O que se sabe sobre as armas nucleares de “israel”?

Ao contrário do Irã, "israel" já é um estado nuclear, com um programa secreto que remonta à década de 1950

29/06/2025

Foto de arquivo datada de 8 de setembro de 2002 mostra uma vista parcial da usina nuclear de Dimona, no deserto de Negev, no sul de Israel (AFP/Thomas Coex)

Por Rayhan Uddin*

Donald Trump repetiu nos últimos dias, frequentemente em letras maiúsculas em sua conta na Truth Social, que o Irã não pode ser autorizado a obter uma arma nuclear.

Essa visão é compartilhada por Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, que declarou que o ataque surpresa de Israel ao Irã — que matou centenas desde 13 de junho — é uma medida preventiva para impedir o Irã de criar uma arma nuclear.

O Irã nega estar tentando produzir armamento nuclear e insiste que seu programa nuclear é para fins civis.

O país é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que estabelece que Estados que não possuem armas nucleares não podem adquiri-las.

O TNP concede à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) o poder de monitorar e verificar se os Estados não nucleares estão em conformidade com o tratado.

Na semana passada, a agência declarou que o Irã havia violado suas obrigações — uma ação fortemente condenada por Teerã, que afirmou tratar-se de um pretexto para o ataque surpresa de Israel.

Mas, ao contrário do Irã, Israel não assinou o TNP, sendo um dos apenas cinco países que não fazem parte do tratado de 1968. Isso significa que a AIEA não tem como monitorar ou verificar o arsenal nuclear israelense.

Pouco se sabe sobre o programa nuclear de Israel, já que o país adota uma política de nem confirmar nem negar sua existência.

No entanto, documentos desclassificados, investigações jornalísticas e denúncias de delatores desde os anos 1980 apontam o que Israel possui.

Quais armas nucleares Israel possui?

Israel é um dos nove países que se sabe possuírem armas nucleares, junto com EUA, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte.

Acredita-se que possua cerca de 90 ogivas nucleares e plutônio suficiente para produzir cerca de 200 outras, segundo a organização Nuclear Threat Initiative.

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Israel teria entre 750 e 1.110 kg de plutônio — o suficiente para construir entre 187 e 277 armas nucleares.

Essas armas presumidas podem ser lançadas por via aérea, marítima e terrestre.

Israel possui aeronaves F-15, F-16 e F-35 de fabricação americana, todas passíveis de modificação para carregar bombas nucleares. Acredita-se também que o país tenha seis submarinos da classe Dolphin, fabricados por uma empresa alemã, que podem lançar mísseis de cruzeiro nucleares.

A família de mísseis balísticos Jericho, baseada em terra, tem alcance de até 4.000 km. Pesquisadores estimam que cerca de 24 desses mísseis podem carregar ogivas nucleares, embora o número exato seja incerto.

Como começou o programa nuclear de Israel?

David Ben Gurion, o primeiro-ministro de Israel, iniciou o projeto nuclear entre meados e o fim da década de 1950. Um grande complexo foi construído em Dimona, uma cidade no deserto do Negev (o local é referido simplesmente como “Dimona”).

Foi ali que se produziu o primeiro lote de plutônio, com ajuda do governo francês.

“Relatos mais confiáveis apontam para o papel da França no final da década de 1950”, disse Shawn Rostker, analista do Center for Arms Control and Non-Proliferation, ao Middle East Eye.

“A França ajudou a construir o reator de Dimona, forneceu tecnologia essencial e apoiou as capacidades de reprocessamento de plutônio, estabelecendo as bases para o avanço nuclear de Israel.”

Essa cooperação entre Paris e Israel surgiu de uma hostilidade compartilhada contra Gamal Abdel Nasser, então presidente do Egito, segundo historiadores franceses.

A colaboração franco-israelense foi mantida em segredo: até mesmo os EUA, o aliado mais próximo de Israel, desconheciam o projeto no início.

Avner Cohen, historiador e professor israelense-americano, é um dos principais estudiosos da história nuclear de Israel e autor de vários livros sobre o tema, incluindo Israel and the Bomb.

