Eles foram forçados a entregar um filho ao exército israelense em troca de outro. Oito meses depois, ele estava morto na prisão
Palestinos submetidos a abusos em prisões israelenses estão morrendo em números sem precedentes devido à negligência médica, e seus corpos não estão sendo devolvidos às famílias
O casal tinha consciência do tratamento brutal e do sofrimento que aguardavam seu filho como prisioneiro. (Foto: (Muhammed Atiq/MEE)
Por Lubna Masarwa*
Os pais de Ahmad Tazaza são atormentados por luto e culpa pela morte do filho, ocorrida em agosto passado na notória prisão de Megiddo, em Israel.
Ahmad era um jovem saudável, de 20 anos, sem histórico conhecido de problemas médicos quando foi entregue às autoridades israelenses na Cisjordânia ocupada, em janeiro de 2025.
Seus pais dizem que ainda não sabem por que o filho, o caçula de três irmãos, era procurado. Mas as circunstâncias de sua detenção não foram muito diferentes das enfrentadas por milhares de outros jovens palestinos.
Ahmad foi mantido em detenção administrativa, uma forma de encarceramento arbitrário e por tempo indeterminado, sem acusação formal, julgamento ou acesso a advogados. Em setembro de 2025, havia oficialmente 10.465 homens palestinos detidos como “presos de segurança”, incluindo 7.425 da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, segundo dados do Serviço Prisional de Israel.
Ao longo de meses, a casa da família Tazaza, na cidade de Qabatiya, no norte da Cisjordânia, foi repetidamente alvo das forças de segurança israelenses que o procuravam, e a família foi assediada e ameaçada.
“Eles destruíram a casa e quebraram tudo”, disse Najah Abdul Qader, mãe de Ahmad, ao Middle East Eye.
“Ele não estava em casa; estava trabalhando no mercado e dormiu lá naquela noite. Eles levaram o irmão dele e o pai. De manhã, soltaram os dois e disseram: ‘Queremos ele’.”
Em uma ligação telefônica posterior, contou Qader, um soldado israelense ameaçou bombardear a casa caso Ahmad não se entregasse. Ele já havia escapado por pouco em uma ocasião, ao pular de um carro no momento em que este era esmagado por um trator israelense.
Por fim, sem conseguir encontrá-lo, as forças israelenses voltaram e detiveram o irmão pela segunda vez. Saeed Tazaza, pai de Ahmad, relembra o que aconteceu em seguida com os olhos marejados.
“Eles disseram: ‘Não vamos soltá-lo até que vocês tragam o [outro] filho’. O irmão dele é casado e tem dois filhos. Então dissemos a Ahmad que queríamos vê-lo. Nós o capturamos e o levamos.”
Acompanhados do outro filho, os pais de Ahmad o entregaram no posto de controle de Salem, perto de Jenin.
“Nós o entregamos”, disse Qader. “Ele olhou para nós e eu soube que ele não voltaria. Senti que ele não retornaria quando virou o rosto e se afastou caminhando.”
Quando Ahmad desapareceu, seus pais disseram a si mesmos que haviam salvado a vida dele; que ele passaria algum tempo na prisão e depois seria libertado.
“Entreguei meu filho porque estava com medo por ele. Tinha medo de que ele morresse”, disse o pai. “Fomos forçados e o entregamos. O que poderíamos fazer? Esse é o nosso destino.”
Najah Abdul Qader, mãe de Ahmad Tazaza, em casa, em Qabatiya, no norte da Cisjordânia ocupada, em janeiro de 2026 (Muhammed Atiq/MEE).
“Ele me disse: ‘Mãe, eles torturam as pessoas na prisão’. Eu respondi: ‘Que te torturem, mas não te matem, não atirem em você’. Hoje, na rua, eles atiram em alguém que não fez nada”, disse Qader.
“Agora eu me arrependo. Entreguei-o à morte com minhas próprias mãos. Entreguei meu filho ao meu inimigo. Mas foi isso. Queríamos protegê-lo.”
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Tratamento médico negado
Ahmad Tazaza morreu aos 21 anos na prisão de Megiddo em 3 de agosto de 2025, segundo um laudo pós-morte visto pelo MEE.
