“israel” está utilizando palestinos como escudos humanos diante da retaliação iraniana

Apenas judeus podem entrar em abrigos, enquanto os habitantes originários daquela terra são impedidos, seja por restrições impostas pelas autoridades, seja por seus próprios vizinhos judeus

13/03/2026

Família utiliza um micro-ônibus enterrado como abrigo antibomba improvisado em Khashem Zaneh, uma vila beduína não reconhecida no deserto do Negev. (Foto: Maya Alleruzzo/AP)

Palestinos nativos estão sendo impedidos de se refugiar em abrigos subterrâneos para se protegerem das retaliações legítimas do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) do Irã, que respondem à agressão israelense e estadunidense desde o dia 28 de fevereiro.

Os bairros, cidades e vilas de maioria árabe na Palestina ocupada desde 1948 (batizada internacionalmente de “israel”) não contam com sistemas de abrigos contra bombardeios, enquanto os de maioria euro-judaica (os invasores e ocupantes das terras palestinas) têm esse tipo de proteção garantida pelo governo israelense.

“Você não consegue encontrar um único — ou quase nenhum — abrigo nos bairros palestinos”, denunciou a jornalista Orly Noy, editora do site Local Call e líder do grupo de direitos humanos B’Tselem, ambos de “israel”. Por outro lado, “os bairros judeus estão bem protegidos por abrigos”, continuou ela, em entrevista à apresentadora Amy Goodman, do canal estadunidense Democracy Now!

“E a situação chega ao ponto de que agora eles estão esperando que as escolas abram, porque as escolas são os únicos lugares em Jerusalém Oriental que realmente possuem abrigos. Assim, neste momento, seria mais seguro para uma família palestina enviar seus filhos para a escola em plena guerra do que deixá-los em casa, onde não há nenhum abrigo”, afirmou ainda. “Este é o significado de um regime supremacista e racista.”

Mas essa não é uma avaliação isolada ou parcial de um opositor ao regime. Até mesmo a imprensa chapa branca reconhece a discriminação oficial contra os habitantes originários em meio à luta pela sobrevivência.

“Para as centenas de milhares de beduínos que vivem no norte do Negev, e para muitos dos milhões de cidadãos árabes de Israel, esses perigos continuam sendo uma preocupação constante, em forte contraste com os israelenses judeus, a maioria dos quais tem acesso a salas protegidas em suas casas ou a abrigos públicos a uma distância que pode ser percorrida correndo”, admite uma reportagem desta semana publicada no Times of Israel.

Segundo um relatório de janeiro do centro de pesquisa Nagabiyah, do Fórum de Coexistência do Negev, apenas cerca de 35% dos beduínos têm acesso a um abrigo dentro de casa. Existem apenas seis abrigos públicos em comunidades beduínas em todo o norte do Negev, e todos, exceto um, estão na cidade de Rahat, deixando a maioria dos beduínos sem qualquer abrigo.

Na maioria das principais cidades beduínas — incluindo Hura, Kuseife, Tel-Sheva, Ar’ara-BaNegev, Segev Shalom e Lakiya — não há abrigos de forma alguma, segundo o Nagabiyah, que calculou uma taxa de um abrigo público para cada 53.825 beduínos.

Isso contrasta fortemente com a situação dos judeus em cidades vizinhas, como a cidade de Ofakim, que possui 150 abrigos públicos para seus cerca de 41 mil moradores — cerca de um abrigo público para cada 273 residentes — ou Meitar, com um abrigo para aproximadamente cada 369 moradores, segundo análise do Nagabiyah baseada em dados cartográficos do regime.

“As disparidades gritantes na proteção, que se estendem por toda a comunidade árabe mas são mais agudas entre os beduínos, são um problema antigo. Ativistas dizem que pouco está sendo feito para reduzir a diferença, apesar de sucessivos relatórios governamentais e de órgãos de fiscalização alertarem por anos sobre grandes desequilíbrios na proteção civil, especialmente desde o conflito de 12 dias de Israel com o Irã em junho passado”, escreve a jornalista Ariela Karmel.

“Quando você ouve aquele alarme e não tem para onde ir, e não tem nada para te proteger, é muito assustador”, disse à reportagem Attia Alasam, que dirige o Conselho Regional não oficial das Vilas Beduínas Não Reconhecidas. “Você não tem nada a fazer, não tem proteção — você não tem nada.” Segundo ele, quando as sirenes de mísseis soam na vila de Abu Talool, no norte do Negev, ninguém pode correr para o abrigo antibomba mais próximo, porque não há. Alguns se escondem em valas ou buracos no chão. Outros se enfiam debaixo de tratores e se agacham sob pontes. Na melhor das hipóteses, alguns conseguem chegar a grandes tubos de cimento ou outras fortificações improvisadas que estão muito abaixo dos padrões do “Comando da Frente Interna”.

