A polícia israelense está impondo um estado de terror nas aldeias beduínas do Negev

Palestinos estão sendo assassinados durante invasões policiais a suas casas, repetindo o cenário da Cisjordânia

14/01/2026

Ben Gvir com forças de segurança durante uma visita a Tarabin Al-Sana, em 31 de dezembro de 2025. (Dudu Greenspan/Flash90)

Por Oren Ziv*

Levou menos de duas semanas para o ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, e suas forças policiais transformarem uma tranquila aldeia beduína no sul de Israel em um campo de batalha sangrento.

Tarabin Al-Sana abriga cerca de 1.000 pessoas. Diferentemente de dezenas de outras aldeias beduínas no Neguev (Naqab), ela é oficialmente reconhecida pelo Estado. Nas eleições nacionais mais recentes, em 2022, mais da metade dos eleitores aptos da aldeia não votou; entre os que votaram, porém, quase 60% escolheram o Partido Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Ainda assim, isso não impediu o governo de tratá-los, como todos os palestinos, como inimigos do Estado.

A escalada começou com o registro do roubo de um cavalo de uma fazenda na comunidade judaica de Klahim, em 27 de dezembro. Policiais que chegaram no dia seguinte para realizar uma busca em Tarabin Al-Sana foram bloqueados por moradores e obrigados a recuar. Após essa “humilhação”, forças maiores foram mobilizadas. Mais tarde, segundo a polícia, moradores incendiaram veículos nas comunidades judaicas próximas de Giv’ot Bar e Mishmar Hanegev em protesto.

A operação policial em larga escala — que até agora incluiu nada menos que cinco visitas do próprio Ben Gvir à aldeia — começou imediatamente depois. Assim como na Cisjordânia, a lógica do Estado no Neguev se limita exclusivamente ao uso da força, à punição coletiva e a demonstrações cada vez mais ousadas de meshilut — palavra hebraica que significa “governança” e que se tornou um eufemismo para assédio e punição coletiva de cidadãos árabes.

Em conformidade com isso, Tarabin foi isolada por todos os lados. A polícia montou um posto de controle na entrada da aldeia — que incluía um posto de comando com bandeiras israelenses — para revistar todos os veículos que passavam, e bloqueou todas as outras saídas com barreiras de concreto. O abastecimento do mercado local foi interrompido, efetivamente colocando-o fora de funcionamento, e qualquer pessoa que quisesse entrar ou sair da aldeia era obrigada a enfrentar filas e passar por verificações humilhantes, incluindo ser fotografada.

Unidades regulares da polícia, junto com a Polícia de Fronteira militarizada e a Guarda Nacional (esta última criada em 2024 por Ben Gvir), passaram a patrulhar a aldeia, revistar casas, deter moradores e disparar gás lacrimogêneo. Representantes de órgãos governamentais, incluindo a companhia estatal de eletricidade e a autoridade tributária, também chegaram à aldeia como parte de uma operação mais ampla de fiscalização para identificar pessoas que não pagam impostos ou que se conectam ilegalmente à rede elétrica.

Em determinado momento, a polícia quase matou a tiros um jornalista beduíno que dirigia pela aldeia no exercício de seu trabalho. O disparo só foi evitado porque os agentes perceberam que outro jornalista, que eles reconheceram, estava sentado ao seu lado no carro.

Mas a polícia só conseguiu manter o dedo fora do gatilho por um tempo limitado. Na noite de 3 de janeiro, vários agentes entraram na casa de Mohammed Hussein Tarabin Al-Sana, um pai de seis filhos, de 35 anos, e atiraram nele no peito diante de sua esposa e de seus filhos.

Seu irmão, Ahmed, falou à revista +972 dois dias depois, dentro da tenda de luto, pouco antes do funeral. Ele descreveu ter chegado em casa por volta da meia-noite e visto policiais se aproximando da casa do irmão, que faz parte do mesmo complexo. “Eles chegaram silenciosamente, como unidades disfarçadas”, relatou. “Entreguei meu documento de identidade e eles me detiveram por 40 minutos. Me jogaram no chão, amarraram minhas mãos e vendaram meus olhos. Pelo que vi, estavam armados com armas com silenciador e tinham o rosto coberto. Depois ouvi gritos e choro.”

Hussein, filho de 11 anos de Mohammed, continuou o relato: “Eu estava dormindo e, de repente, ouvi alguém gritando. Meu pai se levantou, ainda meio adormecido, e eles imediatamente atiraram nele.” Segundo Hussein, os agentes algemaram seu pai enquanto ele agonizava sangrando no chão, vandalizaram a casa e depois colocaram seu pai em um carro e o levaram até a entrada da aldeia, onde ele foi declarado morto por equipes médicas.