O relatório, datado de 8 de agosto, foi elaborado por um médico que trabalha para a Physicians for Human Rights Israel (PHRI), um grupo de direitos humanos que, quando autorizado pelas autoridades israelenses, envia observadores para monitorar autópsias de prisioneiros palestinos.
O documento observou que Tazaza era “relatado como saudável” no momento de sua detenção.
Os registros prisionais indicavam que ele havia sofrido de diarreia e sarna, e que se queixara de dor de garganta alguns dias antes de morrer. Em 2 de agosto, foi atendido pelo médico de plantão, que observou manchas de sangue em suas calças.
O relatório afirmou: “Durante a consulta clínica, o sr. Tazaza solicitou ir ao banheiro e depois caiu no chão, perdendo a consciência e os sinais vitais. Tentativas de reanimação foram iniciadas, mas, apesar da intubação e da RCP, ele foi declarado morto.”
Segundo o relatório, a autópsia revelou possíveis indicadores de uma condição grave de câncer no sangue, como leucemia aguda ou linfoma agressivo. Não houve evidência de “causas de morte súbita”, afirmou.
Mas, na ausência do corpo — que ainda está sob custódia das autoridades israelenses — os pais de Ahmad contestam fortemente a versão da morte apresentada no laudo.
Eles não puderam ver Ahmad nem falar com ele durante seus oito meses de prisão e dependeram, em grande parte, de notícias transmitidas por outros presos após sua libertação.
Foram informados da morte por um agente de ligação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, embora o CICV não tenha acesso a palestinos em prisões israelenses desde 7 de outubro de 2023.
“A saúde dele era boa. Ele nunca tinha sido examinado por um médico em toda a vida. Não havia absolutamente nada de errado com ele”, disse a mãe.
Um homem que visitou a família antes da morte disse que Ahmad lhe pediu que transmitisse a mensagem de que precisava de um advogado, e contou à família que o filho estava com boa saúde.
Falando sob condição de anonimato, por medo de ser preso novamente, o mesmo homem disse ao MEE que havia visto Ahmad quatro dias antes da data reportada de sua morte, e que ele parecia bem.
Após sua libertação, o homem disse ter ouvido que houve uma repressão na ala da prisão onde Ahmad estava detido. Alguns disseram que Ahmad havia sido mordido na garganta por um cão e que o ferimento infeccionara.
“Outros prisioneiros disseram que ele morreu porque não lhe forneceram tratamento médico depois de espancá-lo e ele ter sofrido uma lesão grave no pescoço”, contou ao MEE.
O homem disse ter passado 18 meses na prisão.
“As condições são além de qualquer coisa que você possa imaginar. Eles te espancam desde o momento em que você é preso até o momento em que sai. Não há segurança. Você dorme com medo, toma banho com medo. Eles invadem as celas todos os dias.”
O MEE não conseguiu verificar esses relatos sobre a morte de Ahmad. O Serviço Prisional de Israel não havia respondido ao pedido de comentário do MEE sobre as questões levantadas neste artigo até o momento da publicação.
Mas os detalhes são consistentes com depoimentos de ex-prisioneiros registrados por organizações israelenses de direitos humanos, incluindo a B’Tselem e a PHRI.
Em um relatório divulgado na semana passada, a B’Tselem descreveu o sistema prisional de Israel como uma “rede de campos de tortura”, que, segundo a entidade, “deve ser compreendida no contexto do ataque coordenado de Israel contra os palestinos como um coletivo desde outubro de 2023”.
Os prisioneiros foram submetidos a “violência e abusos frequentes, institucionalizados e organizados”, incluindo violência sexual e ataques com cães.
As condições de vida foram descritas como “desumanas”, com presos mantidos em celas imundas e superlotadas, privados de alimentação adequada; e a negação de cuidados médicos aos prisioneiros constituiu, por si só, uma forma de tortura, disse a B’Tselem.
Dos 84 prisioneiros cuja morte na prisão é conhecida pela B’Tselem, os corpos de apenas quatro foram devolvidos, afirmou a organização.
No domingo, o jornal israelense Haaretz informou que Israel mantém atualmente os corpos de pelo menos 776 palestinos identificados e 10 cidadãos estrangeiros, incluindo pelo menos 88 que morreram sob custódia israelense, citando números compilados pelo Centro Jurídico de Assistência e Direitos Humanos Al-Quds (JLAC), uma organização palestina sediada em Ramallah.
