Como o genocídio em Gaza alimentou uma onda de violência de “colonos” ladrões de terra na Cisjordânia

Na vila cristã de Taybeh, invasores armados, protegidos por soldados israelenses e aplaudidos por Bezalel Smotrich, atacam e roubam impunemente

26/10/2025

Um homem inspeciona um veículo incendiado por colonos israelenses durante um ataque na vila de Taybeh, na Cisjordânia, em julho de 2025 (Zain Jaafar/AFP)

Por Lubna Masarwa and Peter Oborne*

Os negociadores israelenses e do Hamas ainda discutiam os detalhes finais do plano de paz do presidente dos EUA, Donald Trump, quando chegamos a Taybeh.

Os moradores receberam com alívio as notícias de que havia algum progresso. Mas tinham problemas mais urgentes.

A vila, que tem uma população predominantemente cristã de cerca de 1.300 pessoas, vive sob um reinado de terror. Outubro é o período de colheita das oliveiras, mas seus habitantes correm risco de sofrer ataques de colonos se entrarem em suas terras para colher os frutos.

Como em todas as vilas palestinas, portões foram instalados na entrada para permitir que o exército israelense corte o acesso a qualquer momento.

Youssef Moussa, um beduíno de 64 anos, contou-nos como uma milícia de colonos invadiu sua tenda enquanto sua família dormia há duas semanas.

Eles o espancaram até deixá-lo inconsciente, quebrando duas de suas costelas. Ele acordou ouvindo os colonos espancarem sua esposa.

Os colonos devastaram sua casa. “Eles viraram o lugar de cabeça para baixo”, contou-nos. “Quando avaliamos os danos, 7.000 dinares [US$ 9.870] haviam desaparecido.”

Como todos os agricultores, os beduínos mantêm reservas em dinheiro obtidas com a venda de seus rebanhos, para comprar ração, ferramentas e outros itens essenciais.

Um neto permanecia imóvel ao seu lado enquanto ele falava.

Moussa, pai de cinco filhos, contou-nos que os colonos também levaram “o ouro que minha nora ganhou em seu casamento”.

Eles roubaram 85 ovelhas e cordeiros. “É o meu capital. Tudo o que eu tenho.”

Um portão erguido pelo exército israelense nos arredores da vila de Taybeh (Lubna Masarwa/MEE)

Youssef disse que, quando a ambulância chegou para levá-lo a um hospital próximo, o exército israelense não abriu o portão para permitir a entrada no vilarejo.

Centenas de milhares de palestinos, não apenas os beduínos aterrorizados, estão na mesma situação desesperadora.

Eles estão sendo apagados do mapa por grupos armados que agem livremente para atirar, roubar, mutilar e matar palestinos.

No domingo, colonos armados, acompanhados por soldados, atacaram agricultores palestinos que colhiam azeitonas em vários locais da Cisjordânia.

Em Turmus Ayya, a nordeste de Ramallah, colonos atacaram agricultores palestinos e voluntários internacionais que ajudavam na colheita. Imagens mostraram homens mascarados atacando uma mulher idosa e um voluntário estrangeiro com cassetetes, incendiando veículos e roubando a colheita.

Outros incidentes foram relatados em vilas e cidades próximas a Nablus, Ramallah e Belém.

‘Apagados da mesa’

Jamal Juma, ativista pela paz baseado em Ramallah, descreve os grupos responsáveis por esses ataques como “milícias fascistas”.

A linguagem é dura e direta, mas impossível de contestar.

Essas milícias, financiadas e armadas pelo Estado — e cada vez mais vestidas com uniformes militares — seguem uma ideologia racista que define os palestinos como sub-humanos.

Empregam rotineiramente a violência assassina e contam com o apoio e a cumplicidade do governo de Netanyahu.

Bezalel Smotrich, uma das principais inspirações por trás da recente onda de ataques, é um fascista autodeclarado.

Smotrich, ele próprio um colono, é ministro das Finanças de Netanyahu e uma figura-chave na coalizão governista, como líder do partido de extrema-direita Sionismo Religioso.

Ele também atua no Ministério da Defesa, responsável por aprovar novos assentamentos e, na prática, o governador da Cisjordânia.

O programa de confisco de terras de Smotrich é implacável. No último fim de semana, houve uma onda de ataques contra agricultores palestinos em toda a região norte da Cisjordânia, em torno de Aqraba, Burqa, al-Zawiya e Beita.

Os colonos agem com quase total impunidade. Se palestinos chamam a polícia para pedir proteção, ninguém aparece.

Se se defendem, os colonos chamam o exército.

Essa campanha patrocinada pelo Estado tem um objetivo predominante: erradicar as comunidades palestinas que existem nessa área há gerações.

Essas comunidades precedem há muito tempo os colonos predatórios — uma presença ilegal na Palestina que surgiu com a ocupação israelense após a guerra árabe-israelense de 1967.

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No mês passado, Smotrich apresentou seu plano para anexar 82% do que chama de “Judeia e Samaria”.

Segundo sua visão, os palestinos seriam confinados em ilhas isoladas nas maiores cidades palestinas. Se implementado, isso tornaria impossível a tão propalada solução de dois Estados, apoiada pela Grã-Bretanha e por outros países ocidentais.

