A tortura nas prisões israelenses aumentou drasticamente durante o genocídio, diz escritor palestino libertado
“Eles amarravam nossas mãos atrás da cabeça, nos jogavam no chão e começavam a pisar em nós”, diz Nasser Abu Srour, condenado em 1993 à prisão perpétua com base em uma confissão obtida após tortura e sem possibilidade de liberdade condicional
Um manifestante palestino segura um cartaz com o retrato de Nasser Abu Srour durante uma manifestação em 2015, na cidade de Bilin, na Cisjordânia, perto de Ramallah. (Foto: Abbas Momani/AFP/Getty Images)
Por Julian Borger*
Um renomado escritor palestino, libertado no mês passado após mais de 32 anos em prisões israelenses, afirmou que o uso da tortura aumentou dramaticamente durante seus dois últimos anos de cativeiro, à medida que Israel passou a tratar suas cadeias como outro front na guerra de Gaza.
Nasser Abu Srour, cujo livro de memórias sobre a prisão foi traduzido para sete idiomas e é cotado para vencer um importante prêmio literário internacional neste mês, estava entre os mais de 150 palestinos condenados à prisão perpétua que foram libertados como parte do cessar-fogo em Gaza, mediado pelos Estados Unidos, e imediatamente exilados para o Egito, onde a maioria permanece em situação indefinida.
Aos 56 anos, Abu Srour relatou um forte aumento nas agressões físicas e na privação de comida e calor após o início da guerra de Gaza, em outubro de 2023.
“O uniforme dos guardas prisionais mudou, com uma etiqueta no peito em que se lia ‘combatentes’ ou ‘guerreiros’, e eles começaram a agir como se estivessem em uma guerra e aquilo fosse outro front. Passaram a bater, torturar, matar como guerreiros”, disse ele.
Uma comissão da ONU registrou 75 mortes de palestinos sob custódia israelense entre 7 de outubro de 2023 e 31 de agosto de 2025. O serviço penitenciário israelense tem negado repetidamente o uso de tortura em suas prisões.
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Falando por telefone do Egito, Abu Srour também descreveu o “choque vertiginoso” de ser levado diretamente das condições brutais do cárcere israelense para um hotel cinco estrelas no Cairo, como hóspede das autoridades egípcias.
Quando jovem, Abu Srour participou da Primeira Intifada — o levante palestino entre 1987 e 1993 —, quando foi acusado de cúmplice na morte de um agente do serviço secreto israelense Shin Bet, que tentava pressionar o primo de Abu Srour a se tornar colaborador.
Com base em uma confissão obtida sob tortura, ele foi condenado em 1993 à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. Durante décadas marcadas por longos períodos de confinamento solitário, obteve um diploma de bacharelado e depois um mestrado em ciência política, além de começar a publicar poesias e outros textos que eram contrabandeados para fora da prisão.
Seu livro de memórias, The Tale of a Wall: Reflections on Hope and Freedom (A História de um Muro: Reflexões sobre Esperança e Liberdade), foi ditado em grande parte por telefone a um parente ao longo de mais de dois anos. Traduzido do árabe para sete idiomas, o livro é finalista do Prêmio de Literatura Árabe concedido anualmente pelo Instituto do Mundo Árabe, em Paris.
Apelos por sua libertação foram ignorados ao longo das décadas, por isso, quando funcionários apareceram na prisão após o cessar-fogo de 10 de outubro com uma lista de prisioneiros a serem soltos, Abu Srour tentou não prestar atenção.
“Chamavam os números das celas e eu estava sentado na minha cama, no quarto número 6, sentindo que não fazia parte daquilo”, contou. “Houve tantas vezes em que eu deveria ter feito parte da lista, ao longo de todos esses anos. Mas tudo era tão imenso e doloroso que eu não quis reagir. Foi um mecanismo de defesa. Eu dizia a mim mesmo que não tinha nada a ver comigo.
“Mas então vieram até minha cela e disseram: ‘Nasser, prepare-se.’ A graça de Deus finalmente me alcançou. Meus amigos me abraçavam e beijavam, e eu não acreditava.”
Abu Srour afirmou que, após o início da guerra de Gaza, o tratamento dado aos prisioneiros palestinos de longo prazo piorou significativamente.