Segundo o jornal, os números indicam que Israel retém os corpos como uma política deliberada de “vingança e imposição intencional de sofrimento às famílias”.
Em novembro, a PHRI informou que pelo menos 94 palestinos morreram em prisões israelenses entre outubro de 2023 e agosto de 2025, como parte do que descreveu como uma política oficial voltada contra palestinos detidos, que levou a um número sem precedentes de mortes.
A entidade afirmou que o serviço prisional e o Exército israelenses encobriram sistematicamente as circunstâncias das mortes de prisioneiros, inclusive deixando de notificar famílias sobre óbitos sob custódia, recusando-se a devolver corpos, realizando autópsias sem a presença de um médico indicado pela família e atrasando a realização das autópsias.
Desde novembro, o número de mortes confirmadas subiu para pelo menos 101, disse ao MEE Naji Abbas, diretor da PHRI para presos e detidos.
“No último ano, a principal causa tem sido a negligência médica”, disse Abbas.
“Quando falamos em negligência médica aqui, não estamos falando de negligência no sentido pré-guerra, como consultas atrasadas, consultas canceladas ou procrastinação.
“Estamos falando de uma política — efetivamente uma política oficial — de impedir o tratamento médico. Hoje, o prisioneiro ou detido palestino não tem qualquer possibilidade de ver um médico quando e onde precisa. Essa possibilidade não existe.”
Ex-detidos também relataram ao MEE que lhes foi negado tratamento para condições médicas graves enquanto estavam na prisão.
Muhammed Shalamesh foi preso aos 17 anos, em janeiro de 2024, e passou os dois anos seguintes na prisão, mantido sob detenção administrativa.
Durante esse período, disse Shalamesh, ele foi submetido a espancamentos regulares e forçado a realizar trabalho forçado por quatro meses.
Mas ele disse que também suportou dores crônicas crescentes devido à negação de tratamento para ferimentos sofridos quando foi baleado por soldados israelenses na entrada do campo de refugiados de Jenin, em junho de 2023.
Shalamesh levanta o moletom preto e a camiseta branca para revelar as cicatrizes onde as balas o atingiram no peito e no abdômen. A maior parte do dedo médio da mão direita — onde foi atingido por uma terceira bala — está faltando.
“Gradualmente, a dor aumentou; a dor dos meus ferimentos foi piorando. Continuei a sofrer até não conseguir mais ficar em pé”, disse.
“Fui ao médico e disse que precisava de tratamento e que não conseguia dormir à noite. Ele me disse: ‘Você veio aqui para morrer, não para que a gente te trate’.
“Perguntei: ‘O senhor não vai me tratar?’ Ele disse: ‘Não. Se eu pudesse te matar, eu te mataria’.”
Muhammed Shalamesh afirma que lhe foi negado tratamento na prisão para dores relacionadas a ferimentos causados por disparos de arma de fogo (MEE).
A condição de Shalamesh continuou a piorar. Enquanto era transferido para a prisão de Negev, disse que foi espancado com cassetetes de ferro dentro do furgão de transporte prisional.
Por fim, disse Shalamesh, ele recebeu analgésicos, mas apenas depois que sua condição havia se deteriorado gravemente e dias antes de ser libertado e finalmente levado para tratamento no Hospital Prisional de Ramle.
“Quando viram que minha condição havia chegado ao pior ponto, começaram a me tratar, mas não foi um tratamento adequado. Viram que eu estava prestes a ser libertado e que minha condição tinha se deteriorado a ponto de eu poder morrer na prisão”, disse.
“Apesar de ferido, fui tratado como todos os outros. Vi pessoas que morreram na prisão por falta de tratamento, repressão, espancamentos e ausência de cuidados médicos. Eu tinha medo de que, a qualquer momento, pudesse morrer por falta de tratamento.”
‘Como o ano de 1800’
Ahmad Zaoul e sua esposa, Um Khalil Zaoul, ainda buscam respostas sobre a morte do filho de 26 anos, Sakhr Zaoul, na prisão de Ofer, em 14 de dezembro de 2025.
Sakhr, cuja família é de Husan, perto de Belém, estava em Ofer havia apenas duas semanas, depois de ter sido transferido da prisão de Etzion, onde estava desde sua prisão em junho.