“Há cerca de meio século Israel adquiriu capacidade nuclear, mas o fez de uma maneira diferente de qualquer outro Estado nuclear, antes ou depois”, disse Cohen ao Middle East Eye.

Sua pesquisa, que inclui análise de documentos norte-americanos recentemente desclassificados, mostra que Washington questionou repetidamente o que Israel fazia em Dimona no final dos anos 1950 e início dos 1960.

Eventualmente, sob pressão dos EUA, Ben Gurion declarou ao Knesset, em dezembro de 1960, que o reator de Dimona era “um reator de pesquisa” que serviria à “indústria, agricultura, saúde e ciência”.

Assim começou um elaborado e duradouro esquema de engano. Autoridades americanas inspecionaram o local oito vezes entre 1961 e 1969.

Durante essas visitas, uma planta subterrânea de separação — essencial para produzir plutônio de grau militar — foi escondida. Outras partes do complexo foram camufladas para disfarçar sua finalidade.

Israel avançava significativamente entre as inspeções.

Acredita-se que tenha concluído sua instalação secreta de separação subterrânea em 1965; começado a produzir plutônio de grau militar em 1966; e montado uma arma nuclear antes de junho de 1967, início da guerra no Oriente Médio.

Qual foi o acordo Nixon-Meir de 1969?

Ao final da década de 1960, os EUA finalmente descobriram o verdadeiro propósito de Dimona. Segundo Cohen, um acordo secreto foi firmado — e ainda está em vigor — de que Washington não faria perguntas se Israel mantivesse discrição.

“Em 1969, os EUA aceitaram o status nuclear excepcional de Israel, desde que o país mantivesse sua presença invisível e opaca. Isso é conhecido como o acordo nuclear Nixon-Meir”, disse Cohen ao MEE, referindo-se a Richard Nixon e Golda Meir, então líderes dos EUA e de Israel.

Desde então, Israel mantém sua política de ambiguidade deliberada, com autoridades que nem confirmam nem negam a existência de um arsenal nuclear.

Os EUA têm cooperado com isso, supostamente ameaçando punir qualquer funcionário que reconheça publicamente o programa.

Em 2009, o presidente Barack Obama foi questionado se algum país do Oriente Médio possuía armas nucleares. Ele respondeu que não iria especular.

Israel já testou armas nucleares?

Dos nove países com armas nucleares, Israel é o único que nunca realizou um teste nuclear de forma aberta.

A evidência mais próxima é o chamado “Incidente Vela”, em setembro de 1979, quando Israel e a África do Sul do apartheid teriam realizado um teste conjunto em uma ilha entre o Atlântico Sul e o Oceano Índico.

Satélites dos EUA detectaram um duplo clarão de luz inexplicado — geralmente sinal típico de uma explosão nuclear.

O governo do apartheid sul-africano desenvolveu armas de destruição em massa por décadas, mas encerrou seu programa nuclear em 1989. Foi o único país a adquirir armas nucleares e depois abandoná-las voluntariamente.

Jimmy Carter, presidente dos EUA à época, escreveu em White House Diary que acreditava se tratar de um teste israelense.

“Nossos cientistas acreditam cada vez mais que os israelenses realmente realizaram um teste nuclear no oceano, próximo ao extremo sul da África”, escreveu.

Quando as armas nucleares de Israel se tornaram de conhecimento público?

O programa nuclear de Israel ganhou as manchetes em outubro de 1986, quando o ex-técnico nuclear Mordechai Vanunu revelou detalhes sobre Dimona ao jornal Sunday Times.

Vanunu, que trabalhou no local por nove anos, afirmou que a instalação podia produzir 1,2 kg de plutônio por semana — suficiente para cerca de 12 ogivas por ano.

Ele disse que, durante as inspeções americanas nos anos 1960, os inspetores foram enganados por paredes falsas e elevadores escondidos, e que havia mais seis andares subterrâneos desconhecidos.

