A fome imposta por “israel” em Gaza deixa crianças com crescimento comprometido
Crianças e bebês palestinos desnutridos durante a fome provocada por "israel" sofrem problemas permanentes de desenvolvimento e carecem de atendimento especializado.
Mohammed Ahmed Massoud al-Sousi, de dez anos, que sofre de desnutrição devido às restrições impostas por "israel" à entrada de ajuda humanitária em Gaza, está sentado dentro de uma tenda na Cidade de Gaza, em 6 de maio de 2026 (Bilal Osama/IMAGO/APAimages via Reuters).
Por Nada Nabil*
Em um pequeno cômodo no bairro de Sabra, na Cidade de Gaza, Amira Rashid, de seis anos, está deitada sobre um colchão, fraca demais para se mover.
Suas mãos estão machucadas e arroxeadas por causa das injeções intravenosas que vem recebendo.
Em circunstâncias normais, a menina palestina estaria se preparando para iniciar seu primeiro ano escolar ainda neste mês.
Em vez disso, meses de fome imposta por “israel” durante o genocídio em Gaza a deixaram gravemente desnutrida e com crescimento comprometido, com efeitos duradouros em seu desenvolvimento físico e cognitivo.
“Eu esperava matricular Amira na escola, comprar um uniforme, uma mochila e material escolar como as outras crianças”, disse sua mãe, Aya Rashid, ao Middle East Eye.
“Mas o estado de saúde dela a impede de sair de casa ou interagir com outras crianças.”
Amira está entre as dezenas de milhares de crianças que sofreram desnutrição durante o cerco de “israel” a Gaza, iniciado em outubro de 2023.
Sua família também esteve entre as centenas de milhares que permaneceram no norte de Gaza durante toda a guerra.
Em agosto de 2025, a Classificação Integrada das Fases de Segurança Alimentar (IPC), apoiada pela ONU, declarou estado de fome na Cidade de Gaza, onde vivia a família Rashid.
“Sofremos imensamente com a fome e a grave escassez de alimentos”, afirmou Aya.
“Ficamos sem farinha, e não havia mais nos mercados. Como não havia ajuda alimentar disponível, eu só conseguia assar pão de cevada.”
Crescimento comprometido
Mas a condição de Amira começou a se deteriorar meses antes.
Em janeiro de 2025, após a menina reclamar de dores no peito, Aya a levou ao Hospital Infantil Abdel Aziz al-Rantisi.
Os médicos ficaram chocados com sua altura e peso, muito abaixo do esperado para sua idade.
“Quando um médico a viu, ficou espantado”, recordou Aya.
“Ele disse que ela precisava imediatamente de exames completos; estava em uma condição terrível.”
Os exames confirmaram que Amira sofria de desnutrição aguda grave, que havia causado severo atraso de crescimento.
Apesar de ver a filha ficar cada vez mais debilitada, Aya não conseguiu garantir o tratamento de que ela precisava durante a guerra.
Mesmo após a internação de Amira no al-Rantisi, seu quadro não melhorou. Seu peso permaneceu estagnado e ela parou de crescer.
“É devastador. Passei tanto tempo em hospitais e consultórios médicos, mas eles dizem que a desnutrição que ela sofreu causou danos graves e permanentes ao seu corpo.”
Hoje, Amira pesa apenas 12,5 kg e mede um metro de altura. Embora tenha seis anos, os médicos dizem que sua idade óssea corresponde à de uma criança de dois anos.
Após a assinatura do cessar-fogo em outubro de 2025, Aya esperava que a condição da filha finalmente melhorasse. Mas pouca coisa mudou.
“Pensei que ela melhoraria quando a trégua começasse e os alimentos entrassem. Nunca imaginei que tivesse chegado ao ponto de se tornar uma doença clínica.”
Os médicos disseram a Aya que o organismo de Amira já não responde ao tratamento, apesar de ela não apresentar alergias nem problemas de absorção de nutrientes.
“Perdi toda a esperança de vê-la se recuperar dentro de Gaza depois de esgotar todos os tratamentos disponíveis. Até os médicos agora dizem que sua condição exige que viaje para o exterior.”
Aya lamenta não apenas o declínio físico da filha, mas também aquilo que descreve como uma regressão em seu desenvolvimento cognitivo. Hoje, Amira interage principalmente com crianças de dois ou três anos.
“Amira não sabe ler nem escrever, e todas as pessoas com quem convive são crianças muito pequenas.”
“Você sabe qual é o meu desejo agora?”, perguntou Aya. “Encontrar uma calça que realmente sirva na cintura da minha filha, parar de ver suas costelas saltadas e vê-la sentada numa sala de aula junto com seus colegas.”
Faminta ainda no ventre materno
Em seu relatório de agosto de 2025, o IPC projetou que pelo menos 132 mil crianças menores de cinco anos sofreriam de desnutrição aguda até junho de 2026. Também estimou que quase 55,5 mil mulheres grávidas e lactantes desnutridas precisariam de apoio nutricional urgente.
A crise deixou marcas duradouras não apenas em crianças como Amira, mas também em bebês que ainda estavam no ventre materno quando suas mães passavam fome.
