Famílias se preparam para um quarto inverno de ventos, chuvas e inundações nos acampamentos de Gaza
O inverno que se aproxima em Gaza provavelmente provocará ainda mais devastação para os palestinos.
Yosra Mesleh enfrenta mais um inverno vivendo com sua família em situação de deslocamento, após sua casa na Cidade de Gaza ter sido destruída [Abdelhakim Abu Riash/Al Jazeera].
Por Maram Humaid*
Mohammed al-Jamal, de 60 anos, tenta prender as lonas de náilon da tenda desgastada de sua família enquanto uma tempestade se aproxima do acampamento de deslocados onde vivem, em uma praia no oeste da Cidade de Gaza.
Ele e seus filhos puxam a lona, tentando fixá-la firmemente ao chão para se protegerem da chuva e dos ventos vindos do mar.
Este será o quarto inverno que os palestinos deslocados em Gaza enfrentarão sem abrigo adequado. Muitos ainda vivem em tendas e estruturas improvisadas que oferecem pouca proteção contra o clima invernal que se aproxima, quando as temperaturas podem cair para 7 °C (abaixo de 45 °F), mas a sensação térmica pode ser muito menor devido aos fortes ventos costeiros e à chuva.
A família não tem condições de consertar a tenda danificada com uma lona de reposição, que custa entre 120 e 150 shekels (US$ 37 a US$ 47) nos mercados locais.
Tudo o que al-Jamal pode fazer é remendar o abrigo danificado e torcer para que ele resista à tempestade que se aproxima.
“Estamos tentando nos preparar o máximo possível para nos protegermos da água e do vento”, disse ele. “Acompanhamos as previsões meteorológicas e, sempre que há um alerta de tempestade, começamos a nos preparar. Mas, quando a tempestade chega, tudo é arrancado, e temos que começar tudo de novo. É um sofrimento contínuo durante todo o inverno.”
Deslocamento em massa
Al-Jamal, originário do bairro de Shujayea, na Cidade de Gaza, foi deslocado várias vezes desde que a guerra genocida de israel contra Gaza começou, em outubro de 2023.
Cerca de 30 integrantes de sua família extensa vivem nessas difíceis condições.
“Estamos apenas tentando nos adaptar ao que temos. É o que está disponível para nós. Precisamos de tudo”, disse ele.
Quando chove, a água entra na tenda e inunda o espaço onde vivem, ameaçando danificar seus poucos pertences.
Quando as temperaturas caem, as tendas oferecem pouca proteção aos deslocados, e al-Jamal e sua família não têm outra opção a não ser vestir mais camadas de roupa.
“Estamos ao ar livre. Estamos vivendo na rua, não em casas que nos protejam”, disse ele.
Al-Jamal afirmou ter ouvido repetidamente promessas de que materiais para abrigos e módulos habitacionais seriam autorizados a entrar em Gaza, mas nada havia chegado para sua família, e ele não tinha visto nenhum desses materiais entrar no território.
Ele descreveu esses anúncios como “falsas promessas e mentiras” que deixaram as famílias deslocadas esperando por uma ajuda que nunca chegou.
“Nossa exigência é ter nossas vidas de volta, como eram antes”, disse ele.
A guerra genocida de israel contra Gaza matou mais de 74.500 palestinos e destruiu ou danificou mais de 80% dos edifícios. Com as casas e a infraestrutura de Gaza destruídas, cerca de 1,5 milhão dos 2,3 milhões de habitantes do território vivem em tendas ou abrigos improvisados.
Muitos dos deslocados foram obrigados a se mudar de uma cidade para outra quando os ataques israelenses começam contra suas casas ou acampamentos.
Pelo menos 294.250 famílias em Gaza precisam de assistência para obter abrigo durante o inverno, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). No entanto, com os suprimentos disponíveis atualmente, apenas 52 mil famílias, aproximadamente 18% das que necessitam de ajuda, têm acesso a assistência humanitária parcial.
Mais de 65% das famílias deslocadas viviam em tendas ou abrigos improvisados, segundo uma pesquisa do Grupo de Coordenação de Abrigos (Shelter Cluster), sendo que mais da metade dessas estruturas estava em condições precárias ou muito precárias.
O cerco de israel a Gaza também afetou o abastecimento que chega ao território. Em 5 de outubro, o Conselho Norueguês para Refugiados (NRC) informou que pelo menos 500 carregamentos de caminhão com materiais para abrigos aguardavam autorização para entrar ou ser adquiridos.
No ritmo atual, afirmou o NRC, poderia levar mais de sete meses para que esses suprimentos entrassem em Gaza. Os materiais incluem tendas, lonas, cordas e outros itens necessários para consertar os abrigos.
