Fátima Ali assume presidência da FEPAL e se torna primeira mulher a comandar entidade palestina da diáspora na América Latina

Dirigente histórica da comunidade palestina, Fátima Ali assume a presidência da Federação Árabe Palestina do Brasil após licença de Ualid Rabah, que disputará uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições de 2026

11/08/2026

Fátima Ali milita na FEPAL desde a década de 1980. (Foto: arquivo pessoal)

A Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL) passa a ser presidida, pela primeira vez em sua história, por uma mulher. Fátima Ali, dirigente histórica da comunidade palestina no Brasil e uma das pioneiras na organização da juventude e das mulheres palestinas no país, assume a presidência da entidade após o afastamento temporário de Ualid Rabah, que se licencia do cargo para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições de 2026.

A mudança representa um marco não apenas para a FEPAL, fundada em 1979, mas para a representação política e comunitária palestina na América Latina. Segundo a própria trajetória histórica da entidade, nenhuma organização da diáspora palestina de natureza equivalente à Fepal na região havia alcançado até então o marco de ter uma mulher à frente de sua direção nacional.

A transmissão da presidência ocorre como resultado de um processo de ampliação da participação feminina na estrutura da Federação que foi deliberadamente construído ao longo dos últimos congressos da entidade. A decisão de afastamento foi formalizada em carta enviada por Rabah a Fátima Ali na última segunda-feira (10).

“Ter uma mulher na presidência da FEPAL é a concretização de um caminho escolhido e muito bem trabalhado”, afirmou Rabah ao comentar a mudança. Ele lembrou que esse processo começou no 10º Congresso da entidade e foi aprofundado no 11º, realizado em 2024.

Na carta, Rabah explica que decidiu solicitar o afastamento temporário da presidência durante o período eleitoral brasileiro porque está concorrendo a uma cadeira na Câmara Federal. “A presente tem o elevado propósito de levar a vosso conhecimento […] pedido de afastamento temporário da presidência da entidade, enquanto durar o período eleitoral brasileiro deste ano de 2026, visto que disputo assento na Câmara Federal”, escreveu.

O presidente licenciado ressaltou, entretanto, que a candidatura não representa um afastamento da causa palestina. “Sigo inteiramente comprometido com a entidade e ao dispor de sua direção”, declarou. Na mesma carta, reafirmou seu compromisso com a libertação da Palestina e com pautas políticas associadas à atuação da FEPAL, entre elas o combate ao racismo, à discriminação, ao ódio e à intolerância, além da defesa da soberania brasileira.

A carta foi dirigida justamente a Fátima Ali, então vice-presidenta da Federação, que passa a ocupar a presidência durante o período de licença.

Uma mudança construída ao longo de anos

Para Rabah, a chegada de uma mulher à presidência não é resultado de uma alteração circunstancial, mas consequência de uma política deliberada de participação feminina adotada pela organização.

“Incluir mulheres na direção era uma escolha estratégica, que começou com o estímulo à escolha delas nas assembleias comunitárias e especiais que elegeram as delegações”, explicou.

No processo de preparação para o 11º Congresso, a FEPAL chegou a realizar uma assembleia especial nacional exclusivamente de mulheres. O regulamento do congresso também estabeleceu uma exigência inédita: pelo menos um terço das delegações deveria ser composto por mulheres. As delegações que não respeitassem a regra poderiam ter sua ata invalidada e ficar impedidas de participar do congresso.

A política produziu resultados concretos. A direção formada a partir do 10º Congresso, realizado em 2019, teve quase 40% de seus cargos ocupados por mulheres, com Fátima Ali na vice-presidência. A composição foi praticamente reproduzida na direção escolhida no 11º Congresso, em 2024.

“Um detalhe merece atenção: em 2024 tivemos a maior participação de mulheres em congressos da FEPAL em toda a história de 10 congressos anteriores e 45 anos de existência da entidade”, destacou Rabah.

A mudança também acompanha uma concepção política sobre o papel das mulheres tanto na sociedade brasileira quanto na própria diáspora palestina.

“Isso reflete, nesta diáspora, nosso pensamento para a Palestina e para o Brasil: as mulheres devem ser protagonistas máximas nas direções. Se defendemos isso, devemos praticar”, afirmou o presidente licenciado.

Segundo Rabah, a própria direção da Federação já havia estabelecido como objetivo que uma mulher assumisse futuramente a presidência. “Havíamos prometido pra nós mesmos que uma mulher ainda presidiria a FEPAL, imaginando o próximo Congresso. Eis que isso foi antecipado e estamos felizes por isso.”

A escolha de Fátima Ali, acrescenta Rabah, tem ainda um significado especial por sua trajetória dentro do movimento palestino brasileiro. “Fátima é militante histórica, precursora do movimento de juventude palestina no Brasil, também da organização das nossas mulheres. Ela é uma dirigente respeitada por todos nós. Mais ainda: um quadro.”

