“Prefiro morrer a voltar”: o pesadelo de dez meses de um adolescente palestino em uma prisão israelense

Aos 15 anos, Zaid foi separado dos pais, espancado e submetido à fome. Ele é apenas uma das centenas de crianças palestinas detidas em meio a um aumento das detenções após 7 de outubro.

13/10/2026

Prisioneiros palestinos de Gaza na prisão de Ketziot, no sul de "israel", em 26 de fevereiro de 2025. (Chaim Goldberg/Flash90)

Por Jared Hillel*

Na madrugada de 15 de fevereiro de 2025, Ahmed acordou com uma agitação do lado de fora de sua casa, perto de Ramallah, na Cisjordânia ocupada. Ainda sonolento, dirigiu-se à porta da frente, quando cerca de 50 soldados israelenses começaram a forçá-la para abri-la.

“Precisei recuar; a porta quase atingiu meu rosto”, contou Ahmed à +972 Magazine. Os soldados exigiram ver seu filho de 15 anos, Zaid. Mas, quando Ahmed os conduziu até o garoto, eles acharam que ele os havia enganado. “Um oficial disse: ‘Esse é outro, este é pequeno e jovem demais’”, recordou Ahmed.

Zaid era o garoto que eles procuravam. Quando ele resistiu, os soldados o espancaram. Sua mãe, Layla, implorou que parassem, “mas isso os tornou ainda mais agressivos”, contou ela à +972.

Os soldados arrastaram Zaid para fora e o jogaram dentro de um jipe militar. O comandante deles não quis dizer aos pais para onde o garoto estava sendo levado nem por quê.

Quando os jipes desapareceram na noite, Ahmed e Layla esperaram que ele fosse libertado rapidamente. Essas detenções costumam ser breves, geralmente durando apenas alguns dias, mas ocorrem frequentemente no âmbito das milhares de incursões militares israelenses na Cisjordânia. O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) documentou 7.500 dessas incursões somente nos primeiros nove meses de 2025.

Zaid é apenas uma das centenas de crianças palestinas que passaram pelo sistema prisional israelense nos últimos anos. No final de junho de 2026, segundo o grupo israelense de direitos humanos B’Tselem, o Serviço Prisional de Israel (IPS, na sigla em inglês) mantinha 376 menores palestinos sob a justificativa de “questões de segurança”, além de 94 por estarem ilegalmente em Israel. Três anos antes, segundo um relatório da ONU, o número de menores palestinos mantidos em prisões israelenses era um terço desse total — o que sugere um forte aumento desde os ataques de 7 de outubro.

Entrevistas com Zaid e sua família, outro adolescente detido e defensores dos direitos das crianças mostram como esse sistema funciona, desde a prisão até o interrogatório e o processo judicial: crianças retiradas de suas casas, pressionadas a confessar, mantidas repetidamente em prisão preventiva, submetidas a condições prisionais severas e quase totalmente isoladas de suas famílias. Os nomes dos adolescentes entrevistados para esta reportagem, assim como os dos pais de Zaid, foram alterados por razões de segurança.

Depois que Zaid foi levado de casa, recordou Layla, “ficamos acordados até o sol nascer, e então meu irmão ligou para a Cruz Vermelha”. Quando a família conseguiu obter representação jurídica, Zaid já havia confessado ter atirado pedras. Agora, ele nega veementemente a acusação e afirma que confessou depois de horas de espancamentos.

Ainda assim, essa confissão permitiu que os promotores militares israelenses apresentassem acusações formais contra Zaid. Ele passaria os nove meses e meio seguintes atrás das grades. Segundo ele, seu período de detenção foi marcado por espancamentos repetidos, fome, doenças e quase nenhum contato com a família.

‘Não fale, apenas assine’

Desde 1967, aproximadamente 1 milhão de palestinos foram detidos por Israel. Algumas estimativas calculam que até 40% dos homens palestinos foram presos pelo menos uma vez na vida.

Palestinos julgados nos tribunais militares israelenses da Cisjordânia podem passar longos períodos sob custódia antes do início do julgamento. As audiências são regularmente adiadas, prolongando a prisão preventiva por meses ou mais. Uma medida distinta, a detenção administrativa, permite que um comandante militar regional mantenha alguém preso por até seis meses sem acusação formal ou julgamento. As provas geralmente são classificadas por “questões de segurança”, e os juízes podem renovar as ordens repetidamente, por tempo indeterminado.

