As irmãs com deficiência cognitiva que estão à beira da fome em uma Gaza dizimada

Com medo e confusas, Aseel e Afaf vivem em uma tenda de deslocamento superlotada, sem qualquer forma de apoio – nem mesmo comida.

07/06/2025

Aseel e Afaf al-Eish sentam dentro da tenda da família no norte de Gaza. Vivendo com deficiências e doença celíaca, as irmãs enfrentam o deslocamento em um mundo que frequentemente ignora sua dor. [Noor Al-Halabi/Al Jazeera]

Por Asem Al Jerjawi*

Dentro de uma tenda sufocante em Shati, um dos campos de deslocamento superlotados de Gaza, Raneem Abu Al-Eish, de 30 anos, cuida de suas irmãs Aseel, 51, e Afaf, 33.

Elas se sentam perto de Raneem, rindo às vezes e, em outras, ficando agitadas quando os gritos das crianças brincando do lado de fora ficam altos demais.

Aseel e Afaf sofrem de doença celíaca e deficiências intelectuais que afetam sua fala, compreensão e comportamento – condições que só se agravaram com a guerra e o deslocamento.

Elas têm dificuldade para se expressar, frequentemente ficam sobrecarregadas com o ambiente, explica Raneem. Embora ela não saiba o termo médico exato para a condição delas, os sintomas às vezes se assemelham à síndrome de Tourette.

‘As pessoas riem, isso as devasta’

A tenda apertada abriga sete membros da família: Raneem, suas duas irmãs, os pais idosos e outra irmã com o marido.

A mãe de Raneem é frágil, e o pai ainda se recupera de um ferimento sofrido durante a guerra incessante de Israel contra Gaza, o que deixou Raneem com toda a responsabilidade dos cuidados familiares.

A família vivia no Bloco 2 do campo de Jabalia até que sua casa foi destruída por Israel, há oito meses. Desde então, passaram de casa em casa de parentes, depois para abrigos improvisados e, em seguida, para uma escola superlotada das Nações Unidas.

Agora estão nesta tenda, que prende o calor sufocante ao meio-dia e permite que o frio cortante penetre suas finas paredes à noite.

Privacidade e dignidade são quase impossíveis dentro da tenda lotada. “Quando elas precisam se trocar, tentamos pedir para os outros saírem”, diz Raneem. “Mas nem sempre é possível.”

No entanto, isso é apenas parte do sofrimento de Aseel e Afaf, que sofrem bullying diariamente devido às suas condições.

“As pessoas não entendem o que minhas irmãs enfrentam”, diz Raneem suavemente. “Elas julgam pela aparência, assumem que estão bem. Mas não estão. Elas precisam de cuidado, paciência, dignidade.”

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A vida no campo sobrecarrega Aseel. “Ela tem dificuldade para lidar com barulhos ou mudanças repentinas”, explica Raneem. “Quando isso acontece, ela se angustia – grita, chora, às vezes se agita.”

Afaf, por sua vez, sofre com movimentos involuntários e comportamentos impulsivos. “Uma pequena discussão ou um grito já é o suficiente para desencadeá-la”, acrescenta Raneem.

“Ela não sabe como controlar isso”, diz ela, o que torna ainda mais triste o fato de Afaf ser frequentemente alvo de zombarias, especialmente por parte das crianças.

O uso dos banheiros comunitários é uma fonte constante de humilhação. “Cada ida ao banheiro vira um espetáculo. As pessoas riem, fazem comentários cruéis, e isso as devasta”, diz Raneem.

Aseel al-Eish rega uma pequena planta dentro da tenda apertada da família no norte de Gaza. [Noor Al-Halabi/Al Jazeera]

Israel levou seu protetor

O maior golpe para a família ocorreu há seis meses, quando Mohammad, o irmão de Raneem, de 22 anos, foi levado por Israel.

Mohammad havia ido ao Hospital Kamal Adwan para uma cirurgia após ferir a mão. Enquanto estava lá, Israel invadiu o hospital em 25 de outubro e o levou. Desde então, a família não sabe nada sobre seu paradeiro.

Mohammad era o irmão mais habilidoso para lidar com o mundo exterior. “Ele buscava os remédios delas, agendava consultas no hospital, tratava com agências de ajuda”, explica Raneem. “Sem ele, estamos completamente sozinhas.”

Desde sua detenção, as irmãs enfrentam uma escassez crescente de alimentos e a falta de cuidados médicos. “Ele era o protetor delas”, diz Raneem, com a voz embargada. “Agora não temos ninguém.”

Entre março e maio, os bombardeios intensificados deslocaram novamente 436 mil palestinos – muitos pela segunda, terceira ou quarta vez desde o início da guerra, em outubro de 2023. Para famílias como a de Raneem – já vivendo em tendas ou abrigos – cada nova onda de violência significa recomeçar, muitas vezes sem comida ou remédios.

Para Aseel e Afaf, até a nutrição básica representa uma ameaça. Pessoas com doença celíaca não podem consumir glúten, que danifica seus intestinos delgados.

Em uma Gaza faminta, onde há pouco para comer além de pão feito com farinha de trigo – que contém glúten – Raneem dificilmente consegue encontrar vegetais ou carne para as irmãs, especialmente com Mohammad detido.

Sem farinha sem glúten, Aseel e Afaf correm o risco de sofrer de desnutrição severa, e receberam uma quantidade irrisória das 80 toneladas de farinha sem glúten que as agências humanitárias entregaram até agora em Gaza.

Grande parte foi bloqueada por fronteiras fechadas, estradas danificadas e sistemas de distribuição quebrados. “O pouco que chega até nós é caro demais ou chega tarde demais”, diz Raneem.

Suplicando por empatia, repetidamente

Antes da guerra, Aseel e Afaf recebiam cuidados médicos regulares no Hospital Kamal Adwan.

As condições delas exigem dietas especiais, medicamentos e terapia constante – necessidades que agora são quase impossíveis de atender.

A especialista em psicologia Dra. Sara al-Wahidi afirma que a guerra agravou severamente a marginalização das pessoas com deficiência em Gaza.

“Vimos pessoas com deficiência sendo separadas [de suas famílias] nas áreas de deslocamento – algumas ficaram desaparecidas por longos períodos e, tristemente, depois foram encontradas mortas”, explica ela.

Um relatório de 2025 estima que pelo menos 15% da população deslocada de Gaza vive com alguma deficiência, e elas precisam lidar com abrigos improvisados – em acampamentos, escolas ou hospitais – que carecem de rampas funcionais, banheiros adaptados e acessibilidade básica.

Raneem também enfrenta o estigma social e, apesar de seus esforços – conversar com vizinhos, buscar apoio de líderes comunitários – a ignorância persiste.

“As pessoas provocam, zombam delas. Tudo que pedimos é compreensão”, diz ela.

Alguns anciãos, ocasionalmente, convidam as irmãs para visitar suas tendas – breves momentos de alívio em uma realidade diária onde não há nenhum apoio médico ou social consistente.

“Fomos deslocadas repetidamente, de Jabalia para o oeste, depois para a Cidade de Gaza”, relata Raneem. “Em cada novo lugar, temos que recomeçar, explicar a condição delas, suplicar por paciência.

“Elas não são apenas vítimas da guerra”, ela suplica.

“São pessoas vulneráveis esquecidas pelo mundo.”

* Direto do Campo de refugiados de Shati, Gaza. Reportagem publicada em 03/06/2025 pela Al Jazeera sob o título “‘Forgotten by the world’: Disability deepens sisters’ struggle in Gaza”.

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