‘A polícia criou essa situação’

A versão oficial da polícia alega que os agentes haviam ido revistar a casa em conexão com o incêndio de veículos em aldeias próximas e que, ao entrarem, Mohammed representou perigo para suas vidas. “Qualquer um que coloque em risco nossos policiais e soldados deve ser neutralizado — e é bom que isso tenha acontecido”, disse Ben Gvir após o incidente.

A família nega categoricamente essa versão. “Eles dizem que havia informações de inteligência [relativas a Mohammed], e que foi com base nisso que agiram”, afirmou Ahmed. “Mas meu irmão é um homem mais velho, tem filhos, trabalha como encanador. O que ele tem a ver com jovens atirando pedras ou com incêndios criminosos?

Ahmed, irmão do falecido Mohammed Hussein Tarabin Al-Sana, falando dentro da tenda de luto na aldeia beduína de Tarabin Al-Sana, em 5 de janeiro de 2026. (Oren Ziv)

“Eles vieram para que Ben Gvir pudesse dizer que fizeram um bom trabalho”, continuou Ahmed. “Há uma semana eles vêm disparando gás lacrimogêneo todas as noites. Qualquer um que sai à rua é espancado e multado. A polícia é quem criou essa situação.”

Convenientemente, os agentes que entraram na casa não estavam usando câmeras corporais, o que torna impossível verificar a alegação de que enfrentaram “perigo de vida”, mas outro policial que permaneceu do lado de fora estava usando uma. Mesmo que estivessem em perigo, disse Ahmed, “eles poderiam ter atirado na perna”. (O advogado do policial que disparou argumentou que ele agiu “de forma profissional” e que o contexto de inteligência — segundo o qual o suspeito era perigoso e estava armado — deve ser considerado ao avaliar suas ações.)

Mas, para moradores, ativistas locais e jornalistas que cobrem a operação policial, estava claro que um desfecho letal era apenas uma questão de tempo, dado o nível de incitação promovido por Ben Gvir e por altos oficiais da polícia — e considerando que a operação não tinha objetivos definidos além de afirmar domínio e se vingar dos moradores, não alcançando nenhum outro resultado.

Depois que as forças invasoras não encontraram sequer uma arma — fato que o próprio Ben Gvir admitiu —, passaram a se concentrar principalmente em assediar os moradores. O cavalo roubado, que serviu de pretexto inicial para a incursão policial em Tarabin Al-Sana, acabou sendo encontrado em outra aldeia beduína (segundo Ahmed, em Lakiya, a cerca de 10 quilômetros de distância).

O incidente lembra o assassinato, pela polícia, de Yaqub Abu Al-Qi’an, na aldeia beduína vizinha de Umm Al-Hiran, em 2017. Apesar das circunstâncias diferentes, em ambos os casos a polícia tentou encobrir o crime alegando que a vítima era um terrorista. E, em ambos, a polícia atrasou significativamente a chegada de uma ambulância para socorrer a vítima.

O funeral de Mohammed Hussein Tarabin Al-Sana, na aldeia beduína de Tarabin Al-Sana, em 5 de janeiro de 2026. (Oren Ziv)

Em uma rotatória na entrada da aldeia, moradores reuniram cartuchos de gás lacrimogêneo, granadas de efeito moral e sinalizadores — testemunho de como a polícia transformou a aldeia em uma verdadeira zona de guerra ativa.

Amir Al-Sana, de 42 anos, descreveu as cenas diárias nos dias que antecederam o assassinato. “Eles quebraram tudo — janelas, portas, [tudo foi] vandalizado. Eu mesmo fui espancado enquanto estava sentado com meu avô ao redor do fogo no shiq [a tenda de hospitalidade da família], sem motivo algum, apenas para mostrar quem tem poder. Eles detiveram crianças, incluindo meus sobrinhos de 8 e 11 anos. Eu disse: ‘Mas são apenas crianças pequenas’, e um policial respondeu: ‘Mesmo que ele tenha 2 anos, eu o detenho, e a mãe e o pai também’.”

“A polícia não tem objetivo algum; está cumprindo as ordens de Ben Gvir”, continuou Amir. “Esses não são policiais, mas criminosos, gangues. Eles passam pela aldeia, lançam granadas de efeito moral, disparam gás lacrimogêneo e seguem em frente. Não há confrontos [com moradores reagindo]. Este é um governo fascista — Ben Gvir é um criminoso e um incitador.”