Entre eles está Amna Abu al-Hasani, de dez meses, cuja mãe sofreu desnutrição durante a gravidez.
Amna nasceu prematuramente por cesariana de emergência no oitavo mês de gestação, pesando apenas 1,2 kg. Dois meses depois, os médicos diagnosticaram aumento do coração causado pelo enfraquecimento do músculo cardíaco, além de grave atraso de crescimento.
“A desnutrição da minha filha começou ainda no útero”, disse ao MEE seu pai, Youssef Abu al-Hasani.
Aos dez meses, Amna pesa apenas 5,5 kg e recentemente foi diagnosticada com desnutrição aguda grave.
“Minha filha agora sofre de graves complicações no coração, nos rins e nos pulmões”, afirmou Abu al-Hasani, de 29 anos.
“Os médicos nos disseram que todos esses problemas têm origem fundamentalmente no fato de ela ter nascido desnutrida e abaixo do peso.”
Apesar de utilizar auxílios financeiros esporádicos para comprar frutas e suplementos nutricionais, Abu al-Hasani afirma que é impotente diante da deterioração da saúde da filha.
“A realidade é que as instalações médicas de Gaza não conseguem tratar minha filha, nem da desnutrição nem dos outros problemas de saúde. Embora ela tenha um encaminhamento médico urgente para viajar ao exterior, sua vez ainda não chegou.”
Abu al-Hasani teme pelo futuro da filha. Os médicos não conseguem confirmar se ela possui doenças subjacentes sem exames especializados indisponíveis em Gaza.
“Tudo o que espero é que minha filha tenha uma chance de viver, que consiga seu direito ao tratamento no exterior e volte para nossos braços com boa saúde.”
Crise humanitária
Apesar da capacidade extremamente limitada dos hospitais, postos médicos e clínicas que ainda funcionam em Gaza, as famílias de crianças desnutridas não têm para onde recorrer.
O bloqueio de “israel” devastou o sistema de saúde do território, ao mesmo tempo em que impôs severas restrições às viagens médicas para tratamento no exterior.
O Dr. Mohammed Abu Rai, chefe da clínica de nutrição do Hospital al-Rantisi, disse ao MEE que a unidade recebe dezenas de crianças desnutridas todos os dias, obrigando a equipe a abrir enfermarias adicionais para lidar com o fluxo de pacientes.
Embora um novo relatório do IPC publicado neste mês tenha registrado uma redução da desnutrição aguda após o cessar-fogo, alertou que mais de 74 mil crianças ainda precisarão de tratamento para desnutrição aguda até abril de 2027.
Estima-se também que 24,6 mil mulheres grávidas e lactantes sofram de desnutrição aguda no mesmo período.
Apesar do cessar-fogo, “israel” não cumpriu suas obrigações de ampliar o fluxo de ajuda para Gaza, perpetuando a crise humanitária que criou.
“A entrada de alimentos e carne na Faixa não é suficiente para tratar a desnutrição infantil nem para resolver a crise alimentar da população após o cessar-fogo”, afirmou Abu Rai.
“As verduras e frutas que entram em Gaza são vendidas a preços exorbitantes, que a maioria das pessoas simplesmente não pode pagar.”
Abu Rai também apontou a baixa qualidade da carne disponível em Gaza. Com granjas avícolas e fazendas de criação destruídas, o território depende quase totalmente de carne congelada.
“A carne congelada tem metade do valor nutricional da carne fresca, e os graves cortes de energia e as condições inadequadas de armazenamento reduzem ainda mais seus benefícios”, explicou.
Enquanto isso, a falta de financiamento está forçando agências humanitárias a reduzir as rações alimentares em Gaza, colocando em risco uma nova deterioração da segurança alimentar, segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA).
Abu Rai afirmou ainda que suprimentos de ajuda podem permanecer durante semanas sob o sol escaldante nos postos de fronteira, degradando ainda mais alimentos e produtos nutricionais essenciais.
“Até alimentos básicos como arroz e lentilhas perdem valor nutricional, enquanto os suplementos destinados às crianças chegam em quantidades pequenas demais para atender sequer uma única família”, disse.
À medida que mais crianças sofrem de desnutrição, também cresce o número daquelas com atraso de crescimento.
“A desnutrição provoca graves distúrbios de crescimento, como o nanismo nutricional, devido à falta de nutrientes vitais”, afirmou Abu Rai, acrescentando que cerca de 18% de seus pacientes atualmente sofrem desse problema.
Enquanto Abu Rai percorre os leitos do hospital monitorando seus jovens pacientes, as famílias Rashid e Abu al-Hasani verificam ansiosamente seus telefones, aguardando uma mensagem ou ligação confirmando a data em que seus filhos poderão viajar ao exterior para tratamento.
“Sobrevivemos milagrosamente à morte certa várias vezes durante a guerra”, disse Aya Rashid.
“O que temo agora é perder minha filha para a desnutrição, e não para as bombas.”
* Jornalista e advogada especializada em direitos humanos baseada em Gaza. Reportagem publicada, a partir da Cidade de Gaza, no Middle East Eye em 19/08/2026.
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