em hospitais e necrotérios. “Não encontramos nada de Saad. Nem mesmo um corpo para enterrar. Essa foi a parte mais difícil.”

Mahani é uma das milhares de palestinas e palestinos cujos entes queridos simplesmente desapareceram durante a guerra genocida de Israel contra Gaza, que matou mais de 72 mil pessoas.

Segundo a investigação da Al Jazeera Árabe, The Rest of the Story, equipes da Defesa Civil em Gaza documentaram 2.842 palestinos que “evaporaram” desde o início da guerra, em outubro de 2023, não deixando restos além de respingos de sangue ou pequenos fragmentos de carne.

Especialistas e testemunhas atribuíram esse fenômeno ao uso sistemático, por Israel, de armas térmicas e termobáricas internacionalmente proibidas, frequentemente chamadas de bombas de vácuo ou de aerossol, capazes de gerar temperaturas superiores a 3.500 graus Celsius.

Contabilidade forense macabra

O número de 2.842 não é uma estimativa, mas o resultado de uma contabilidade forense macabra realizada pela Defesa Civil de Gaza.

O porta-voz Mahmoud Basal explicou à Al Jazeera que as equipes utilizam um “método de eliminação” nos locais atingidos. “Entramos em uma casa alvo de bombardeio e cruzamos o número conhecido de ocupantes com os corpos recuperados”, disse Basal.

“Se uma família nos diz que havia cinco pessoas dentro, e recuperamos apenas três corpos intactos, tratamos as duas restantes como ‘evaporadas’ somente após uma busca exaustiva não revelar nada além de vestígios biológicos — respingos de sangue nas paredes ou pequenos fragmentos como couro cabeludo”, acrescentou.

A química do apagamento

A investigação detalhou como composições químicas específicas nas munições israelenses transformam corpos humanos em cinzas em segundos.

Vasily Fatigarov, especialista militar russo, explicou que armas termobáricas não apenas matam; elas obliteram a matéria. Diferentemente dos explosivos convencionais, essas armas dispersam uma nuvem de combustível que se inflama para criar uma enorme bola de fogo e um efeito de vácuo.

“Para prolongar o tempo de combustão, pós de alumínio, magnésio e titânio são adicionados à mistura química”, disse Fatigarov. “Isso eleva a temperatura da explosão para entre 2.500 e 3.000 graus Celsius.”

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Segundo a investigação, o calor intenso é frequentemente gerado pelo tritonal, uma mistura de TNT e pó de alumínio usada em bombas fabricadas nos Estados Unidos, como a MK-84.

O Dr. Munir al-Bursh, diretor-geral do Ministério da Saúde palestino em Gaza, explicou o impacto biológico de calor tão extremo sobre o corpo humano, que é composto por cerca de 80% de água.

“O ponto de ebulição da água é 100 graus Celsius”, disse al-Bursh. “Quando um corpo é exposto a energia superior a 3.000 graus combinada com pressão maciça e oxidação, os fluidos entram instantaneamente em ebulição. Os tecidos se vaporizam e se transformam em cinzas. É quimicamente inevitável.”

Anatomia das bombas

A investigação identificou munições específicas fabricadas nos EUA usadas em Gaza e ligadas a esses desaparecimentos:

MK-84 ‘Hammer’: Essa bomba não guiada de 900 kg, carregada com tritonal, gera calor de até 3.500°C.

BLU-109 “bunker buster”: Usada em um ataque a al-Mawasi, área que Israel havia declarado “zona segura” para palestinos deslocados à força em setembro de 2024, essa bomba evaporou 22 pessoas. Possui revestimento de aço e espoleta de retardo, enterrando-se antes de detonar uma mistura explosiva PBXN-109. Isso cria uma grande bola de fogo em espaços fechados, incinerando tudo ao alcance.

GBU-39: Essa bomba planadora de precisão foi usada no ataque à escola al-Tabin. Utiliza o explosivo AFX-757. “A GBU-39 é projetada para manter a estrutura do edifício relativamente intacta enquanto destrói tudo em seu interior”, observou Fatigarov. “Ela mata por meio de uma onda de pressão que rompe os pulmões e de uma onda térmica que incinera tecidos moles.”

Basal, da Defesa Civil, confirmou a descoberta de fragmentos das asas da GBU-39 em locais onde corpos haviam desaparecido.

Um “genocídio global, não apenas israelense”

Especialistas jurídicos afirmaram que o uso dessas armas indiscriminadas implica não apenas Israel, mas também seus fornecedores ocidentais.

“Este é um genocídio global, não apenas israelense”, disse a advogada Diana Buttu, professora na Universidade de Georgetown, no Catar.

Falando no Fórum Al Jazeera, em Doha, Buttu argumentou que a cadeia de suprimentos é prova de cumplicidade. “Vemos um fluxo contínuo dessas armas dos Estados Unidos e da Europa. Eles sabem que essas armas não distinguem entre um combatente e uma criança, e ainda assim continuam a enviá-las.”

Buttu enfatizou que, segundo o direito internacional, o uso de armas que não podem distinguir entre combatentes e não combatentes constitui crime de guerra.

“O mundo sabe que Israel possui e utiliza essas armas proibidas”, disse Buttu. “A questão é por que lhes é permitido permanecer fora do sistema de responsabilização.”

Colapso da justiça internacional

Apesar de a Corte Internacional de Justiça ter emitido medidas provisórias contra Israel em janeiro de 2024, ordenando que prevenisse atos de genocídio, e de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu ter sido emitido em novembro de 2024, as mortes se intensificaram.

Tariq Shandab, professor de direito internacional, argumentou que o sistema de justiça internacional “falhou no teste de Gaza”.

“Desde o acordo de cessar-fogo [em outubro], mais de 600 palestinos foram mortos”, disse Shandab. Ele destacou que a guerra continuou por meio de cerco, fome e bombardeios. “O bloqueio de medicamentos e alimentos é, por si só, um crime contra a humanidade.”

Shandab apontou para a “impunidade” concedida a Israel pelo poder de veto dos EUA no Conselho de Segurança da ONU. No entanto, observou que tribunais de jurisdição universal em países como Alemanha e França poderiam oferecer um caminho alternativo para a justiça, desde que haja vontade política.

Para Rafiq Badran, que perdeu quatro filhos no campo de refugiados de Bureij durante a guerra, essas definições técnicas significam pouco. Ele só conseguiu recuperar pequenas partes dos corpos dos filhos para enterrar.

“Quatro dos meus filhos simplesmente evaporaram”, disse Badran, contendo as lágrimas. “Procurei por eles um milhão de vezes. Não restou nem um pedaço. Para onde eles foram?”

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