Sem planos de urbanização aprovados pelas autoridades, os habitantes originários muitas vezes não podem construir legalmente casas permanentes com salas seguras reforçadas, exigidas em construções mais novas em “israel”. Claro que isso não ocorre com os judeus.

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A exigência de que todas as novas construções incluam uma sala segura em cada unidade ou um abrigo no subsolo, introduzida pela primeira vez nos anos 1990, deslocou o sistema de proteção governamental dos abrigos públicos para as casas particulares. Porém, em lugares onde as casas não podem ter abrigos, a ausência de abrigos públicos pode ser literalmente uma questão de vida ou morte.

O relatório do Nagabiyah estima que, nas 35 vilas sem reconhecimento do regime — onde vivem cerca de 100 mil beduínos — impressionantes 92% dos moradores não têm acesso a espaços protegidos padrão.

A maioria das casas nessas vilas são barracos improvisados de chapa metálica ou tendas, devido às restrições que impedem a construção de moradias mais permanentes, incluindo salas seguras reforçadas ou abrigos públicos antibomba. A maioria desses povoados carece de infraestrutura de emergência, tem poucos serviços públicos e muitas vezes não possui eletricidade nem estradas pavimentadas.

Como as vilas são oficialmente classificadas pelo regime como terras desabitadas, elas podem nem sequer ser incluídas no escudo de defesa antimísseis das chamadas Forças de Defesa de “israel”, expondo os moradores a ainda mais perigo.

Os beduínos já haviam ficado desprotegidos quando da guerra de junho do ano passado, quando o Irã também retaliou a agressão israelense contra o seu território. Mas nada mudou, eles continuam sem abrigos. “Batemos em todas as portas. Procuramos todos os órgãos possíveis, mas infelizmente nada nos ajudou”, afirmou Alasam ao jornal. “Então ficamos em casa e esperamos até que o perigo passe.”

Segundo Alasam, alguns moradores de Abu Talool e de outras vilas tentaram construir salas de proteção por conta própria, apenas para ver as autoridades demolirem as estruturas por falta de licença. Pedidos de autorização foram ignorados.

Apartheid geral

A situação não é muito melhor para comunidades árabes em outras partes de “israel”. Segundo dados oficiais, apenas 37 dos 11.776 abrigos públicos do território estão localizados em cidades árabes. Oito desses 37 estão fora de funcionamento, segundo a Abraham Initiatives.

Em 2018, a última vez que a questão foi examinada em profundidade, um relatório do Controlador do Estado concluiu que 46% dos cidadãos árabes não tinham proteção padrão, em comparação com 26% da população geral. Um relatório do ouvidor em janeiro deste ano estimou que cerca de 33% da população do país não tem abrigo, sugerindo que a situação nas comunidades árabes pode ter piorado.

O problema também se estende a Jerusalém Oriental (habitada majoritariamente por árabes palestinos), onde existe apenas um abrigo público antibomba para centenas de milhares de moradores, segundo o grupo Bimkom – Planners for Planning Rights.

“Esta é uma questão de igualdade”, disse ao Times of Israel Dafna Saporta, do Bimkom. “Estamos falando da população árabe. Eles não têm igualdade e não têm justiça em Israel. O Estado cuida da população judaica, mas negligencia os árabes. Isso não é novo. É uma decisão política.”

Em uma pesquisa do Instituto de Democracia de “israel” publicada esta semana, cerca de metade dos entrevistados árabes do norte disseram ter uma sala segura, e outros 18% disseram ter um abrigo público próximo. Entre os entrevistados judeus da mesma região, os números foram 69% e 27%, respectivamente.

No sul, 100% dos entrevistados árabes disseram não ter acesso a nenhuma sala segura ou abrigo, em comparação com 5,6% dos entrevistados judeus.

Segundo Beeri-Sulitzeanu, nos oito anos desde a auditoria de 2018, nenhum novo abrigo público foi construído para a comunidade árabe.

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Em relatório divulgado esta semana, o Centro de Pesquisa do Knesset afirmou que cerca de 466 mil estudantes — aproximadamente um quarto dos alunos do país — não têm proteção adequada contra foguetes e mísseis.

A situação é significativamente pior em localidades beduínas, onde 780 abrigos protegem cerca de 117 mil estudantes, deixando cerca de 40% de alunos e funcionários protegidos.

