YouTube apagou silenciosamente mais de 700 vídeos que documentavam violações de direitos humanos por “israel”

A medida atendeu a uma campanha do governo dos Estados Unidos para sufocar a responsabilização por supostos crimes de guerra israelenses contra palestinos em Gaza e na Cisjordânia.

05/11/2025

Colagem: The Intercept / Capturas de tela: Centro Palestino para os Direitos Humanos, Centro Al Mezan para os Direitos Humanos

Por Nikita Mazurov e Jonah Valdez* 

Um documentário com mães sobreviventes do genocídio de Israel em Gaza. Uma investigação em vídeo que revelava o papel de Israel no assassinato de uma jornalista palestino-americana. Outro vídeo que mostrava a destruição de casas palestinas por Israel na Cisjordânia ocupada.

O YouTube apagou discretamente todos esses vídeos no início de outubro, eliminando do site as contas que os haviam publicado, junto com os arquivos de seus canais. As contas pertenciam a três importantes grupos palestinos de direitos humanos: Al-Haq, Al Mezan Center for Human Rights e Palestinian Centre for Human Rights (PCHR).

A medida foi uma resposta a uma campanha do governo dos Estados Unidos para sufocar a responsabilização por supostos crimes de guerra israelenses contra palestinos em Gaza e na Cisjordânia.

Os canais do YouTube desses grupos palestinos continham horas de gravações documentando e destacando supostas violações do direito internacional cometidas pelo governo israelense, incluindo o assassinato de civis palestinos.

“Estou bastante chocada com o fato de o YouTube demonstrar tão pouca coragem”, disse Sarah Leah Whitson, diretora executiva da Democracy for the Arab World Now (DAWN). “É difícil imaginar um argumento sério de que compartilhar informações desses grupos palestinos de direitos humanos possa violar sanções. Ceder a essa designação arbitrária e censurá-los agora é decepcionante e bastante surpreendente.”

Após o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitir mandados de prisão e acusar o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant de crimes de guerra em Gaza, o governo Trump intensificou sua defesa das ações de Israel, sancionando autoridades do TPI e atacando pessoas e organizações que colaboram com o tribunal.

“É ultrajante que o YouTube esteja avançando na agenda do governo Trump de remover do olhar público provas de violações de direitos humanos e crimes de guerra”, afirmou Katherine Gallagher, advogada sênior do Center for Constitutional Rights. “O Congresso não pretendia permitir que o presidente cortasse o fluxo de informações ao público americano e ao mundo — na verdade, informações, incluindo documentos e vídeos, são especificamente isentas pela lei que o presidente citou como base para impor as sanções ao TPI.”

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“Retrocesso alarmante”

O YouTube, que pertence ao Google, confirmou ao The Intercept que excluiu as contas dos grupos diretamente em razão das sanções do Departamento de Estado dos EUA, após uma revisão. O governo Trump impôs as sanções em setembro por causa do trabalho dessas organizações com o TPI em casos que acusam autoridades israelenses de crimes de guerra.

“O Google está comprometido com o cumprimento das leis de sanções e de comércio aplicáveis”, afirmou o porta-voz do YouTube, Boot Bullwinkle, em nota.

Segundo a política de conformidade de sanções do Google, “os produtos do Google não estão disponíveis para entidades ou indivíduos que estejam sujeitos a restrições sob leis de sanções comerciais e de exportação”.

O Al Mezan, organização de direitos humanos com sede em Gaza, informou ao The Intercept que seu canal no YouTube foi abruptamente encerrado em 7 de outubro, sem aviso prévio.

“O encerramento do canal nos priva da capacidade de transmitir nossa mensagem e cumprir nossa missão”, disse um porta-voz do grupo, “impedindo-nos de alcançar nossos objetivos e limitando nosso alcance ao público que buscamos informar”.

O Al-Haq, com sede na Cisjordânia, teve seu canal excluído em 3 de outubro, recebendo uma notificação do YouTube alegando que “seu conteúdo viola nossas diretrizes”.

“A remoção, sem aviso prévio, da plataforma de uma organização de direitos humanos representa uma grave falha de princípio e um retrocesso alarmante para os direitos humanos e a liberdade de expressão”, afirmou o porta-voz do Al-Haq. “As sanções dos EUA estão sendo usadas para paralisar o trabalho de responsabilização na Palestina e silenciar vozes palestinas e vítimas — e isso tem um efeito dominó em plataformas que agem sob as mesmas medidas para silenciar ainda mais as vozes palestinas.”

O Centro Palestino para Direitos Humanos (PCHR), que a ONU descreve como a mais antiga organização de direitos humanos em Gaza, afirmou em comunicado que a decisão do YouTube “protege os perpetradores da responsabilização”.

“A decisão do YouTube de encerrar a conta do PCHR é uma das várias consequências que enfrentamos desde que o governo dos EUA decidiu sancionar nossas organizações por nosso trabalho legítimo”, disse Basel al-Sourani, assessor jurídico e oficial de advocacy internacional do grupo. “O YouTube alegou que não seguimos suas diretrizes comunitárias, quando na verdade todo o nosso trabalho consistia em apresentar relatórios factuais e baseados em evidências sobre crimes cometidos contra o povo palestino, especialmente desde o início do genocídio em 7 de outubro.”