Vanunu tirou 60 fotos de Dimona, várias das quais foram publicadas pelo jornal britânico.

Nos anos anteriores à divulgação, Vanunu se desiludiu com as ações de Israel, condenando a invasão do Líbano em 1982 e defendendo direitos iguais para palestinos.

Antes mesmo da publicação da reportagem, ele foi sequestrado por agentes israelenses. Hospedado em Londres pelo Sunday Times, foi convencido por uma agente do Mossad a ir para Roma, onde foi drogado, levado a Israel, condenado por espionagem e preso por 18 anos — mais da metade em confinamento solitário.

Ao ser libertado em 2004, foi proibido de viajar ou falar com jornalistas estrangeiros. Essas restrições permanecem até hoje.

A história oculta de como “israel” adquiriu armas nucleares

Qual é a estratégia de Israel para uso de armas nucleares?

Em 2011, Benjamin Netanyahu foi perguntado por Piers Morgan se Israel possui armas nucleares. Ele respondeu: “Essa é nossa política. Não ser o primeiro a introduzir armas nucleares no Oriente Médio.” Essa frase é repetida por autoridades israelenses quando pressionadas.

“Israel nunca esclareceu publicamente o que significa ‘introdução’”, disse Cohen, acrescentando que o país trata o tema nuclear como classificado, fora das políticas de defesa e exteriores.

“Portanto, Israel não tem uma estratégia pública envolvendo uso nuclear. Entende-se que só usaria armas nucleares em cenários extremos de ‘último recurso’.”

Esse cenário é conhecido como “Opção Sansão” — expressão criada por líderes israelenses nos anos 1960. O princípio é que Israel retaliaria com armas nucleares se enfrentasse uma ameaça existencial.

Sansão, personagem bíblico, prisioneiro dos filisteus, derrubou um templo sobre si e seus captores usando sua força.

Analistas apontam que isso contrasta com a doutrina da Destruição Mútua Assegurada (MAD), na qual um ataque nuclear provoca contra-ataque, assegurando que ambos os lados sejam destruídos.

Na teoria, a Opção Sansão pode ser acionada até diante de uma derrota militar existencial, mesmo contra um inimigo não nuclear.

Cohen e outros estudiosos afirmam que, durante a guerra de 1973 — quando Egito e Síria atacaram Israel de surpresa — o país considerou essa opção.

Embora nunca tenham admitido possuir armas nucleares, líderes israelenses sugeriram que elas poderiam ser usadas.

“Nossa frota de submarinos serve como um dissuasor para nossos inimigos”, disse Netanyahu em 2016. “Eles precisam saber que Israel pode atacar, com grande força, qualquer um que tente feri-lo.”

Mais recentemente, em novembro de 2023, um ministro do governo sugeriu publicamente que lançar uma bomba nuclear sobre Gaza era “uma opção”.

Amichai Eliyahu, ministro do Patrimônio, foi suspenso temporariamente por seus comentários e, mais tarde, afirmou nas redes sociais que a fala era “metafórica”.

O que o mundo diz sobre as armas nucleares de Israel?

Israel é um dos cinco Estados que não assinaram o TNP, tratado de 1968 que busca controlar internacionalmente o uso de armas nucleares.

Índia e Paquistão nunca assinaram o tratado. A Coreia do Norte assinou, mas se retirou em 2003. O Sudão do Sul, único outro não signatário, não possui armas nucleares.

Em dezembro de 2014, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução (161 votos a 5) pedindo que Israel renunciasse às armas nucleares, aderisse ao TNP “sem mais demora” e colocasse todas suas instalações nucleares sob supervisão da AIEA. A resolução não é vinculante. Israel não a cumpriu.

“Israel é um país soberano e tomará decisões com base em sua própria segurança e interesses”, disse Rostker.

“Dito isso, uma abordagem mais aberta poderia ajudar a construir confiança e reduzir tensões nucleares sem comprometer a dissuasão.”

* Reportagem publicada no Middle East Eye em 18/06/2025.

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