O número de menores palestinos mantidos em detenção administrativa aumentou acentuadamente. Dados da Parents Against Child Detention (PACD) mostraram que 191 menores estavam detidos em março de 2026, contra 103 um ano antes. Cinquenta estavam detidos havia mais de um ano, em comparação com seis no ano anterior.

Defensores dos direitos humanos afirmam que as condições se deterioraram visivelmente desde outubro de 2023. “A detenção de crianças palestinas e o processo sistemático contra elas nos tribunais militares não são novidade. Esta é uma crise que dura décadas”, disse à +972 Alexandra Saieh, chefe de Influência Estratégica Global e Políticas da Save the Children International. “Mas vimos uma piora da situação.

“As crianças [em detenção administrativa] muitas vezes nem sequer sabem por que estão sendo mantidas presas, e seus pais também não sabem”, acrescentou.

No caso de Zaid, porém, o interrogatório violento permitiu que as autoridades israelenses o acusassem de atirar pedras e o mantivessem preso por um período prolongado. Saieh afirmou que a Save the Children recebeu vários relatos de “crianças sendo forçadas a assinar documentos escritos em um idioma que não compreendem, muito menos na presença de um advogado”.

Ibrahim, de 15 anos, do campo de refugiados de Al-Arroub, descreveu à +972 uma tentativa semelhante. Em janeiro, soldados invadiram a casa de sua família, destruíram móveis e o levaram para uma base militar em um assentamento próximo. Em Beitar Illit, segundo ele, acusaram-no de lançar um coquetel Molotov e o espancaram durante o interrogatório. Obrigaram-no a ficar apenas de cueca, negaram-lhe permissão para usar o banheiro e, em determinado momento, um soldado lhe ofereceu um cigarro antes de apagá-lo contra seu braço.

Os interrogadores disseram a Ibrahim que seus amigos haviam testemunhado contra ele. “Eu disse a eles que não tinha nada a ver com aquilo. Eu só ia da escola para casa e de casa para a escola”, recordou.

Os oficiais pressionaram-no a assinar uma confissão em hebraico. Ibrahim se recusou, dizendo que não falava o idioma. Quando trouxeram uma versão em árabe, ele disse que não sabia ler. Na noite seguinte, sua família soube que ele havia sido libertado, e seu tio foi buscá-lo.

Mas, enquanto Ibrahim foi libertado porque não assinou uma confissão, Zaid foi coagido a assinar uma que prolongou sua detenção. Na base militar de Beit El, um comandante perguntou o que ele havia feito no dia em que foi preso. Zaid respondeu que estivera com amigos. “Não gosto da sua história”, retrucou o comandante.

Então, segundo Zaid, começaram os espancamentos. Mais tarde, ele descobriu que duas de suas costelas haviam sido quebradas. “Doía tanto que eu não conseguia respirar, e foi então que disse a eles o que queriam ouvir”, recordou. “Depois que disse que havia atirado pedras, ele parou de me bater, e foi assim que percebi que era isso que ele queria ouvir.”

Entregaram-lhe um documento para assinar. “Perguntei o que estava escrito porque não falo hebraico. Eles me disseram: ‘Não fale, apenas assine’.”

Dentro de Megiddo

Desde que se tornou ministro da Segurança Nacional de Israel, em 2022, Itamar Ben Gvir divulgou repetidamente suas visitas às prisões e celebrou o endurecimento das condições impostas aos detidos palestinos. Essa postura se intensificou ainda mais às vésperas das eleições de outubro de 2026.

Em um vídeo recente compartilhado com seus seguidores, o ministro da Segurança Nacional confrontou mulheres palestinas que reclamavam das condições de detenção e disse estar “orgulhoso de termos conseguido reduzir as condições prisionais dos terroristas ao mínimo absoluto”.

Para Zaid, as condições severas celebradas por Ben Gvir faziam parte da vida cotidiana na prisão de Megiddo, no norte de Israel, onde ele passou a maior parte de sua detenção.

Ele disse que dividia uma cela com outros dez garotos, sob luzes que permaneciam acesas 24 horas por dia. Ele falou com um advogado pela primeira vez quatro dias depois de sua prisão, durante uma audiência judicial. Foi a primeira de muitas audiências que terminaram em adiamentos e na prorrogação de sua detenção.