“Fazendo isso, o YouTube se torna cúmplice em silenciar as vozes das vítimas palestinas”, acrescentou al-Sourani.

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Buscando alternativas fora dos EUA

O encerramento das contas dos três grupos resultou na eliminação de mais de 700 vídeos, segundo uma contagem feita pelo The Intercept.

Os vídeos removidos incluíam desde investigações — como uma análise do assassinato da jornalista americana Shireen Abu Akleh por forças israelenses — até depoimentos de palestinos torturados e documentários como “The Beach”, sobre crianças mortas por um ataque israelense enquanto brincavam na praia.

Alguns vídeos ainda podem ser encontrados em cópias arquivadas na Wayback Machine ou em plataformas alternativas como Facebook e Vimeo. A exclusão afetou apenas os canais oficiais das organizações; vídeos produzidos por elas, mas hospedados em outros canais do YouTube, permanecem ativos. No entanto, não existe um índice completo dos vídeos deletados, e muitos parecem não estar disponíveis em nenhum outro lugar.

As organizações temem que vídeos postados em outros serviços, muitos deles também baseados nos EUA, possam ser os próximos alvos de exclusão. O próprio TPI começou a buscar provedores de serviços fora dos Estados Unidos.

O Al-Haq afirmou que também buscará alternativas fora de empresas americanas para hospedar seus conteúdos.

O YouTube não é a única empresa de tecnologia dos EUA a bloquear grupos palestinos. O Al-Haq revelou que o serviço de e-mails Mailchimp também encerrou sua conta em setembro. (A Mailchimp e sua controladora, Intuit, não responderam aos pedidos de comentário.)

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Cedendo às exigências de Trump

Os governos dos EUA e de Israel há muito tempo se protegem do TPI e da responsabilização por seus supostos crimes de guerra. Nenhum dos dois é signatário do Estatuto de Roma, tratado que criou o tribunal.

Em novembro de 2024, promotores do TPI emitiram mandados de prisão contra Netanyahu e Gallant, acusando-os de provocar a fome intencional de civis ao bloquear a entrada de ajuda humanitária em Gaza. Tanto as administrações Biden quanto Trump rejeitaram a legitimidade desses mandados.

Desde sua reeleição, Trump tem adotado uma postura ainda mais agressiva contra a responsabilização de Israel. Nos primeiros meses de seu segundo mandato, renovou as sanções contra o TPI e impôs novas medidas mais severas contra autoridades do tribunal e qualquer pessoa acusada de ajudá-lo. Em setembro, em uma nova ordem, sancionou especificamente os três grupos palestinos.

As ações dos EUA seguiram a designação de Israel, em 2021, que classificou o Al-Haq como “organização terrorista”, acompanhada por uma campanha difamatória online conduzida por ativistas pró-Israel tentando vincular o PCHR a grupos militantes.

As sanções congelam os ativos das organizações nos EUA e proíbem seus membros sancionados de viajar ao país. Juízes federais já emitiram liminares em dois casos a favor de queixosos que alegaram que as sanções violavam seus direitos à liberdade de expressão.

“A administração Trump está contribuindo ativamente para a censura de informações sobre as atrocidades israelenses na Palestina, e as sanções contra essas organizações foram projetadas deliberadamente para assustar americanos preocupados com as leis de apoio material”, disse Whitson, da DAWN, que se juntou a uma coalizão de grupos exigindo o fim das sanções.

Como muitas empresas de tecnologia, o YouTube tem mostrado disposição em atender às exigências do governo Trump e de Israel. A plataforma cooperou com uma campanha organizada por trabalhadores israelenses do setor de tecnologia para remover conteúdos considerados críticos a Israel. Nos EUA, o Google — empresa controladora do YouTube — entregou secretamente informações de contas do Gmail a autoridades de imigração para deter um estudante pró-Palestina.

Mesmo antes da ofensiva genocida em Gaza, o YouTube já havia sido acusado de aplicar suas diretrizes de forma desigual, censurando vozes palestinas enquanto poupava conteúdos pró-Israel. Segundo uma reportagem da Wired, essa tendência se manteve durante a guerra.

No início deste ano, o YouTube também encerrou a conta oficial da Addameer Prisoner Support and Human Rights Association, após pressão da organização UK Lawyers for Israel, que alertou a plataforma de que o grupo havia sido sancionado pelo Departamento de Estado.

Whitson alertou que a capitulação do YouTube pode criar um precedente, levando outras empresas de tecnologia a ceder à censura.

“Eles estão basicamente permitindo que o governo Trump dite quais informações serão compartilhadas com o público global”, disse ela. “E isso não vai parar na Palestina.”

* Nikita Mazurov é um pesquisador de segurança especializado em questões de privacidade relacionadas à proteção de fontes, contra-forense e garantia de privacidade. Jonah Valdez é repórter do The Intercept, com passagens pelo Los Angeles Times e artigos publicados em veículos como The Guardian. Reportagem publicada no The Intercept em 04/11/2025.

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