“israel” matou seus quatro filhos, soterrados sob os escombros de Gaza

Quatro irmãos palestinos morreram sob os escombros de sua casa após um bombardeio israelense. Três estão soterrados até hoje. Os pais sobreviveram e relatam o horror de perder todos os filhos de uma só vez.

16/11/2025

Da esquerda para a direita: Bilal, Osama, Eman e Fuad. Os filhos da família al-Husari foram mortos após um ataque aéreo israelense atingir sua casa em 9 de setembro de 2025. (Fotos cedidas pela família)

Por Ahmad Sbaih*

Eman al-Husari, de 21 anos, se recusou a deixar sua casa no campo de refugiados de Beach, na Cidade de Gaza, quando o exército israelense lançou panfletos de evacuação no início de setembro.

“Eu dizia a ela para pelo menos arrumar nossas mochilas e ficar pronta [em caso de emergência]”, contou Amal al-Husari, mãe de Eman, ao The Electronic Intifada. “Eman respondia que não sairia nem do quarto.”

Tendo falhado antes, em outubro de 2023 e 2024, Israel se preparava novamente para invadir e ocupar a Cidade de Gaza, e ordenara que todos os moradores evacuassem para o sul.

Os irmãos de Eman – Fuad, Osama e Bilal – também estavam decididos a rejeitar as ordens militares israelenses.

“Nenhum dos meus filhos aceitou a ideia de evacuar”, disse Amal, de 50 anos.

A determinação dos filhos refletia a dos pais.

Muhammad al-Husari, de 55 anos, taxista, e Amal, sua esposa, também estavam decididos a permanecer em sua casa no campo de refugiados.

Nenhum deles queria reviver o que Muhammad descreveu como o “sofrimento do deslocamento”.

Calor e frio

No início de outubro de 2023, quando o exército israelense ordenou pela primeira vez a evacuação de todo o norte da Faixa de Gaza, a família arrumou apenas uma pequena bolsa e foi para Rafah, no sul.

Naquele inverno, a água vazava para dentro da tenda, e a família sentia frio constantemente.

Por outro lado, o calor escaldante do verão, contou Muhammad, os forçava a passar a maior parte do dia fora da tenda.

“Evacuamos apenas com nossas roupas de verão”, disse Amal. “Achamos que seria por uma semana ou algo assim antes de podermos voltar.”

Mas o deslocamento da família se estendeu por um ano e quatro meses, até que puderam retornar após o cessar-fogo de dois meses em janeiro deste ano.

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“Viver em uma tenda era como a morte”, disse Muhammad ao The Electronic Intifada. “Você está longe de sua casa, do seu bairro e das pessoas que conhece.”

Quando as ordens de evacuação chegaram novamente no início de setembro, a família estava decidida a não repetir aquela experiência.

Muhammad contou que o plano era se mudar para bairros próximos, como al-Sahaba ou al-Talateeni, caso o exército avançasse sobre o campo.

Eles permaneceriam nessas áreas próximas, disse ele, até que o exército se retirasse — e então poderiam voltar.

Mas permanecer significava também viver sabendo que suas vidas estavam em risco.

Falsa esperança

Na noite de 8 de setembro, por volta das 20h, Muhammad e Amal esperavam que seus filhos voltassem para casa.

Os filhos haviam passado o dia na casa do tio Abu Abdullah, ajudando-o a limpar e reparar danos causados por um ataque próximo.

“Eu ia deixá-los dormir na casa do tio”, contou Muhammad. “Mas eles me disseram que precisariam voltar de manhã de qualquer jeito para continuar ajudando.”

Ao ver o quanto estavam exaustos, Muhammad decidiu deixá-los em casa para descansarem.

“Preparamos o jantar, comemos juntos e aproveitamos a noite. Depois, as crianças disseram que queriam dormir para poder acordar cedo”, relatou ele, com a voz trêmula.

Muhammad foi então visitar sua mãe, que também morava com eles.

“Beijei as mãos e a cabeça da minha mãe, como sempre faço antes de dormir”, disse.

Depois fez suas orações e se deitou.

Por volta das 2h30 da manhã de 9 de setembro, Muhammad foi despertado pelo som de uma explosão muito forte.

Demorou um minuto para perceber que estava sob os escombros — por um momento, pensou que era o “dia do juízo final”, contou.

Havia fogo, o calor era abrasador e o quarto estava cheio de fumaça.