Além dos espancamentos frequentes, ele recordou a fome prolongada. “Eles costumavam trazer um prato de arroz para dez presos”, disse. O Ramadã começou aproximadamente duas semanas depois de sua prisão. Os guardas continuavam entregando as refeições durante o dia, quando os garotos estavam em jejum; ao pôr do sol, a pouca comida disponível já havia ficado exposta durante horas. “A comida ficava dura como uma pedra e também estava estragada; todos nós desenvolvemos problemas estomacais”, disse Zaid.

Como os outros garotos de sua cela, Zaid contraiu escabiose, uma infestação cutânea causada por ácaros. Um companheiro de cela, Walid Ahmed, de 17 anos, estava ainda mais doente. Ele sofria havia semanas de diarreia intensa, tonturas e vômitos, e seu pedido de atendimento médico foi repetidamente negado.

Em 22 de março, cerca de um mês após o início da detenção de Zaid, Walid desmaiou durante a ida diária ao pátio da prisão. Ele bateu contra um poste, e o sangue jorrou de seu rosto enquanto os garotos gritavam por socorro. Os guardas colocaram o adolescente imóvel dentro de um saco preto e o arrastaram para longe.

Brasileiro-palestino morto em prisão de “israel” sofreu maus-tratos, fome e doenças

“Depois que Walid morreu, eles ficaram um pouco preocupados; começaram a nos dar medicamentos”, recordou Zaid. “Mas foi inútil, porque todos nós já estávamos infectados com escabiose.” Posteriormente, um médico israelense concluiu que Walid havia sofrido de desnutrição extrema, com perda acentuada de peso e deterioração muscular. Até hoje, ele é o único menor palestino cuja morte sob custódia israelense é conhecida.

Sari Bashi, diretora executiva do Comitê Público Contra a Tortura em Israel (PCATI), disse à +972 que “a tortura e outras formas de tratamento cruel, desumano e degradante tornaram-se sistemáticas contra os detidos palestinos, e lamento dizer que isso inclui crianças”.

Grupos de direitos humanos e organismos internacionais há muito tempo pedem que Israel mude a maneira como trata as crianças palestinas sob custódia. Em junho de 2026, a ONU concluiu que as prisões e detenções contribuíam para criar uma “sensação generalizada de desesperança entre as crianças […] que não exige bombardeios constantes para continuar sendo eficaz”.

Khaled Quzmar, ex-diretor da organização Defense for Children International-Palestine, considera essa prática parte de um esforço mais amplo para tornar insustentável a vida das famílias palestinas nos territórios ocupados. “Isso faz parte de uma política de transferência — complicar a vida da família levando seus filhos, que, por sua vez, perdem a educação, perdem a saúde e perdem a vida”, disse ele à +972.

Além da Cisjordânia

Em Jerusalém Oriental, as crianças palestinas geralmente são submetidas a procedimentos com base na legislação civil israelense, e não na legislação militar. Ainda assim, aquelas acusadas de cometer os chamados “crimes contra a segurança”, definidos de maneira ampla e imputados quase exclusivamente a palestinos, podem enfrentar provas “secretas”, acesso restrito a advogados e menos garantias processuais do que réus acusados de crimes comuns.

As crianças de Gaza enfrentam um regime jurídico completamente diferente. Depois que Israel retirou suas forças terrestres permanentes e seus assentamentos da Faixa de Gaza, em 2005, a legislação militar foi revogada. Os habitantes de Gaza suspeitos de participar de hostilidades contra Israel, inclusive de maneira indireta, passaram a poder ser detidos com base na Lei dos “Combatentes Ilegais”, de 2002, que permite a detenção por tempo indeterminado sem julgamento.

“De acordo com os dados de que dispomos, atualmente há entre cinco e sete crianças de Gaza mantidas em instalações do IPS com base na Lei dos Combatentes Ilegais”, disse à +972 Titi Carmel, diretora-executiva da PACD. “No entanto, não temos como saber se outras crianças de Gaza estão sendo mantidas sob essa lei em instalações de detenção militar.”

Desde outubro de 2023, Israel utilizou a lei para manter 4.000 habitantes de Gaza detidos, incluindo um número desconhecido de menores, segundo dados publicados pelo PCATI. Durante uma breve trégua, em janeiro de 2025, 44 crianças de Gaza foram libertadas como parte de uma troca de pessoas mantidas em cativeiro entre Israel e o Hamas. Após o cessar-fogo de outubro de 2025, quase 2.000 palestinos foram libertados, incluindo um número desconhecido de crianças.