Uma trajetória iniciada nos anos 1980

Filha de um palestino que emigrou de Nablus, Cisjordânia para o Brasil em razão da invasão sionista, Fátima Ali nasceu em Sant’Ana do Livramento no Rio Grande do Sul, Estado onde iniciou sua militância junto à comunidade palestina.

Sua relação com a FEPAL remonta aos primeiros anos da entidade. Ela começou a militar na Federação em 1980, pouco depois de sua fundação, e posteriormente foi uma das fundadoras da Juventude Sanaúd, organização que teve origem no movimento de mobilização contra a invasão do Líbano e os massacres de Sabra e Chatila, em 1982.

Encontro da Juventude Palestina, Piracicaba, 1985. Fátima Ali está embaixo à esquerda. (Foto: arquivo pessoal)

A atuação política de Fátima também esteve ligada ao movimento estudantil. Durante sua formação universitária, participou do Centro Acadêmico de Enfermagem e do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Unisinos, desenvolvendo atividades de conscientização sobre a causa palestina.

Em 1988, após concluir sua formação em enfermagem, foi para os campos de refugiados de Gaza, onde trabalhou como enfermeira durante o período da Primeira Intifada. Sua atuação também incluiu missões oficiais brasileiras na área da saúde: participou de uma missão em 2010 ao Haiti e, em 2012, integrou o termo de cooperação técnica em saúde do governo brasileiro com a Palestina.

Fátima Ali (à direita) durante missão nos campos de refugiados de Gaza em 1988. (Foto: arquivo pessoal)

Sua trajetória institucional na FEPAL avançou ao longo dos anos. No 9º Congresso, em 2007, foi eleita para compor a direção da entidade. No 10º Congresso, em 2019, tornou-se vice-presidenta e foi novamente eleita para a mesma função no 11º Congresso, em 2024.

Também presidiu a Sociedade Árabe Palestina da Grande Porto Alegre e atuou no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, ocupando a representação árabe. É ainda integrante do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebrapaz).

“Não se trata apenas de ocupar um posto”

Ao assumir a presidência, Fátima Ali afirma compreender a dimensão histórica da mudança. Em documento preparado para apresentar sua chegada ao cargo, ela define a nova posição como uma responsabilidade que ultrapassa a dimensão individual.

“Como uma das tantas mulheres palestinas em diáspora do Brasil, assumo a presidência da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL) consciente da responsabilidade que este momento representa”, afirma. “Não se trata apenas de ocupar um posto, mas de reafirmar meu compromisso com a história, a memória, a cultura e, sobretudo, com a luta do povo palestino.”

A nova presidenta também estabelece como prioridade a continuidade da atuação política da entidade e a ampliação de sua presença na sociedade brasileira. Ela defende uma Federação “cada vez mais presente, plural, representativa e articulada”, capaz de reunir a comunidade, preservar a memória e a identidade palestinas, aproximar as novas gerações de suas raízes e ampliar o diálogo com a sociedade brasileira.

Para Fátima, a condição de diáspora implica uma dupla responsabilidade: preservar a identidade palestina e, ao mesmo tempo, participar ativamente da sociedade brasileira.

“Estar em diáspora também nos coloca diante de outro campo: preservar nossas raízes sem deixar de participar ativamente da sociedade que nos acolhe”, afirma. O documento recupera, nesse contexto, uma diretriz política historicamente associada a Yasser Arafat: “um bom palestino deve ser um bom cidadão no país que o acolhe”.

Mulheres no centro da resistência palestina

A nova presidenta também relaciona sua chegada à direção da FEPAL à longa participação das mulheres na resistência palestina.

“As mulheres palestinas têm sido vozes incontestes dos movimentos anticoloniais ao longo da nossa história”, afirma Fátima. Para ela, as mulheres palestinas têm desempenhado papel central no movimento, na preservação da memória, da cultura, das famílias e da identidade palestinas diante de décadas de deslocamento e violência.

“Mulheres que enfrentam a permanente Nakba e que, geração após geração, preservam nossa memória, nossa cultura, nossas famílias e nossa identidade”, escreve.

A presidência da FEPAL, nesse sentido, é apresentada como parte de uma trajetória coletiva e não como uma conquista individual. “Assumo, portanto, essa presidência sabendo que carregamos uma história muito maior do que cada um de nós. Uma história de pertencimento, resistência e esperança”, afirma.

Fátima também sintetiza seu compromisso com a entidade e com a causa palestina ao defender que a organização da diáspora seja um instrumento permanente de mobilização. “Que possamos fazer da memória presença, da diáspora pertencimento, da solidariedade força e da nossa organização um instrumento permanente de defesa da Palestina e de seu povo.”

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