“Eu não conseguia ver ninguém”, disse Muhammad ao The Electronic Intifada. “Gritei por ‘Amal!’ Ela respondeu: ‘Estou debaixo das suas pernas.’”

“Yamma”, ele gritou, chamando pela mãe. Não houve resposta.

“Chamei por Fuad…”, disse, e ficou em silêncio por seis segundos.

“Disse a Amal que achava que as crianças tinham sido martirizadas. Alhamdulilah.”

Resgate

A equipe de defesa civil chegou pouco depois para procurar sobreviventes.

Muhammad gritou por ajuda enquanto batia no concreto ao redor, contou.

“Cada minuto – cada segundo – sob os escombros parece morrer um milhão de vezes”, disse Muhammad. “Não há ar, não há oxigênio, e você só quer morrer.”

Muhammad foi resgatado com ferimentos nas pernas e nas costas, enquanto Amal foi retirada ilesa.

Os dois foram levados ao Hospital Árabe Al Ahli.

Horas depois, no hospital, um parente disse a Muhammad que alguns vizinhos ouviram vozes e que Eman e Osama estavam vivos, mas que os socorristas ainda não haviam conseguido tirá-los.

“Rezei para que pelo menos um dos meus filhos tivesse sobrevivido”, contou, já chorando abertamente.

Algumas horas depois, outro parente ligou e disse a Muhammad que sua mãe havia sido retirada com vida.

“A cama de Eman e a da minha mãe ficavam a menos de 50 cm de distância”, disse. “A esperança voltou para mim e para minha esposa de que Eman também estivesse viva e fosse resgatada.”

Muhammad e Amal esperaram por horas, até que, à tarde, um primo ligou para Muhammad e disse que haviam retirado Eman dos escombros — mas que ela não sobrevivera.

Estava completamente escuro quando o bombardeio ocorreu, e as equipes de defesa civil não tinham o equipamento necessário para buscar ou escavar os destroços. Elas não puderam continuar e tiveram de retornar pela manhã.

Quando voltaram, disse Amal, se as crianças ainda estivessem vivas, já teriam morrido.

Outras dez pessoas da família al-Husari ampliada foram mortas naquele dia — irmãos e primos de Muhammad.

Futuros negados

Osama, de 16 anos, era sociável, contou Muhammad, e se comunicava facilmente com pessoas, fossem crianças ou adultos.

Durante o genocídio, ele administrava uma basta – uma pequena barraca de madeira – onde vendia enlatados.

Isso despertou em Osama o interesse pelo comércio, e ele queria aprender mais sobre o tema quando o genocídio terminasse, disse o pai.

Ele seguia os irmãos pela casa, sempre disposto a ajudar.

Bilal, de 17 anos, faria os exames de conclusão escolar no próximo ano e queria ser engenheiro de software.

“Sempre o incentivei a estudar, se quisesse ser engenheiro”, contou Muhammad.

Eman, de 21 anos, estava prestes a se formar no curso de enfermagem da Universidade Islâmica de Gaza.

Durante o genocídio, seu pai perguntou o que ela faria se encontrasse um inimigo ferido que tivesse matado um de seus parentes.

“Ela me disse que era seu dever religioso e moral tratar qualquer ser humano”, disse Muhammad.

Fuad, de 23 anos, o mais velho, era formado em desenvolvimento de software pela Universidade Islâmica de Gaza.

“Ele sonhava em trabalhar para que eu pudesse descansar”, disse Muhammad.

Ele também desejava fazer mestrado e doutorado.

Mas se sentia frustrado e impotente durante o genocídio. Quando a fome atingiu Gaza, Fuad implorava ao pai para ir até os caminhões de ajuda que vinham da passagem de Zikim, o ponto de entrada dos comboios humanitários no norte de Gaza.

Mas o pai dizia que era perigoso demais.

“Ele estava sofrendo psicologicamente, infeliz com as condições em que vivíamos”, contou Muhammad.

“Eles eram todos filhos bondosos e bons”, disse Amal. “Toda vez que passavam por mim, me abraçavam ou me beijavam.”

Quando as forças israelenses ordenaram que os civis fugissem para o sul no início de setembro, Fuad, como seus irmãos, disse à mãe que dessa vez não deixaria sua casa novamente.

E não deixou – ele ainda está debaixo dos escombros da casa, ao lado dos dois irmãos mais novos. Ainda não foi possível recuperar os três corpos.

* Ahmad Sbaih é escritor baseado em Gaza. Artigo publicado em 13/11/2025 por The Electronic Intifada.

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