Independentemente dos resultados eleitorais, as duas décadas de Netanyahu no poder incriminam todo o ‘israel’
A agressividade de Netanyahu não foi apenas a estratégia de um homem, mas um projeto viabilizado pelo establishment político de "israel" e pelo apoio de todos os sionistas.
Por Samuel Geddes*
Os extremistas judeus que controlam “israel” já não fazem grandes esforços para esconder suas intenções de construir um “Terceiro Templo” no lugar da Mesquita de Al-Aqsa e do Domo da Rocha. Caso conseguissem fazê-lo, um dos rituais que supostamente reviveriam envolveria a transferência ritual dos pecados coletivos dos israelitas para dois bodes — um seria sacrificado e o outro, lançado ao deserto. Esse rito é a origem do termo “bode expiatório” — fazer outra pessoa arcar com as consequências dos atos alheios.
Às vésperas das eleições gerais de “israel”, nesta semana de 2026, uma versão mais abstrata dessa prática está sendo posta em marcha, na expectativa, correta ou não, de que os quase vinte anos de Benjamin Netanyahu como primeiro-ministro estejam prestes a chegar ao fim.
Segundo figuras como o ex-primeiro-ministro Ehud Olmert, a responsabilidade pelas atrocidades cometidas pelo regime israelense recai sobre Netanyahu, Smotrich e Ben-Gvir, cuja hipotética saída do poder permitiria que “israel” voltasse a ser uma entidade “normal”, como se as duas últimas décadas tivessem sido apenas uma aberração.
Se acreditarmos nesse raciocínio, a reputação de “israel” poderá, em alguma medida, ser “reiniciada” por um novo governo, caso a carreira de Netanyahu chegue ao fim nas próximas semanas.
Essa tentativa de atribuir ao primeiro-ministro a responsabilidade pelos horrores dos últimos três anos, contudo, perde imediatamente a credibilidade quando se constata que foram justamente a promoção de suas agressões regionais e a execução de atrocidades que salvaram repetidamente seu governo até agora.
É uma verdade consagrada da política israelense que os governos quase nunca chegam ao fim de seus mandatos regulares. A regra predominante é que rupturas nas coalizões ou escândalos internos provoquem o colapso dos governos muito antes do término previsto de seus mandatos, de modo que a maioria das eleições ocorre “antecipadamente”.
De alguma forma, o mandato do governo de saída de Netanyahu conseguiu escapar dessa regra, assim como o primeiro-ministro costuma conseguir escapar das exigências legais às quais, teoricamente, até ele está sujeito.
Desde a operação de 7 de outubro de 2023, o governo de coalizão do primeiro-ministro tem estado “à beira” do colapso, e sua sobrevivência foi garantida apenas por seus parceiros de coalizão: os partidos ultraortodoxos e os partidos extremistas dos colonos judeus de Smotrich e Ben-Gvir.
Há muito tempo está estabelecido, para qualquer pessoa que preste o mínimo de atenção, que a configuração e a sequência das agressões regionais cada vez mais intensas de “israel” — da destruição de Gaza aos dois ataques contra o Irã — foram parte da estratégia cínica de Netanyahu para impedir o colapso de seu governo, adiar a prestação de contas pública por suas falhas de segurança e postergar a retomada de seus vários julgamentos por corrupção.
Cada nova frente que ele abriu, do Líbano à Síria, passando pelo Iêmen e retornando a Gaza, teve como objetivo fazer o tempo passar o máximo possível até 27 de outubro de 2026, a última data prevista em que uma eleição poderia ser realizada legalmente.
A frenética escalada de Netanyahu pela região, incluindo sua ação de aprisionar o mundo em uma crise econômica existencial, não foi obra apenas dele, mas foi viabilizada por toda a classe política israelense, apesar de ela estar plenamente ciente da profundidade do cinismo que orienta as ações do primeiro-ministro. A verdade condenatória sobre como isso pôde acontecer é que essas são guerras que a sociedade israelense apoia de forma esmagadora.
Apesar das tentativas dos ideólogos do “sionismo liberal” de fabricar uma distinção entre Netanyahu e o público israelense — que, em sua esmagadora maioria, apoia o genocídio na Faixa de Gaza e a expulsão forçada da população palestina —, a proporção dos que acreditam que foi empregada “força excessiva” nunca ultrapassou um dígito percentual.
Sempre que o primeiro-ministro decidiu reabrir uma frente de conflito, particularmente contra o Hezbollah, no Líbano, e contra o Irã, ele sabotou furiosamente os esforços para conter a situação por meio de um cessar-fogo — apesar de seus próprios fracassos —, precisamente porque o público israelense apoia de forma esmagadora uma agressão contínua e máxima contra todos os adversários, independentemente dos custos para o próprio projeto colonial dos colonos.
Se a oposição popular israelense às ações do regime fosse uma realidade, esse governo já teria caído há muito tempo, e o reinado de caos do primeiro-ministro teria chegado ao fim. O próprio fato de o mundo estar prendendo a respiração, à espera de que Netanyahu reacenda a guerra contra o Irã para perturbar ou adiar as eleições, demonstra que esses atos são seus trunfos eleitorais junto ao eleitor israelense médio. Ele sequer estaria cogitando qualquer uma dessas medidas, muito menos teria passado os últimos três anos colocando-as em prática, se não estivesse absolutamente seguro de contar com um apoio popular quase unânime às suas ações.
O fato é simples: se vier a se confirmar que a era Netanyahu chegou ao fim, isso se deverá a nada mais do que uma ligeira maioria de israelenses que o odeia pessoalmente — por sua corrupção pessoal, sua desonestidade patológica e sua lealdade covarde a tudo, exceto aos próprios interesses.
Isso de forma alguma deve ser apresentado como uma absolvição da sociedade israelense — Netanyahu é uma pessoa historicamente fácil de odiar. Em vez disso, a pergunta pertinente seria: por que demorou tanto, ao custo de tamanha destruição e de tantas mortes, para que “israel” deixasse de recompensar as mentiras, as atrocidades e a corrupção de um homem como se fossem virtudes?
* Samuel Geddes é jornalista e analista político internacional. Artigo publicada no Al Mayadeen em 27/10/2026.
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