“Qualquer lugar onde não houvesse câmeras era um espaço para a brutalidade”, disse. “Eles amarravam nossas mãos atrás da cabeça, nos jogavam no chão e começavam a pisar em nós.”
O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, vangloriou-se de que, sob seu comando, as prisões israelenses “deixaram de ser acampamentos de férias”. Segundo Abu Srour, todos os materiais de leitura e escrita foram retirados nesse período.
“Toda a vida cultural na prisão acabou nos últimos dois anos — restou apenas a vida biológica. Cada um tentava sobreviver à sua maneira. E estávamos sempre com fome”, contou. As rações diárias foram reduzidas ao nível mínimo de sobrevivência, e ele afirmou ter perdido 12 quilos de peso.
Os presos tinham direito apenas a um conjunto de roupas finas, de modo que passavam frio nas noites de inverno.
“Nossos corpos estavam fracos. Não conseguíamos suportar nem mesmo uma temperatura amena”, disse. “Sempre que alguém saía da prisão, todos tentavam fazer amizade com ele para conseguir uma camiseta, uma cueca, qualquer coisa.”
Abu Srour relatou que, nas 24 horas anteriores à libertação dos prisioneiros contemplados pelo cessar-fogo, eles foram submetidos a uma rodada final e particularmente intensa de espancamentos.
“O dia da libertação foi o mais difícil de nossos vinte anos; fomos torturados por 15 horas”
Durante as 48 horas seguintes, na viagem de ônibus que atravessou Israel e depois contornou o sul de Gaza até a passagem de Rafah, rumo ao Egito, eles não puderam abrir as cortinas dos veículos. Apenas ao entrar em território egípcio ele viu o céu pela primeira vez fora dos limites da prisão.
Os ônibus deixaram os 154 prisioneiros libertados em um luxuoso hotel do Cairo, o que trouxe novos choques.
“Eu nunca tinha estado em um hotel antes. Fiz tudo pela primeira vez, como uma criança — entrar e sair de um elevador, aprender sobre o serviço de quarto, entender o que era e como usar um chuveiro”, disse Abu Srour.
Parte do impacto foi reencontrar quatro de suas irmãs e um irmão, após décadas de separação.
“Isso foi outro motivo de estresse para mim… Ficamos separados por uns 33 anos. Foi cruel, porque esse reencontro me havia sido negado por tanto tempo”, afirmou. “Lembro-me de pensar: ‘Posso abraçá-los?’”
Os prisioneiros libertados eram vigiados por agentes de segurança egípcios enquanto circulavam entre turistas, observando como eles se comportavam para imitá-los.
“De manhã vimos o bufê e toda aquela comida. Então os caras colocaram uns dois quilos de comida no prato. Era uma cena surreal. Ficamos envergonhados. Não sabíamos o que fazer com faca e garfo”, contou Abu Srour. “Meus sentimentos estavam todos misturados e tensos. Eu estava constrangido. Perdi as palavras, incapaz de dar significado às coisas ao meu redor.”
No sábado, após o Daily Mail publicar uma matéria revelando a presença de prisioneiros palestinos libertados entre turistas ocidentais em um local que chamou de “Hotel Hamas”, o grupo recebeu duas horas para arrumar seus pertences antes de ser levado para outro hotel, no deserto, a uma hora de carro da capital.
Essa mudança abrupta — ser ordenado a embarcar em ônibus e levado para um destino desconhecido, escolhido por outros — serviu para lembrar a Abu Srour que ainda não estava realmente livre.
Ele recebeu ofertas de vários países dispostos a acolhê-lo de forma permanente e tenta decidir para onde ir, levando em conta a facilidade de acesso para sua família e a possibilidade de continuar escrevendo.
“Eu não quero um país confortável”, disse. “Não quero um país sem perguntas ou um país sem causa.”
* Correspondente internacional sênior do Guardian, baseado em Londres. Anteriormente, foi correspondente nos EUA, no Oriente Médio, na Europa Oriental e nos Balcãs. É autor de dois livros: “I Seek A Kind Person” e “The Butcher’s Trail”. Reportagem publicada em 04/11/2025 no The Guardian.
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