Ele já havia passado três anos na prisão e era classificado como preso de segurança, mantido sob detenção administrativa.
Antes da prisão, Sakhr não tinha problemas de saúde, disse o pai, e fazia planos para abrir o próprio restaurante.
“Durante a detenção, dependíamos dos que eram libertados para nos contar sobre ele. Diziam que ele estava bem e com boa saúde. Mas, nas últimas duas semanas, não houve notícia alguma”, disse ao MEE.
Após sua morte, os pais de Sakhr souberam por ex-prisioneiros que o filho havia adoecido, mas não recebera tratamento médico.
“Disseram-nos que a condição dele envolvia inchaço, vômitos com sangue e febre alta”, disse Ahmad Zaoul.
O laudo pós-morte de Sakhr registra que ele estava “saudável” no momento da prisão e que havia recebido prescrição de antibióticos seis dias antes de morrer.
À 1h da madrugada de 14 de dezembro, a equipe médica da prisão foi chamada para atendê-lo, mas pouco depois ele vomitou sangue e colapsou. Às 2h30, foi declarado morto.
O relatório observa que Sakhr havia passado por uma cirurgia cardíaca quando criança e que pode ter morrido em decorrência de hemoptise — sangue inundando os pulmões — causada por complicações ligadas à operação.
Mas o corpo de Sakhr não foi devolvido à família, e seus pais acreditam que a morte esteja mais provavelmente ligada à violência imposta aos detidos e às condições nas prisões.
Ahmad Zaoul e Um Khalil Zaoul com uma foto de seu filho, Sakhr Zaoul, que morreu na prisão de Ofer em dezembro de 2025 (MEE).
“Eles matam nossos filhos e depois procuram desculpas, dizendo que talvez ele estivesse doente”, disse Um Khalil Zaoul.
“Meu filho fez uma cirurgia quando tinha seis anos. Cresceu, foi preso e apanhou centenas de vezes. E agora dizem que morreu por causa de uma operação que fez aos seis anos?
“Se isso o afetava, então o libertassem e eu o trataria, o levaria a um hospital, me avisassem; não me deixem acordar de manhã e descobrir que já não tenho um filho.”
Naji Abbas, da PHRI, observa que os laudos pós-morte vistos pelas famílias de Ahmad Tazaza e Sakhr Zaoul são preliminares e que é necessária uma investigação adicional para determinar as causas das mortes com maior certeza.
Ele reconhece, também, que as conclusões permanecerão contestadas e sujeitas a questionamento enquanto as autoridades israelenses continuarem a reter os corpos.
Mas disse que as mortes de ambos os homens evidenciam a ameaça fatal representada pela negligência médica deliberada a todos os prisioneiros palestinos.
Abbas afirmou: “Essa política, combinada com a fome e as agressões, coloca todos os 10 mil prisioneiros em risco. Hoje, até a menor infecção pode levar à morte. Essa realidade se assemelha ao ano de 1800. Até uma infecção de pele, ao entrar na corrente sanguínea por uma ferida, pode levar ao colapso de todos os sistemas do corpo.”
As roupas de Ahmad Tazaza ainda estão penduradas no guarda-roupa de casa, contou ao MEE sua mãe, Najah Abdul Qader.
Desde a morte do filho, disse ela, tem vivido “dias negros, todos os dias. Durmo chorando e acordo chorando. Se chorar o trouxesse de volta, eu choraria dia e noite”.
Sem um corpo para enterrar, os pais de Ahmad se agarram à esperança de que ele possa estar vivo, repetindo uma história que ouviram sobre um prisioneiro que apareceu em Belém após ter sido anteriormente dado como morto.
“Quero vê-lo. Quero vê-lo mesmo que esteja morto”, disse Qader.
“Eles dizem que ele morreu, e eu não acredito que ele morreu. Mas, se Deus quiser, ele sairá vivo. Quero vê-lo. Isso tranquiliza o coração de uma pessoa; se ele estiver morto, enterrá-lo com as próprias mãos e saber que ele tem um túmulo.
“Por que eles o estão retendo? O que querem dele?”
* Lubna Masarwa é jornalista e chefe da editoria de Palestina e “israel” do Middle East Eye, com sede em Jerusalém. Reportagem publicada em 02/02/2026 no MEE.
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