“A terra é sagrada. O genocídio continua. Quem trará justiça aos nossos mártires?”

Declaração do Instituto Palestino de Estratégia Climática sobre a retomada do genocídio em Gaza

30/03/2025

Em meio à destruição deixada pelo ataque israelense, a bandeira palestina resiste, erguida sobre os escombros de Rafah, no sul de Gaza. [Hatem Khaled/Reuters]

A Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) reproduz abaixo a declaração oficial do Instituto Palestino de Estratégia Climática (PICS, na sigla em inglês) sobre a retomada do genocídio em Gaza, em virtude do Dia da Terra Palestina, neste 30 de março.

O PICS é uma organização independente dedicada a promover “resiliência climática e justiça ambiental na Palestina”, segundo suas palavras. Enraizado na sabedoria do povo palestino e nos seus valores culturais, o PICS “promove engajamento local enquanto constrói coalizões centradas no Sul Global para defender a justiça climática e os direitos humanos”. Por meio de “pesquisa inovadora, mobilização e advocacia política, o PICS capacita comunidades a manter seu vínculo com a terra, resistir à opressão e promover uma transição justa para um futuro liberto e sustentável”.

A declaração do PICS tem a Fepal como uma de suas co-signatárias. O PICS disponibiliza a sua carta aberta para que outras organizações de solidariedade com a Palestina também possam assinar em apoio.

Leia a declaração na íntegra:

A terra palestina sempre foi considerada sagrada.

Ela está enraizada em nossa fé, em nossas colheitas e em nossa memória coletiva. Guarda os ossos de nossos ancestrais, o suor de nossos agricultores e as esperanças das gerações que ainda virão. A terra é vida. Mas hoje, essa terra está sendo devastada — não apenas por bombas, mas por um sistema colonial que busca nos eliminar por completo.

Neste Dia da Terra Palestina, estamos mais uma vez diante do horror do genocídio. Em 18 de março, Israel retomou seu ataque militar a Gaza, matando mais de 500 palestinos em poucos dias. Desde outubro de 2023, mais de 62.614 palestinos foram assassinados. Milhares continuam desaparecidos sob os escombros. Essa é a definição clássica de extermínio sistemático e genocídio, e não há como negar.

As forças israelenses retomaram Gaza, ocupando o corredor de Netzarim para dividir o território ao meio. Essa fragmentação visa desmantelar a vida, desmantelar a governança e desmantelar Gaza. O objetivo de Israel é transformar uma pátria em uma prisão inabitável, reescrevendo e apagando o mapa da Palestina.

Esse novo ataque ocorre após Israel violar o cessar-fogo, bloquear ajuda humanitária e se recusar a qualquer avanço rumo a um futuro em que os palestinos governem sua própria terra. Enquanto os palestinos cumpriram sua parte no cessar-fogo, Israel escalou a violência. Bombardeou. Sitiou. Negou qualquer possibilidade de reconstrução, muito menos de justiça. Muitos são cúmplices por não garantir justiça.

Um cerco planejado. A logística do colapso.

Desde 2 de março, nenhuma ajuda humanitária entrou em Gaza. Mais de 1.535 caminhões estão parados no Egito, e 311.000 pallets de ajuda estão retidos na região. Os postos de fronteira de Gaza estão fechados. Seus centros de armazenamento estão em novas zonas de evacuação. Sua infraestrutura está sendo metodicamente desmantelada.

Isso não é apenas uma falha de coordenação, mas uma logística de extermínio. É uma política deliberada para matar de fome e sufocar a população. Gaza está sendo privada de comida, combustível, água, suprimentos médicos e até mesmo dos meios para enterrar seus mortos. O que acontece em Gaza não é separado do projeto colonial de Israel — que vai além de Gaza —, mas é o cerne dele. É uma aceleração do “genocídio incremental” no coração da colônia.

Por décadas, Israel militarizou a terra — destruindo pomares, envenenando poços e arrancando os ecossistemas que os palestinos cultivaram por gerações. Constrói sobre ruínas, planta árvores estrangeiras onde antes havia oliveiras e chama isso de “desenvolvimento”. Mas não há nada verde na ocupação.

O que acontece em Gaza é ecocídio. Uma destruição sistemática da terra, da água e do ar para tornar a vida palestina impossível. É realizado com bombas, bloqueios e tratores — sempre sob o falso pretexto de “segurança” ou “defesa”. É parte de um plano politicamente arquitetado, um padrão que se repete desde antes de 1948. A destruição da base ecológica da existência sempre foi uma ferramenta tática para opressão sistêmica e expropriação.

