A União Europeia e a ética de fazer comércio com “israel”: o que mudou?
A UE é o maior parceiro comercial de Israel. A relação comercial é avaliada em mais de €45 bilhões por ano.
Uma reunião do Conselho de Assuntos Externos da União Europeia. (Foto: via Wikipedia)
Por Martin Cohen*
Foram necessários muitos anos, mas o dia 20 de maio foi um marco importante para os direitos humanos na Palestina. Nesse dia, a Comissão Europeia — que deveria ter agido há décadas — finalmente concordou em revisar o acordo de cooperação entre a UE e Israel.
Esse acordo, disponível apenas para países que respeitam os valores da União Europeia, inclui o Artigo 2º do acordo comercial União Europeia-Israel, em vigor há 24 anos, que afirma que “as relações entre as Partes, bem como todas as disposições do próprio Acordo, basear-se-ão no respeito pelos direitos humanos e pelos princípios democráticos, que orientam sua política interna e internacional e constituem um elemento essencial deste Acordo.”
E não é apenas uma condição para a assinatura do acordo — a continuidade da relação comercial está condicionada ao respeito por esses princípios.
Isso é algo significativo. Os EUA despejam dinheiro em Israel, mas principalmente na forma de ajuda militar — usada para matar civis palestinos e devastar países vizinhos como o Líbano.
Isso tem valor para os falcões da extrema-direita israelense, mas não coloca comida nos pratos dos cidadãos israelenses. O mesmo não se pode dizer do acordo comercial UE-Israel. A UE é o maior parceiro comercial de Israel. A relação comercial é avaliada em mais de €45 bilhões por ano.
E agora, 17 dos 27 ministros das Relações Exteriores do bloco querem que o elemento de direitos humanos do acordo comercial seja aplicado, apoiando a moção apresentada com coragem no início deste mês pelo ministro das Relações Exteriores da Holanda, Caspar Veldkamp.
“Está claro, pelas discussões de hoje, que há uma forte maioria a favor de uma revisão do Artigo 2º do nosso Acordo de Associação com Israel”, declarou à imprensa em Bruxelas, no dia 20 de maio, a Alta Representante da UE para Relações Exteriores, Kaja Kallas.
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A razão pela qual levou tanto tempo para que a revisão fosse realizada se resume a uma palavra: Alemanha. Se dez países votaram contra a revisão na terça-feira, a oposição da Alemanha “nos bastidores” foi, na verdade, a única que realmente importou. E, evidentemente, nos bastidores, a Alemanha mudou de posição.
O governo de centro-direita do país não estava disposto a participar ativamente de um genocídio no século XXI. No dia da votação, afinal, as manchetes dos jornais falavam que 93% das crianças em Gaza — ou seja, quase um milhão de crianças — estavam em risco de fome, enquanto Israel — com apoio dos EUA — apertava o cerco à Faixa.
As Nações Unidas advertiram, não de forma hiperbólica, mas como um fato frio e concreto, que cerca de 14 mil bebês morreriam nas próximas 48 horas sob a política do governo israelense.
E assim, pode-se dizer que a represa se rompeu. A Comissão Europeia, dominada por Alemanha e França, cedeu aos apelos por uma “revisão” do tratado que há muito tempo oferece a Israel os meios para esmagar os palestinos — com dinheiro sobrando para enfraquecer as economias dos vizinhos.
Mas será que esta Comissão liderada pela Alemanha vai suspender o acordo? Ou é apenas uma manobra política, para ganhar tempo? Descobriremos. Mas tudo depende do abandono, pela Alemanha, de sua desastrosa política doméstica chamada Staatsräson — “razão de Estado” em inglês.
De forma geral, essa política visa elevar os interesses de Israel, definido como um Estado judeu, acima de qualquer outro país ou comunidade. Pesquisas recentes mostram que apenas cerca de um terço dos alemães apoia a Staatsräson pró-Israel, enquanto 43% são contra. Mas até agora, as elites no poder têm vivido aterrorizadas por essa minoria.
A Staatsräson torna a segurança de Israel um interesse fundamental da Alemanha — e os julgamentos sobre essa segurança têm sido vergonhosamente deixados a cargo de Israel, independentemente da orientação política do governo israelense.
O resultado é que, mesmo com o número de mortes palestinas disparando — e mesmo com organizações internacionais de direitos humanos soando o alarme e pedindo ação para proteger centenas de milhares de vítimas palestinas — a Alemanha aumentou massivamente seu apoio político e material.
As autorizações de exportações de defesa para Israel aumentaram quase dez vezes desde 2022, Berlim se juntou a outros países para suspender o financiamento à UNRWA, e o governo alemão chegou a se comprometer a intervir em favor de Israel para, essencialmente, esvaziar de sentido a Convenção da ONU contra o Genocídio na Corte Internacional de Justiça (CIJ).
Por tudo isso, até poucas semanas atrás, o embaixador de Israel na Alemanha, Ron Prosor, chamou Berlim de “o maior amigo de Israel na Europa” — pensando especificamente no bloqueio da Alemanha às tentativas da UE de impor sanções a Tel Aviv.
No entanto, algo mudou na Alemanha. Em entrevista ao Frankfurter Allgemeine Zeitung, Felix Klein, o comissário do governo alemão para o combate ao antissemitismo, disse: “Devemos fazer tudo ao nosso alcance para preservar a segurança de Israel e dos judeus em todo o mundo. Mas também devemos ser claros: isso não justifica tudo.”
“Fazer os palestinos passarem fome e deliberadamente piorar dramaticamente a situação humanitária não tem nada a ver com salvaguardar o direito de existência de Israel. E isso também não pode ser a razão de Estado alemã,” acrescentou.
O alerta de Klein foi seguido pelo chanceler alemão, Friedrich Merz, criticando os ataques aéreos maciços das Forças de Defesa de Israel sobre Gaza, e pelo ministro das Relações Exteriores, Johann Wadephul, alertando que Berlim em breve discutiria que medidas tomar diante da situação “insuportável”.
Quando, como certamente acontecerá, a CIJ declarar que Israel está cometendo crimes cruéis e horríveis contra os civis mais ou menos indefesos de Gaza — quer decida chamar isso de genocídio ou apenas de algo muito próximo disso — a Alemanha não quer, mais uma vez, estar do lado errado da história, cúmplice desse que é o mais hediondo dos crimes: o genocídio, seja ele chamado assim ou apenas quase isso.
* Martin Cohen é filósofo especializado em ética prática, incluindo atuação como pesquisador visitante no Parlamento Europeu. Seu livro mais recente é The Ah-Moment: Exploring Philosophical Ideas through Jokes and Puzzles. Artigo publicado em 30/05/2025 no Palestine Chronicle.
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