Em aldeia da Cisjordânia, nova ordem israelense permite ataques de “colonos” enquanto afirma impedi-los

O Exército israelense declarou a aldeia palestina de Taybeh, na Cisjordânia ocupada, uma zona militar fechada para “manter a ordem”, mas moradores afirmam que os ladrões de terras continuam autorizados a invadir a área.

14/08/2026

Colonos israelenses continuam realizando incursões contra a aldeia palestina de Taybeh, na Cisjordânia ocupada, apesar de o Exército israelense ter declarado a área uma “zona militar fechada”, em 10 de agosto de 2026. Foto de Issam Rimawi/Anadolu via Getty Images.

Por Sharif Abdel Kouddous*

No domingo, o Exército israelense declarou a aldeia palestina de Taybeh, na Cisjordânia ocupada, uma zona militar fechada, alegando que a medida tinha como objetivo impedir a escalada dos ataques realizados por colonos israelenses [NT: ladrões de terras palestinas]. Em tese, a ordem proíbe israelenses e estrangeiros de entrarem na área.

Mas moradores da aldeia e das regiões vizinhas disseram ao Drop Site News que a ordem militar foi criada para isolar ainda mais Taybeh do mundo exterior, impedindo a presença de ativistas solidários enquanto permite que os ataques dos colonos continuem. Uma das poucas aldeias palestinas de maioria cristã na Cisjordânia, Taybeh vem sofrendo ataques crescentes de colonos israelenses, que expandiram postos coloniais avançados ao seu redor nas últimas semanas.

“A ordem diz que israelenses e estrangeiros estão proibidos de entrar na área. E o colono que fica circulando por aqui? O que ele é? É israelense ou não? Por que ele está na área?”, disse Jack Abed, sacerdote da Igreja Greco-Católica de Taybeh. “Esta ordem tem o objetivo de impedir que defensores dos direitos humanos estejam presentes para nos proteger do que esses colonos criminosos estão fazendo — atacando-nos de forma extremamente brutal.”

A avaliação foi compartilhada por Nayef Kaabneh, líder da comunidade beduína de Taybeh, que vive nas terras ao redor da aldeia. “Disseram-nos que a área havia sido declarada uma zona militar fechada para impedir que os colonos viessem para cá. Mas descobrimos que tudo isso era mentira. Os colonos continuam vindo, enquanto os ativistas são impedidos de chegar até nós”, afirmou Kaabneh. “Eles querem nos isolar para poder nos atacar.”

Kaabneh relatou um incidente recente em que um colono chegou à região seguido por vários ativistas internacionais de solidariedade. “Chamamos a polícia e o Exército. O Exército veio e disse: ‘Isto é uma zona militar fechada. Saiam daqui.’ Então os ativistas foram embora, e o colono também saiu. Mas o colono apenas foi para ali e, assim que o Exército partiu, voltou. E os ativistas não voltaram. Portanto, a ordem tem como alvo os ativistas, não os colonos”, disse.

Na terça-feira, o Exército israelense emitiu um decreto semelhante, anunciando o fechamento militar das aldeias de Kufr Qallil e Jalud, ambas localizadas na província de Nablus, no norte da Cisjordânia, novamente alegando que a medida era necessária para proteger os moradores palestinos dos colonos.

Apesar das declarações ocasionais das autoridades israelenses de que não toleram ataques de colonos, a colaboração das forças israelenses nesses ataques está amplamente documentada. Um relatório da Comissão de Inquérito das Nações Unidas sobre o Território Palestino Ocupado, publicado em junho, concluiu que as autoridades israelenses estão diretamente envolvidas em ataques de colonos que mataram, feriram e deslocaram comunidades palestinas na Cisjordânia. “A crescente participação das forças de segurança israelenses nos ataques dos colonos equivale, na prática, ao colapso da distinção entre colonos e soldados”, afirmou o relatório.

