Como “israel” transforma o inverno em uma arma em Gaza

O bloqueio e a guerra de "israel" em Gaza tornaram o inverno letal, enquanto crianças congelam em tendas e casas desabam sob chuvas intensas

06/01/2026

Centenas de milhares de gazenses vivem agora em tendas frágeis, que não são impermeáveis nem capazes de resistir aos ventos, escrevem Said Alsaloul e Ohood Nassar. [Foto: GETTY]

Por Said Alsaloul e Ohood Nassar*

Em 12 de dezembro de 2025, quando uma forte tempestade atingiu Gaza, três crianças perderam a vida por causa do frio. Rahaf Abu Jazar tinha oito meses, Hadeel Hamdan tinha nove, e Taim Al-Khawaja era um bebê. Elas não morreram por bombas ou balas, mas pela dureza do inverno.

Embora a máquina de guerra de Israel tenha arrefecido, as consequências dos últimos dois anos de ataques incessantes deixaram a infraestrutura de Gaza devastada, agravando todos os aspectos da vida e criando novas ameaças silenciosas.

As crianças que morreram estavam deslocadas depois que sua casa foi bombardeada e viviam em tendas. Mas essas tendas não retêm calor; não importa o que se faça, o frio se infiltra, deixando pequenos lábios azulados durante a noite. Também não há aquecedores a gás ou elétricos para amenizar as baixas temperaturas.

Centenas de milhares de habitantes de Gaza vivem agora em tendas frágeis, que não são impermeáveis nem capazes de resistir aos ventos. Enquanto isso, outros, sem ter para onde ir, buscaram refúgio em casas meio destruídas.

Suas mortes não são tragédias isoladas causadas pelo clima. São o resultado direto e previsível de um desastre provocado pelo homem, no qual todo desafio natural se transforma em um evento letal.

Dois anos de guerra deixaram a infraestrutura de Gaza — casas, hospitais, eletricidade, redes de água e saneamento — devastada. Segundo estimativas da ONU, mais de 60% de todas as casas em Gaza foram danificadas ou destruídas. Além disso, em meio ao frágil cessar-fogo que interrompeu os bombardeios, nada foi feito para suspender o bloqueio que impede a reconstrução.

Diante de tudo isso, e com a temporada de chuvas sobre nós, parece que uma onda de choque cruel varreu uma população já à beira do colapso.

Nada de acidentes naturais

A tempestade causou medo até mesmo entre moradores que viviam em casas de cimento, cujas paredes, já rachadas e enfraquecidas por dois anos de conflito incessante, ameaçavam desabar a qualquer momento. Dezenas dessas casas danificadas ruíram, ceifando a vida de moradores que acreditavam que suas casas seriam mais seguras e quentes do que as tendas.

Especialistas enfatizaram que não se trata de acidentes naturais, mas de consequências tardias do bombardeio prolongado que Gaza sofreu. E a recente tempestade de chuva atuou como o gatilho final e fatal para essas estruturas comprometidas.

Tanto o frio rigoroso quanto os desabamentos tiraram a vida de 14 pessoas em apenas 72 horas no mês passado.

Entre as vítimas estavam cinco membros da família Badran, cuja casa desabou sobre eles na área de Bir al-Naja, em Beit Lahia, no norte de Gaza. Vários membros da família Nassar, na Cidade de Gaza, também ficaram feridos em incidentes semelhantes.

Uma maldição

As chuvas intensas que também acompanham o inverno causaram grande caos. Em algumas áreas, poucos segundos de chuva forte foram suficientes para elevar o nível da água em metros. Pessoas ficaram inundadas em seus abrigos, completamente indefesas.

A rede de saneamento e a infraestrutura hídrica obliteradas pelos ataques de Israel ao longo de mais de dois anos agravaram seriamente o problema, ao não deixar nenhum sistema de drenagem funcional para escoar as águas da enchente. Desde o início da guerra, a infraestrutura de água foi sistematicamente alvo de ataques. Poços, tubulações e usinas de dessalinização estão em ruínas.

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Em novembro, o Hospital da Sociedade Beneficente Amigos do Paciente (PFBS), na Cidade de Gaza, foi inundado devido às fortes chuvas e à infraestrutura danificada. Toda a ala infantil foi afetada. Autoridades da defesa civil afirmaram que não conseguiram prestar assistência devido à falta de equipamentos e ao bloqueio israelense.

A água da chuva também inundou o Hospital Infantil Al-Rantisi e o Hospital Especializado do Kuwait, em Khan Younis. Locais destinados à cura de pacientes transformaram-se em um campo de batalha contra a natureza para as equipes de saúde.

Este é o novo e brutal inverno em Gaza. A bênção da chuva foi transformada em maldição. Como se pode esperar que aqueles que vivem em tendas frágeis consigam suportar isso?

Um cessar-fogo sem misericórdia

Para nós, gazenses, este cessar-fogo nos ensinou que, embora a sobrevivência agora seja possível, a recuperação não é.

O bloqueio contínuo piorou a situação para nós. Não há um único bloco de concreto para erguer uma parede, nem um saco de cimento para unir os blocos. Caminhões de areia e brita estão proibidos de entrar em Gaza há mais de dois anos.

Apesar de mais de dois meses de vigência do cessar-fogo, Israel ainda se recusa a permitir a entrada de materiais de construção e veículos pesados para a reconstrução.

O plano apoiado pelos EUA declarou que este período veria uma segunda fase de reconstrução, mas tais promessas foram paralisadas, e o povo continua a sofrer como consequência.

Milhões ainda estão deslocados, muitos em tendas à espera da reconstrução de suas casas — sem escolas, sem universidades, sem moradias, sem gás, sem eletricidade e com uma infraestrutura hídrica comprometida. Qualquer esperança fugaz de recuperação é esmagada por essa realidade política.

O inverno já foi a estação de reuniões familiares, em torno do fogo, assando castanhas e aquecendo as mãos. Mas isso não acontece para os gazenses desde a guerra de Israel, nem mesmo durante o “cessar-fogo”.

O período apenas traz inundações, doenças e hipotermia a pessoas sem paredes para abrigo e sem terra para absorver a água. O inverno foi transformado em arma pela ocupação para infligir ainda mais dor, sofrimento e perdas.

* Said Alsaloul é escritor e instrutor de inglês como segunda língua (ESL) de Gaza. Ohood Nassar é tradutora e redatora de conteúdo de Gaza. Artigo publicado no The New Arab em 05/01/2025.

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