O inverno está próximo
Para as famílias que já vivem em tendas rasgadas, a escassez deixa poucas alternativas além de consertar repetidamente os mesmos abrigos.
Khitam Salman, de 39 anos, originária de Beit Lahiya, no norte de Gaza, foi deslocada várias vezes nos últimos dois anos.
Agora vivendo perto da praia, ela tenta se preparar para o inverno com tendas que já sofreram danos repetidas vezes.
“Sempre que há uma tempestade, colocamos as lonas e as amarramos, apenas para ter que fazer tudo de novo”, disse ela. “A cada sistema de baixa pressão, é a mesma coisa.”
Khitam contou que uma das tendas da família desabou quatro vezes enquanto eles dormiam lá dentro. A estrutura ficou rasgada, permitindo a entrada de areia e oferecendo pouca proteção contra a chuva e o vento.
Ela está tentando cobrir as tendas da família e o espaço onde guardam seus pertences, mas os custos estão além de suas possibilidades.
“Precisamos de uma lona para esta tenda, outra para a outra e mais uma para o cômodo onde guardamos nossos pertences”, disse ela. “Mas não temos condições. Fizemos o que podíamos.”
Seu marido trabalha no setor da saúde, mas, segundo ela, recebe o salário apenas uma vez a cada três meses, e o valor não é suficiente para cobrir as necessidades da família.
“As tendas já não são adequadas para se viver”, disse ela. “Estão rasgadas, e a areia entra. É exaustivo.”
No inverno passado, depois que a tenda desabou e seus pertences ficaram encharcados, Salman contou que ficou tão desesperada que se afastou e passou horas sentada à beira-mar.
“Eu estava muito frustrada”, recordou. “A tenda tinha desabado, tudo estava inundado e todos os nossos pertences estavam molhados.”
“Estou preocupada com este inverno… com a possibilidade de todo esse pesadelo se repetir mais uma vez.”
As estradas danificadas e os sistemas de drenagem e esgoto comprometidos também aumentam o risco de a água da chuva se misturar às águas residuais e inundar os acampamentos.
Husni Muhanna, porta-voz da Prefeitura de Gaza, afirmou que mais de 85% da infraestrutura da cidade havia sido danificada e que o sistema de drenagem de águas pluviais operava com cerca de 20% de sua capacidade anterior.
Os escombros, as redes de drenagem danificadas e a escassez de maquinário pesado, combustível e materiais de manutenção estão dificultando os preparativos para o inverno, disse Muhanna.
A prefeitura iniciou trabalhos emergenciais de limpeza e manutenção, mas seus esforços continuam limitados pela falta de recursos.
Riscos de inundação para além das tendas
Yosra Mesleh, de 45 anos, foi deslocada de sua casa no bairro de Nassr, na Cidade de Gaza, quando sua residência foi destruída. Agora, ela está se preparando para seu segundo inverno vivendo em uma tenda.
Preparar-se para o inverno significa pensar no que fazer quando a água entrar nas tendas e encharcar as roupas de cama e os pertences. Quando isso acontece, muitas vezes não há nenhum lugar seco onde possam se sentar, cozinhar ou comer.
“Quando choveu no inverno passado, a água entrou e chegou até as roupas de cama. Tudo ficou molhado”, disse ela. “Foi difícil encontrar um lugar para sentar enquanto esperávamos que tudo secasse.”
No verão, o calor e a umidade dentro da tenda eram insuportáveis, afirmou, enquanto a escassez de água agravava ainda mais suas péssimas condições de vida.
“O lugar onde estamos vivendo não é saudável nem seguro. Não é adequado para o verão nem para o inverno”, disse ela.
Seu marido está desempregado desde o início da guerra, enquanto seu filho enfrenta dificuldades para cobrir as próprias despesas.
“Precisamos de tendas e lonas. Precisamos de utensílios de cozinha e de um lugar adequado para preparar os alimentos. Também precisamos de um fornecimento regular de gás”, disse ela.
Sem gás de cozinha, ela teme não saber como a família preparará as refeições quando a chuva os mantiver dentro da tenda.
Ela se lembra da vida antes da guerra, quando as coisas eram difíceis, mas eles tinham um apartamento e seu marido administrava uma loja de chá e café. Desde então, perderam a casa e sua única fonte de renda.
“Não estamos pedindo prédios altos nem nada extravagante”, disse ela. “Estamos pedindo lonas e tendas, uma vida digna.”
* Correspondente digital da Al Jazeera English em Gaza. Reportagem publicada na Al Jazeera em 28/10/2026.
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