Seriam necessários cerca de 400 abrigos adicionais para atender aos padrões mínimos de proteção do Comando da Frente Interna. O problema é agravado pela falta de cerca de mil salas de aula em comunidades beduínas, o que obriga muitas escolas a usar abrigos como salas de aula ou depósitos, o que significa que podem não estar disponíveis em uma emergência.

O Israel Religious Action Center, o Conselho das Vilas Não Reconhecidas e outros grupos recorreram à Suprema Corte em agosto de 2024 exigindo proteção para localidades árabes, particularmente para a comunidade beduína.

No entanto, a Suprema Corte decidiu que não poderia obrigar o regime a fornecer proteção, afirmando que a responsabilidade caberia aos municípios locais e aos indivíduos.

À reportagem do jornal israelense, Beeri-Sulitzeanu também observou que o governo cortou financiamento para municípios árabes, dificultando ainda mais o pagamento pela construção de abrigos.

Em dezembro, 220 milhões de shekels (US$ 68,5 milhões) foram retirados de um programa destinado a impulsionar o desenvolvimento econômico árabe e realocados para a polícia para combater “crime nacionalista grave” na comunidade árabe, o que gerou condenação de líderes árabes.

A ministra da Igualdade Social, May Golan, que liderou a medida, também fechou em maio de 2024 uma sala de situação criada após 7 de outubro para coordenar preparação de emergência e informação na sociedade árabe, apesar da forte oposição da liderança árabe.

Segundo o relatório de janeiro do Controlador do Estado — que concluiu que a falta de abrigos era mais grave justamente na comunidade árabe — atualmente não há nenhum órgão governamental responsável pelas tarefas que eram anteriormente geridas por essa sala de situação.

Civis judeus impedem palestinos de se abrigar

Não são somente as autoridades do regime sionista que trabalham deliberadamente para impedir os habitantes originários de se protegerem dos ataques. Civis também fazem isso. Há denúncias de que ações como essa têm se repetido desta vez, assim como já haviam ocorrido no ano passado.

A uma reportagem da Al Jazeera de junho de 2025, Samar al-Rashed, mãe solteira de 29 anos, residente de um complexo habitacional próximo à cidade de Acre, tentou correr para um abrigo do edifício junto com sua filha de cinco anos e foi barrada por um vizinho judeu que a ouviu falando em árabe com sua criança.

“Fiquei atônita”, disse ela. “Falo hebraico fluentemente. Tentei explicar. Mas ele olhou para mim com desprezo e apenas disse: ‘Não é para você.’”

Em Haifa, Mohammed Dabdoob, de 33 anos, estava trabalhando em sua loja de conserto de celulares quando começou a tocar o som dos alertas. Ele correu para fechar a loja e se dirigiu ao abrigo público mais próximo, sob um prédio atrás de sua loja. Ao se aproximar do abrigo, encontrou a pesada porta trancada.

“Eu tentei o código. Não funcionou. Bati na porta, pedi para que os que estavam lá dentro abrissem — em hebraico — e esperei. Ninguém abriu”, disse à Al Jazeera. Momentos depois, um míssil explodiu nas proximidades, estilhaçando vidros do outro lado da rua. “Achei que ia morrer.”

Paralisado pelo medo e pelo choque, Mohammed observou de seu esconderijo em um estacionamento próximo enquanto o caos se desenrolava e, pouco depois, a porta do abrigo se abriu. À medida que os que estavam dentro começaram a sair, ele os olhou em silêncio.

“Não há segurança real para nós”, disse. “Nem dos mísseis, nem das pessoas que deveriam ser nossos vizinhos.”

Yara Srour, estudante de enfermagem de 22 anos da Universidade Hebraica, vive no bairro negligenciado de al-Mahatta, em Lydd. O prédio de três andares de sua família, com cerca de quatro décadas de idade, não possui licenças oficiais nem abrigo. Após o intenso bombardeio, a família tentou fugir para uma parte mais segura da cidade.

“Fomos para a parte nova de Lydd, onde há abrigos adequados”, disse Yara, acrescentando que sua mãe, de 48 anos, que sofre de problemas nos joelhos, tinha dificuldade para se locomover. “Mesmo assim, não nos deixaram entrar. Judeus de áreas mais pobres também foram rejeitados. Era apenas para os ‘novos moradores’ — aqueles dos prédios modernos, em sua maioria famílias judias de classe média.”

“Minha mãe tem problemas nas articulações e não conseguia correr como o resto de nós”, disse. “Estávamos implorando, batendo nas portas. Mas as pessoas apenas olhavam para nós pelo olho mágico e nos ignoravam, enquanto víamos o céu se iluminar com os clarões dos foguetes interceptados.”

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