Os relatos de menores libertados de Gaza descrevem graves abusos. Em um depoimento coletado pela ONU, um garoto de 15 anos, detido durante uma prisão em massa em dezembro de 2023, disse que foi amarrado, vendado e levado para um local desconhecido. Privado de água, foi instruído a beber a própria urina.

Ele disse que foi despido, espancado e interrogado sobre o Hamas e os ataques de 7 de outubro. Durante os 54 dias em que permaneceu detido, afirmou, foi torturado repetidamente, inclusive com choques elétricos aplicados por meio de uma agulha inserida em seu ombro. Por fim, foi libertado pela passagem de Kerem Shalom e levado por uma agência de ajuda humanitária a uma escola.

Alguns detidos libertados dizem que foram advertidos a não falar sobre o tratamento que receberam. O grupo palestino de direitos humanos Addameer relatou que mulheres e crianças libertadas em uma troca de pessoas mantidas em cativeiro, em novembro de 2023, disseram que interrogadores israelenses ameaçaram prendê-las novamente caso concedessem entrevistas à imprensa sobre as condições de detenção e os abusos.

Para Carmel, a separação entre as crianças presas e suas famílias talvez seja o aspecto mais prejudicial da detenção. “Desde 7 de outubro, não são permitidas visitas, nem mesmo ligações telefônicas”, disse.

Zaid afirmou que, durante o período em que esteve preso, preocupava-se mais com sua família do que consigo mesmo. “Eu queria tentar contar a eles o que estava acontecendo na prisão, mas não podia.” Sua única maneira de enviar mensagens era por meio de garotos que haviam sido libertados e conseguiam chegar até os pais daqueles que continuavam presos. Seus próprios pais só podiam vê-lo durante as audiências judiciais, sentados em uma sala separada e assistindo por videoconferência.

Quando Layla viu Zaid pela primeira vez, uma semana após a prisão, ficou horrorizada. “Havia [marcas de] espancamentos em seu rosto e arranhões no pescoço”, recordou. O estresse provocado pelas audiências repetidas também prejudicou sua saúde. Os pais recebiam uma data, mas não um horário, por isso chegavam às 9h e, às vezes, esperavam o dia inteiro em uma sala fria. Depois de uma audiência particularmente longa, Layla voltou para casa, caiu na cama e permaneceu doente por duas semanas. “Durante quase todo o Ramadã, não nos alimentamos direito”, disse Ahmed.

Foram 12 audiências, cada uma terminando em mais um adiamento. “Acompanhávamos as notícias que vinham de Megiddo; estávamos todos muito preocupados”, disse Ahmed. Na audiência final, Zaid recebeu a proposta de se declarar culpado. Ele aceitou, foi condenado à pena correspondente ao tempo que já havia cumprido e libertado no dia seguinte.

Desde que voltou para casa, Zaid e seus pais tentam reconstruir uma vida normal. Agora com 17 anos, ele ingressou em uma escola profissionalizante e está aprendendo a ser mecânico. Mas sua libertação trouxe pouca segurança.

“Mesmo quando são libertados, eles não sabem o que fizeram nem como podem evitar ser presos novamente”, disse Carmel. “Isso provoca um medo tão profundo que você passa a saber que sua vida pode ser interrompida a qualquer momento e que ninguém sequer lhe explicará o motivo.”

Os pais de Zaid agora tentam mantê-lo completamente afastado dos soldados. Não permitem que ele atravesse postos de controle e o chamam de volta para casa sempre que o Exército invade a aldeia.

Layla diz que seu filho mudou. “Antes de ser preso, ele era uma pessoa calma. Mas, depois, ficou tão irritadiço que você não consegue nem conversar com ele”, disse. Ahmed afirma que Zaid agora sofre de pesadelos.

Quando fala sobre seu encarceramento, Zaid tenta manter a compostura. Diz que pensa nisso o mínimo possível. Mas, quando perguntado o que faria se os soldados viessem prendê-lo novamente, respondeu: “Vou fugir para que atirem em mim. Prefiro morrer a voltar”.

A +972 Magazine entrou em contato com o Serviço Prisional de Israel para solicitar um comentário. A resposta será acrescentada, caso e quando for recebida.

* Jared Hillel é jornalista radicado em Jerusalém. Anteriormente, trabalhou para a Reuters, em Londres, além da CBC e da Radio-Canada. Reportagem publicada no +972 Magazine em 30/09/2026.

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