O candidato Lula que incomoda Trump e Netanyahu

23/10/2026
Por: Emir Mourad

No dia seguinte ao primeiro turno, em 5 de outubro, Donald Trump celebrou nas redes a “grande vitória” de Flávio Bolsonaro sobre Luiz Inácio Lula da Silva, ainda que previsse um segundo turno “muito acirrado” [1]. Na mesma manhã, Benjamin Netanyahu parabenizou o senador e desejou uma “grande vitória” no segundo turno, prometendo “restabelecer a extraordinária amizade” entre Israel e o Brasil [2]. Quando o comandante do imperialismo norte-americano e o primeiro-ministro que conduz o genocídio palestino celebram, em coro, um resultado eleitoral em Brasília, é porque o pleito brasileiro transborda as fronteiras do país.

Os números do primeiro turno — 47% dos votos válidos para Flávio Bolsonaro contra 45% de Lula, com segundo turno marcado para 25 de outubro [3] — encerram uma campanha que foi, do início ao fim, objeto de intervenção estrangeira documentada: tarifas, sanções, listas de exigências e lobby. A eleição presidencial de 2026 é uma frente da mesma guerra que o imperialismo trava contra os povos do Sul Global e a causa palestina, longe de ser tema distante, é a linha que separa os dois projetos em embate no Planalto.

Tarifas, sanções e o lobby de Flávio Bolsonaro em Washington

A interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira não é hipótese conjectural: é política de Estado documentada. Em julho de 2025, o governo Trump impôs tarifas de 50% sobre as exportações brasileiras e sancionou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. O objetivo da operação: o presidente norte-americano acusava o Brasil de conduzir uma “caça às bruxas” contra seu aliado Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por golpe de Estado, e exigia a suspensão do julgamento [4] [5].

Em junho de 2026, com a eleição em curso, Trump rompeu a trégua firmada com Lula e anunciou nova rodada de tarifas — uma tarifa geral de 25% sobre produtos brasileiros — acompanhada da classificação de facções criminosas brasileiras como organizações “terroristas”. As medidas foram precedidas pela articulação de Flávio Bolsonaro junto ao governo norte-americano, manobra que o Intercept analisou como um “tiro no pé” do candidato, obrigado a tentar reverter o tarifaço que ajudou a provocar [6]. O candidato à Presidência esteve seis vezes nos Estados Unidos ao longo do ano eleitoral [7]. Em setembro, foi revelado o conteúdo das exigências apresentadas por Washington ao governo brasileiro: a lista incluía, expressamente, as eleições de 2026 e a proteção a “dissidentes políticos” [8]. Diante do conjunto, a resposta de Lula a Trump, dita cara a cara, resume a contradição central:

“Nós não aceitamos ingerência de ninguém nas eleições. E se entrar, vai perder.” Luiz Inácio Lula da Silva, ao relatar o que disse a Donald Trump [9].

A Palestina no centro da disputa

Em fevereiro de 2024, ao classificar como genocídio a ofensiva israelense em Gaza e compará-la ao Holocausto, Lula foi declarado persona non grata pelo governo israelense [10]. A ruptura nunca foi recomposta: o Brasil está sem embaixador em Tel Aviv desde 2025, e Israel passou a ser representado em Brasília por um mero encarregado de negócios [11].

É contra esse pano de fundo que os dois projetos de política externa se definem. O plano de governo de Lula defende o fortalecimento do Sul Global, dos Brics e da integração regional — a linha da política externa ativa e altiva que reconheceu o Estado da Palestina e chamou o genocídio pelo nome — e declara expressamente: “Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica” [12]. O plano de Flávio Bolsonaro prevê aproximação com os Estados Unidos, Israel e a Argentina de Javier Milei, e o candidato desqualifica a postura soberanista do adversário: para ele, a soberania deve ser exercida “na prática”, não por meio de “bravatas”. A ironia não escapa ao leitor atento: quem tratou a defesa da soberania como bravata foi o mesmo que articulou em Washington, em seis viagens ao longo do ano eleitoral, o lobby que levou o governo de Donald Trump a impor tarifas contra o próprio país.

A imprensa internacional caracterizou a eleição brasileira como um teste para a estratégia de Trump na América Latina: a reedição da Doutrina Monroe de 1823 [13]. Paulo Nogueira Batista Jr., economista, sintetizou a dimensão da campanha eleitoral:

“A soberania brasileira corre um risco inédito na nossa história como nação. Vivemos a eleição mais perigosa de todos os tempos, por causa da conjunção de dois fatores: a candidatura competitiva de Flávio Bolsonaro e a nova fase da política internacional dos Estados Unidos.” Paulo Nogueira Batista Jr [14].

Em termos materiais, o que está em questão é o conjunto dos recursos estratégicos brasileiros: o pré-sal, as terras raras, a Amazônia e a política energética. A Argentina de Javier Milei que, segundo a BBC, compartilha com Trump a antipatia por Lula, opera como peça do tabuleiro do eixo Washington–Buenos Aires. Mas há um custo desta subordinação que os números macroeconômicos não captam e que a coluna publicada no Palestina em Transe, em 14 de outubro, expôs com precisão. Caso o Brasil adote, como exige a agenda de Washington, a lista norte-americana de organizações “terroristas” — a mesma que, desde 2014, criminaliza com critérios abertamente raciais a comunidade libanesa da Tríplice Fronteira —, os primeiros afetados serão os trabalhadores árabes e muçulmanos brasileiros: famílias monitoradas, remessas a parentes no exterior bloqueadas, sobrenomes convertidos em dossiê.