E o mundo assiste. Enquanto as temperaturas sobem e os desastres se multiplicam, uma “transição justa” não se materializa em Gaza. Os mesmos governos que negam financiamento climático ao Sul Global estão alimentando o fogo na Palestina, fornecendo armas, combustível ou legitimidade política.

Uma transição que ignora o genocídio não é justa.
Soluções climáticas em terras roubadas não são ação climática.
O silêncio não é neutralidade — é cumplicidade.

Países que se dizem moralmente superiores — como os do Ocidente — lavam as mãos diante de seu papel em sustentar uma ordem global violenta e injusta. Os recentes cortes de ajuda externa nos EUA, Reino Unido, França, Alemanha, Suécia e outros reforçam a indiferença do Norte Global diante do sofrimento que causou por séculos de colonialismo. Líderes políticos continuam a mostrar desprezo pelos palestinos em declarações fracas que tratam nossas mortes como inevitáveis — ou pior, como justificadas.

Não há recuperação sem libertação.

Nenhuma resposta humanitária pode desfazer um genocídio e trazer de volta mais de 62.614 vidas. Nenhuma reconstrução pode florescer em Gaza após a destruição. Nenhuma transição justa pode ser construída sobre a ocupação. O problema começa com um sistema que se alimenta de opressão e expropriação, e a crise climática não será resolvida dentro de um império racializado, militarizado e movido a combustíveis fósseis.

Os palestinos não são recipientes passivos de ajuda. Não somos estatísticas. Somos sobreviventes, agricultores, construtores, mães, estudantes e organizadores. Estamos resistindo não apenas por nós mesmos, mas pelo mundo. Não há justiça — ecológica, social ou de qualquer tipo — sem libertação palestina.

Sempre soubemos que justiça não virá daqueles que lucram com nossa opressão. Que “desenvolvimento” sob colonialismo nada mais é do que o gerenciamento do sofrimento. E que libertação não é uma metáfora — é uma exigência.

Neste Dia da Terra, lembramos daqueles que perdemos. Homenageamos aqueles que ainda lutam. Chamamos nossos aliados à ação.

O silêncio é cumplicidade.
A neutralidade é violência.
A resistência é vida.

Chamamos:

Indivíduos:

Palestinos estão resistindo ao genocídio, mas não podemos fazer isso sozinhos. Pessoas em todo o mundo devem desmantelar as estruturas que permitem os crimes de Israel.

Boicote empresas cúmplices — desde fabricantes de armas até marcas que fazem greenwashing (lavagem verde). Pressione universidades, empregadores e bancos a desinvestir.

Rejeite a normalização em todas as formas — acadêmica, cultural, ambiental. Encerre parcerias com instituições israelenses que escondem o apartheid.

Exponha e interrompa: dê nome aos bois que lucram com o genocídio, desafie a propaganda sionista, especialmente em espaços climáticos e de justiça.

Organize-se localmente: promova debates, compartilhe recursos, mobilize-se por Gaza. Memória é resistência – documente, arquive e amplifique a verdade.

Escreva para a história: em tempos em que a história palestina está sendo apagada, registre não apenas crimes de guerra, mas também as histórias de luta das famílias em Gaza e além.

Permaneça consciente: não se acostume com os massacres. Responda aos pedidos de ajuda.

Movimentos da Sociedade Civil:

ONGs, coalizões climáticas e grupos humanitários não podem ser neutros. Se seu trabalho não prioriza a sobrevivência palestina, você sustenta o colonialismo.

Coloque a libertação palestina no centro de suas ações. Desmilitarização e retorno são justiça climática.

Recuse a normalização e rejeite qualquer financiamento ligado ao apartheid e ao greenwashing.

Enfrente a hipocrisia global: os mesmos governos que bloqueiam reparações climáticas ao Sul Global financiam bombas em Gaza.

Exija políticas concretas: restabeleça a ajuda a Gaza, pare as exportações de armas e responsabilize Israel em fóruns multilaterais.

Rejeite falsas soluções, como a geoengenharia solar, que Israel investe pesadamente, com consequências perigosas para os palestinos e o mundo.

Governos e Instituições:

Do roubo da água ao uso de tecnologia de vigilância, empresas fortalecem o apartheid para inviabilizar a vida na Palestina. Lucrar com o despojo não é neutralidade: é violência colonial.

Corte laços com empresas israelenses e instituições ligadas a colonos.

Restabeleça a ajuda a Gaza e garanta acesso humanitário incondicional.

Audite suas cadeias de suprimentos: retire-se de negócios ligados à ocupação, assentamentos ilegais ou militarização.

Pare o fluxo financeiro que permite deslocamento forçado e destruição ecológica.

Denuncie publicamente o genocídio e pressione por embargos de armas.

Confira a de declaração, em árabe e inglês, no site do Instituto Palestino de Estratégia Climática

 

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