A comissão concluiu que “a violência dos colonos na Cisjordânia funciona como um meio de implementação da política do Estado israelense, com o Estado e grupos e indivíduos colonos violentos trabalhando em direção aos mesmos objetivos estratégicos, incluindo a manutenção da ocupação ilegal, o fortalecimento dos assentamentos israelenses ilegais, a anexação do território palestino e o deslocamento dos palestinos de suas terras”. O relatório acrescentou: “As autoridades israelenses permitiram tais ataques por meio de apoio financeiro e militar, enquanto as autoridades judiciais e de aplicação da lei israelenses concederam impunidade à violência dos colonos durante décadas.”

Embora os ataques de colonos e soldados israelenses contra palestinos na Cisjordânia ocorram há anos, eles se intensificaram drasticamente desde outubro de 2023, paralelamente à ofensiva genocida de Israel contra Gaza, resultando na morte de mais de 1.100 palestinos e no deslocamento forçado de dezenas de milhares de pessoas.

No mês passado, a ONU alertou que os ataques de colonos israelenses e a criação de assentamentos e postos avançados atingiram “um nível sem precedentes”. Nas últimas duas semanas e meia, os ataques aumentaram ainda mais após uma invasão de colonos à aldeia de Tell que terminou com a morte de quatro palestinos e dois colonos. Somente na última semana, foram registrados mais de 500 ataques, segundo a Comissão de Resistência ao Muro e à Colonização.

Os palestinos da aldeia de Taybeh, que abriga cerca de 1.500 habitantes e está localizada a alguns quilômetros a nordeste de Jerusalém e Ramallah, afirmam que a violência dos colonos tornou-se praticamente insuportável. Pouco mais de um terço de Taybeh — incluindo a maior parte da área construída da aldeia — é classificado como Área B, uma categoria criada pelos Acordos de Oslo em que a Autoridade Palestina é responsável pela administração civil, enquanto Israel mantém oficialmente o controle da segurança. O restante das terras de Taybeh é classificado como Área C, onde Israel exerce oficialmente controle total sobre os assuntos civis e de segurança.

“Havia ataques antes, mas nada parecido com o que estamos vendo atualmente”, disse Kaabneh. “Nos últimos 15 dias, os colonos têm vindo duas ou três vezes por dia, de manhã e à noite. Eles realmente intensificaram a pressão sobre nós.”

“Eles querem nos expulsar à força”, acrescentou. “Se Deus quiser, continuaremos pacientes, e Deus nos dará forças para não abandonar este lugar e permanecer firmes aqui.”

As igrejas de Taybeh remontam ao século V. “Taybeh é uma aldeia palestina, independentemente de ser cristã ou muçulmana”, afirmou Abed, o sacerdote local. “O colono judeu não faz distinção — tudo o que ele vê é um palestino.”

Imagem da Virgem Maria em Taybeh (Foto: Al Jazeera)

Os colonos israelenses também têm atacado os olivais de Taybeh, uma das principais fontes de renda da aldeia. Diversos moradores disseram ao Drop Site que os colonos levam ovelhas e outros animais para pastar em suas terras, utilizam a água dos poços locais e também trazem camelos para mastigar o topo das oliveiras e destruí-las.

“Os camelos estão destruindo as árvores porque são animais muito altos e grandes. O topo das oliveiras foi completamente devastado… São oliveiras da época romana. É realmente de partir o coração”, disse Fouad Maadi, morador da aldeia. “Todos os aspectos da vida [foram afetados], tudo. O comércio acabou, a agricultura acabou, a criação de animais acabou.”

“É uma campanha de vingança contra nós, destinada a nos expulsar desta terra. Mas nós vamos ficar aqui”, acrescentou. “Não vamos embora, aconteça o que acontecer.”

* jornalista na Cisjordânia. A pesquisadora do Oriente Médio do Drop Site News, Jawa Ahmad, também colaborou. Reportagem realizada em Taybeh, Cisjordânia ocupada, para o Drop Site News. Publicada em 12/08/2026 no Drop Site.

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