‘Eles transformaram a aldeia na Cisjordânia’

Dois dias antes do assassinato em Tarabin Al-Sana, ativistas e moradores de outra aldeia beduína próxima, Bir Hadaj, realizaram um protesto contra a morte de seis jovens moradores nos últimos anos por soldados, policiais e civis israelenses. A vítima mais recente, Ayoub Mohammed Al-Toukhy, foi morta a tiros no fim de dezembro por um civil que viajava com um soldado perto da fronteira com o Egito. Alegou-se que o falecido e seu primo estavam envolvidos em contrabando, mas o primo foi libertado depois que nenhuma prova foi encontrada.

“Os assassinatos são resultado da incitação de ministros como Ben Gvir”, disse à +972 Salem Abu Assa, morador de Bir Hadaj. “O jovem que foi morto tinha simplesmente dirigido até um posto de gasolina para tomar um café e, quando saiu, um carro o seguiu e atirou nele. O atirador foi preso, mas depois solto.”

Outro jovem beduíno, Jumaa Danfiri, de 18 anos, da aldeia não reconhecida de Wadi Al-Na’am, foi morto a tiros em 2024 após escalar a cerca que circunda a comunidade judaica de Retamim. Amigos e familiares dizem que ele foi “executado” com três tiros nas costas, rejeitando a versão dos seguranças da comunidade de que Danfiri teria tentado atacá-los com uma faca (seu pai afirma, em vez disso, que outros jovens o teriam convencido a invadir a comunidade para cometer um furto).

Policiais montados são vistos em Tarabin Al-Sana diante de blocos de concreto que selam uma entrada da aldeia, em 5 de janeiro de 2026. (Oren Ziv)

Quanto a saber se o assassinato mais recente satisfará o desejo de vingança de Ben Gvir e do restante do governo israelense, a resposta parece ser não. Em 7 de janeiro, Netanyahu viajou ao Neguev para uma avaliação de situação com os chefes das forças de segurança, prometendo que sua visita seria “a primeira de muitas”.

Em um pronunciamento em vídeo, ladeado por Ben Gvir e pelo ministro da Defesa, Israel Katz, Netanyahu declarou: “Estamos devolvendo o Neguev ao Estado de Israel. Isso significa assentamento [judaico] em uma escala nunca antes conhecida e a regulamentação da população beduína — mas, acima de tudo, significa restaurar a lei e a ordem. O Neguev está fora de controle. Vamos contê-lo.”

“Não sei o que vai acontecer”, disse Ahmed, o irmão da vítima em Tarabin Al-Sana. “Eles transformaram a aldeia na Cisjordânia. Não podemos fazer nada. Se não houvesse testemunhas, nem sequer existiria uma versão alternativa à história do policial. Tenho medo do futuro das crianças — elas precisam de terapia para sair desse pesadelo. Querem saber o que aconteceu, por que ele foi baleado apenas por abrir a porta. Elas vão crescer com isso.”

As autoridades israelenses levaram o corpo de Mohammed para autópsia e o devolveram à família na segunda-feira. O funeral ocorreu no mesmo dia. A polícia abriu o posto de controle na entrada da aldeia por algumas horas, mas forças significativas permaneceram na área e um helicóptero acompanhou o cortejo fúnebre da mesquita até o cemitério. Após o funeral, a polícia restabeleceu as verificações no posto de controle da entrada, e agentes a cavalo e em veículos fora de estrada patrulharam a aldeia, nas proximidades da tenda de luto.

Munther, porta-voz da tribo local, disse após o funeral: “Desde o início, alertamos que uma tragédia iria acontecer. Procuramos todas as autoridades relevantes, mas, no fim, esse assassinato ocorreu. Nenhuma arma foi apreendida aqui; não há nada a procurar. Isso é punição coletiva.

“Somos cidadãos do Estado de Israel, cidadãos em todos os sentidos, com direito a tudo como qualquer cidadão israelense”, continuou. “Vejo postos de controle e barreiras de concreto quando dirijo em direção a Hebron e Kiryat Arba, e agora estamos vendo isso dentro do Estado de Israel e direcionado a cidadãos israelenses. Não sei aonde Ben Gvir quer levar isso.”

Em comunicado à +972, a Polícia de Israel afirmou que “continua realizando uma atividade operacional extensa, proativa e determinada para aumentar a segurança e a governança, manter a ordem pública e fortalecer a sensação de segurança, juntamente com a aplicação do Estado de Direito, na aldeia de Tarabin. Continuaremos a agir para fortalecer a governança e proteger todos os cidadãos cumpridores da lei.”

* Oren Ziv é fotojornalista, repórter do Local Call e membro fundador do coletivo de fotografia Activestills. Reportagem publicada no Local Call e na +972 Magazine em 09/01/2026.

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