Tudo isso é intencional. Ao anunciar, em agosto, a aprovação do projeto de assentamento E1 — um plano para construir mais de 3.000 casas que efetivamente separaria a Cisjordânia de Jerusalém Oriental ocupada — Smotrich foi claro:

“O Estado palestino está sendo apagado da mesa, não com slogans, mas com ações. Cada assentamento, cada bairro, cada unidade habitacional é mais um prego no caixão dessa ideia perigosa.”

Isso explica por que o plano de Smotrich não foi bem recebido pelo Ocidente. A visão de anexação da Cisjordânia já está em andamento.

A revista The Economist, um forte apoiador de Israel e nada simpática aos palestinos, observou recentemente: “Na realidade, a anexação já aconteceu.”

Qualquer pessoa que viva em Taybeh pode ver isso por si mesma.

Uma igreja antiga se ergue no alto da vila. Dela, há uma vista imponente sobre as terras pastorais do norte da Cisjordânia, em direção a Jericó, ao Vale do Jordão e além.

Ali, os agricultores, pastores e tribos beduínas nômades foram expulsos de suas terras na onda frenética de ataques brutais e derramamento de sangue, sob o disfarce do genocídio em Gaza nos últimos dois anos.

O status de Taybeh como uma das poucas vilas de maioria cristã na Cisjordânia lhe dá uma atenção que outras vilas não conseguem obter.

Em julho, a vila recebeu a visita de Mike Huckabee — embaixador dos EUA e ferrenho apoiador de Israel — após um ataque incendiário à igreja de Al-Khader, do século V.

Huckabee pediu que os responsáveis por “atos de terror e violência” fossem encontrados e processados.

Em um comunicado, ele declarou solidariedade “com as pessoas que só querem viver suas vidas em paz, poder ir às suas próprias terras, poder ir ao seu local de culto. Esta é uma comunidade cristã, em sua maioria, e é uma que merece respeito e ser tratada com dignidade. Nada menos do que isso.”

Nos dias seguintes, outros visitantes de destaque foram os senadores norte-americanos Chris Van Hollen e Jeff Merkley, além do ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul.

Mas suas visitas fizeram pouco para deter a violência. Agora, os ataques estão chegando ao coração dessas vilas. Houve repetidos ataques dentro da própria Taybeh.

Os colonos caminham impunemente pela vila, incendiando casas e olivais. Também miram o patrimônio religioso e cultural de Taybeh, com raízes na era bizantina.

Deixando de lado a catástrofe humanitária, trata-se de um ato de destruição cultural em larga escala.

Quando ocorrem os ataques, os soldados israelenses estacionados nas proximidades ou não respondem aos pedidos de ajuda, ou vêm em defesa dos colonos.

A situação de Taybeh é típica do que o grupo de direitos humanos Balasan, com sede em Belém, chama de “política israelense deliberada de deslocamento forçado”.

O Balasan acrescenta que essa política “é estritamente proibida pelo direito internacional e constitui uma grave violação, equivalente a um crime de guerra. Segundo o direito humanitário internacional, Israel, como potência ocupante, tem a obrigação de garantir a proteção da população civil no território ocupado”.

O grupo israelense de direitos humanos B’Tselem relata que o objetivo principal é “expulsar os palestinos da terra e tomar o máximo de território possível”.

E acrescenta:

“A violência perpetrada por colonos que vivem nesses postos avançados aumentou drasticamente, atingindo níveis sem precedentes durante os meses do ataque israelense a Gaza.

Essa rotina diária aterrorizante inclui agressões físicas severas, invasões de colonos em comunidades e casas a qualquer hora, incêndios criminosos, expulsão de pastores de suas pastagens e de agricultores de seus campos, assassinato e roubo de animais, destruição de plantações, furto de equipamentos e pertences pessoais, e bloqueio de estradas de acesso.”

Essa tem sido a vida cotidiana dos palestinos em toda a Cisjordânia nos últimos dois anos. No entanto, a transformação demográfica tem sido ignorada ou pouco noticiada.

De forma chocante, não há qualquer menção ao deslocamento forçado de palestinos na Cisjordânia no plano de 20 pontos de Donald Trump para Gaza.

É uma omissão gritante. O presidente americano afirma que a guerra em Gaza acabou.

Mas não há nenhuma possibilidade de paz duradoura enquanto Israel não for obrigado a pôr fim aos seus crimes de guerra em toda a Cisjordânia.

É difícil evitar a conclusão de que essa omissão é deliberada — ou, pelo menos, extremamente conveniente para Smotrich e seus colegas fascistas, que, é razoável supor, impuseram um preço em troca de seu apoio ao cessar-fogo em Gaza.

No terreno, em Taybeh e em outras comunidades da Cisjordânia sob cerco, eles receberam carta branca para prosseguir com a tarefa ilegal e assassina de limpar etnicamente os palestinos de suas terras.

* Lubna Masarwa é jornalista e chefe do escritório do Middle East Eye para Palestina e “israel”, com sede em Jerusalém. Peter Oborne é autor de diversos livros e premiado por comentários e artigos de sua autoria, tendo sido nomeado Colunista do Ano do British Press Awards em 2013. Reportagem publicada a partir de Taybeh, na Palestina Ocupada, em 20/10/2025 no Middle East Eye.

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