“No fim das contas, transforma-se a identidade de toda uma comunidade em motivo de suspeita e discriminação.” Coluna do Palestina em Transe

Aqui, a Palestina deixa de ser tema de política externa para se tornar questão interna brasileira. A lógica que sustenta o genocídio em Gaza — a criminalização preventiva do árabe e do muçulmano, fundada na ideologia sionista que define todo palestino como ameaça — seria importada para dentro do Brasil por meio da lista de “terrorismo” de Washington. A eleição decide, portanto, não apenas com quem o Estado brasileiro se alinha, mas contra quem ele pode virar suas agências de repressão.

Eleição ou operação de desestabilização?

Postas lado a lado, as peças do quebra-cabeça revelam que o Brasil não vive uma campanha eleitoral comum: o objeto imediato é a eleição, mas os instrumentos em jogo — tarifas impostas como pressão sobre o pleito, uma lista de exigências que incluía expressamente as eleições de 2026, lobby em Washington e sanções contra um ministro do Supremo Tribunal Federal — pertencem ao repertório da coerção interestatal, não ao de um litígio entre brasileiros. A pergunta que o público brasileiro precisa formular não é se haverá interferência, ela está documentada, mas como distinguir um processo eleitoral de uma operação de desestabilização conduzida por uma potência estrangeira. O adversário não tem como alvo apenas urnas: disputa a soberania nacional. E o voto popular, em 25 de outubro, é o último obstáculo institucional que resta.

A causa palestina é, hoje, a linha que divide o mundo e divide o Brasil. De um lado, o projeto de Luiz Inácio Lula da Silva, que reconheceu o Estado da Palestina, chamou o genocídio pelo nome e aposta na multipolaridade; de outro, o projeto da extrema-direita de Flávio Bolsonaro, que promete “restabelecer a extraordinária amizade” com o Estado racista de Israel, que executa o genocídio, e subordina o país ao eixo Washington–Tel Aviv. Entre um e outro, não há neutralidade possível: como ensina a história da Nakba, a indiferença diante da colonização é sempre cumplicidade.

Referências

[1] Brasil 247 — Trump elogia Flávio Bolsonaro e prevê disputa acirrada com Lula — https://www.brasil247.com/brasilia/trump-elogia-flavio-bolsonaro-e-preve-disputa-acirrada-com-lula

[2] Brasil 247 — Maior assassino do século XXI, Netanyahu deseja “grande vitória” a Flávio Bolsonaro no segundo turno — https://www.brasil247.com/mundo/maior-assassino-do-seculo-xxi-netanyahu-deseja-grande-vitoria-a-flavio-bolsonaro-no-segundo-turno/

[3] DW — Eleições 2026: os resultados do primeiro turno em gráficos — https://www.dw.com/pt-br/elei%C3%A7%C3%B5es-2026-os-resultados-do-primeiro-turno-em-gr%C3%A1ficos/a-79563340

[4] BBC News Brasil — Lei Magnitsky: EUA aplicam sanções financeiras contra Alexandre de Moraes — https://www.bbc.com/portuguese/articles/c8ryl2px01mo

[5] BBC News Brasil — ‘Milei e Trump compartilham antipatia por Lula e ficariam satisfeitos com eleição de Flávio Bolsonaro’ — https://www.bbc.com/portuguese/articles/c20480883nno

[6] The Intercept Brasil — Flávio Bolsonaro dá tiro no pé ao tentar reverter ‘tarifaço’ de Trump — https://www.intercept.com.br/2026/06/30/flavio-bolsonaro-tiro-no-pe-reverter-tarifaco/

[7] Brasil de Fato — Em meio a denúncias de interferência de Trump, Flávio foi seis vezes aos EUA neste ano eleitoral — https://www.brasildefato.com.br/2026/10/02/em-meio-a-denuncias-de-interferencia-de-trump-flavio-foi-seis-vezes-aos-eua-neste-ano-eleitoral/

[8] DCM — Diário do Centro do Mundo — Abin alerta Lula e TSE para nível “crítico” de interferência dos EUA na eleição — https://www.diariodocentrodomundo.com.br/abin-alerta-lula-e-tse-para-nivel-critico-de-interferencia-dos-eua-na-eleicao

[9] G1 — Lula afirma ter dito a Trump que Brasil não aceita ingerência de ninguém nas eleições — https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/09/04/lula-afirma-ter-dito-a-trump-que-brasil-nao-aceita-ingerencia-de-ninguem-nas-eleicoes.ghtml

[10] G1 — Israel declara Lula como ‘persona non grata’ após presidente comparar ação contra palestinos em Gaza ao Holocausto — https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/02/19/israel-declara-lula-como-persona-non-grata.ghtml

[11] CNN Brasil — Líderes da direita apoiam Flávio após resultado das eleições no Brasil — https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/flavio-lideres-direita-repercussao-1-turno/

[12] Brasil 247 — Lula aposta no Sul Global e na soberania, enquanto Flávio Bolsonaro prioriza aproximação com EUA e Israel — https://www.brasil247.com/poder/lula-aposta-no-sul-global-e-na-soberania-enquanto-flavio-bolsonaro-prioriza-aproximacao-com-eua-e-israel/

[13] UFF — Da Doutrina Monroe à “Doutrina Donroe”: breve análise da territorialização geopolítica colonial-imperial dos Estados Unidos no “Hemisfério Ocidental” — https://periodicos.uff.br/geographia/article/view/71139

[14] CartaCapital — Paulo Nogueira Batista Jr.: A soberania brasileira corre um risco inédito — https://www.cartacapital.com.br/opiniao/soberania-em-jogo/

Emir Mourad Secretário-Geral da Confederação Palestina Latino-americana e do Caribe (COPLAC). Estudou Língua, Literatura e Cultura Árabe na Universidade de São Paulo (USP). Editor da newsletter Palestina em Foco e condutor do Canal da Geopolítica no YouTube, escreve sobre a Palestina e as relações internacionais.