Dezenas de membros da minha família foram mortos por “israel” em Gaza, e agora Ziyad também. Apenas uma coisa me traz consolo

Meu primo sorria para todos, comprava doces para o meu filho, corria para ajudar quando as bombas caíam. Tudo isso acabou agora.

25/04/2025

O primo de Ghada Ageel, Ziyad, na foto com seu filho Obada. Composição: Guardian Design / Ghada Ageel / Hatem Khaled / Reuters

Por Ghada Ageel*

Meu primo Ziyad era muito jovem para morrer. Ele estava dormindo em casa no campo de refugiados de Khan Younis quando as bombas caíram pouco antes da meia-noite de sexta-feira passada. Meus primos Mohammed e Moatsem correram para salvá-lo, me contaram, mas ele já havia morrido em sua cama. Ele tinha 44 anos.

Ziyad era assistente social da UNRWA, trabalhando com famílias vulneráveis nos campos de refugiados de Gaza. Todo verão, quando eu visitava Gaza vinda do Canadá, ele comprava doces para meu filho pequeno na loja de Asa’ad — agora desaparecida junto com Asa’ad (morto em outubro de 2023) — insistindo que os doces de Gaza eram os melhores do mundo. Todos em Khan Younis o conheciam por sua presença calma, espírito gentil e sorriso caloroso. Ele estava sempre pronto para ajudar — as palavras “não” ou “não posso” nunca fizeram parte do seu vocabulário. Na noite anterior à sua morte, ele visitou os feridos e doentes, incluindo meu tio Kamal.

Esses ataques acontecem principalmente à noite, quando as pessoas tentam dormir entre explosões intermináveis e gritos por ajuda. Desde que Israel cortou o fornecimento de eletricidade em Gaza, a luz e o barulho das bombas perfuram a escuridão intensa que cai após o pôr do sol. E foi no meio da noite que um míssil atingiu a casa da família de Ziyad. O prédio de vários andares tinha cinco apartamentos, todos cheios de pessoas — três irmãos de Ziyad e suas famílias, além de vários parentes deslocados que buscaram abrigo ali após perderem suas casas. O campo de Khan Younis é onde meus avós se refugiaram em 1948, após a Nakba, e minha família vive lá desde então. Ziyad parece ter morrido instantaneamente. Sua esposa, Samah, e seus quatro filhos — Abboud, Duha, Leen e Obada — ficaram feridos.

Seu irmão Islam ficou gravemente ferido e permanece inconsciente no hospital Nasser, que funciona parcialmente. A esposa de Islam, Du’aa, morreu na hora. Um de seus filhos, Ahmed, foi arremessado do segundo andar para o chão pela força da explosão — os médicos falam em fraturas na pélvis e nas pernas. A irmã de Ziyad, Hala, também ficou ferida, junto com seus filhos — Malak, Nour e Muhammad. Três membros de Muhammad foram amputados. Nunca esquecerei o vídeo que vi no Telegram de Hala, caminhando pelos corredores do hospital Nasser, seu rosto carregando mais dor do que qualquer coração deveria suportar.

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Outro irmão de Ziyad, Imad, e toda a sua família — sua esposa, Nihal, e seus sete filhos, Muhammad, Muhand, Mu’ayyad, Mu’min e as trigêmeas Dima, Rima e Rita — também ficaram feridos. No total, 15 crianças menores de 15 anos da minha família foram feridas nesse único ataque. Segundo a UNICEF, 15.600 crianças palestinas foram mortas em Gaza desde 7 de outubro de 2023; quase 600 crianças foram mortas e mais de 1.600 ficaram feridas desde que Israel retomou seus ataques em 18 de março. Linhas familiares inteiras foram apagadas, casas transformadas em túmulos.

Meus primos me contaram que entre as crianças mortas na sexta-feira estava Kenan, de 20 meses, único filho do fotojornalista Ahmad Adwan, cuja família havia buscado abrigo na casa de Ziyad. Kenan nasceu após 18 anos de infertilidade e incontáveis tratamentos médicos caros. Sua vida foi roubada antes mesmo de começar.

Meses antes, Ziyad havia sido sequestrado pelo exército israelense na mesma casa onde acabou morrendo e ficou detido por vários meses. Quando finalmente foi libertado, não conseguiu reconhecer Khan Younis, onde cresceu. A destruição foi tão completa que apagou a maioria dos pontos de referência da cidade e do campo. As ruas que ele conhecia eram agora ruínas irreconhecíveis. Mas o que ele reconheceu foi a tenacidade do povo que enfrenta qualquer perigo para trazer esperança e cura.

As circunstâncias da morte de Ziyad demonstram isso. Quando o ataque aconteceu, Mohammed, 26, estava sentado com seu pai e seu irmão mais novo, Moatsem, 17. Eles ouviram o assobio de um míssil — alguns breves segundos —, então uma explosão devastadora estilhaçou janelas, portas e vidas. Pedras e escombros caíram sobre o telhado, ferindo o braço de Mohammed. Sem hesitar, Mohammed e Moatsem saíram correndo para a escuridão. Seu pai gritou para que ficassem dentro de casa, temendo um ataque “duplo” — uma tática que visa os socorristas.

Os garotos me contaram como correram em direção à fumaça e à poeira espessa. Pelo menos outras 20 pessoas já estavam reunidas, buscando desesperadamente no escuro com nada além da fraca luz de seus celulares. Havia pequenas pás para ajudar no resgate, mas a maioria dos sobreviventes e vizinhos teve que escavar os escombros com as próprias mãos. Grandes pedaços do teto haviam desabado; quem estivesse preso sob eles não teria chance. Mesmo assim, as pessoas avançaram sem parar, puxando os feridos dos escombros, segurando crianças sem vida e gritando nomes no meio do caos.

Esta não é a primeira vez que minha família é atingida. Em 26 de outubro de 2023, bombas caíram sem aviso em nosso bairro residencial em Khan Younis, matando mais de 60 pessoas — 45 delas, membros da minha família. Naquela época, Ziyad foi um dos primeiros a correr para tentar resgatar seus parentes. Desta vez, era tarde demais para salvá-lo. Já parei de contar quantos perdi.

A história da minha família ecoa a de inúmeras famílias em Gaza, cujas vidas foram envoltas na escuridão deste genocídio. Acredito que contar suas histórias é desafiar a escuridão. Exigir justiça não é pedir caridade — é uma obrigação moral. Minha família não foi “dano colateral”. Eles eram professores, médicos, estudantes, engenheiros, assistentes sociais, mães e crianças — cada um apagado cedo demais.

O que me traz consolo é que, diante dessa crueldade inimaginável, os palestinos ainda correm para salvar uns aos outros. Na escuridão total, mesmo entre escombros e poeira sufocante, a luz da dignidade palestina se recusa a se apagar. Essas luzes nos chamam a todos para sermos testemunhas da brutalidade e são luzes de esperança de que o sofrimento dos palestinos possa acabar imediatamente.

*Ghada Ageel, uma refugiada palestina de terceira geração, trabalhou como tradutora do The Guardian em Gaza entre 2000 e 2006. Atualmente, é professora visitante no departamento de ciência política da Universidade de Alberta. Artigo publicado no The Guardian em 24/04/2025.

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