Como os israelenses transformaram a negação de atrocidades em uma arte
Enquanto os palestinos de Gaza documentam em tempo real o massacre e a fome em massa, a resposta de grande parte da sociedade israelense é: “É tudo falso — e eles merecem.”
Israelenses protestam contra a guerra e a crise humanitária em Gaza, em uma passarela de rodovia perto de Jerusalém, em 15 de agosto de 2025. (Jamal Awad/Flash90)
Por Ron Dudai*
Há uma década, nos últimos dias dos protestos semanais conjuntos palestino-judaicos contra a construção do muro de separação por Israel na aldeia cisjordaniana de Al-Ma’asara, um dos nossos rituais antes das manifestações era o discurso de Mahmoud, um líder comunitário local. Com o celular na mão, ele declarava: “Não teremos outra Nakba, porque agora temos isso. Temos um smartphone. Temos o Facebook. Eles tentarão nos expulsar de novo, mas todos verão e impedirão. Em 1948 não tínhamos smartphones, nem Facebook. Agora não vai acontecer.”
Ele repetia esse mantra toda sexta-feira — para os ativistas ao seu lado, para os soldados diante de nós e para si mesmo. Na época, soava reconfortante. Mas ele estava errado.
A campanha genocida em curso de Israel em Gaza talvez seja a atrocidade mais amplamente documentada da história recente, tanto pelo volume de provas quanto pela velocidade de sua circulação. Smartphones e redes sociais — ainda distantes durante os genocídios da Bósnia e de Ruanda — permitem capturar instantaneamente os acontecimentos, sob inúmeros ângulos, e compartilhá-los globalmente em tempo real, com a mídia tradicional ainda desempenhando um papel não desprezível de apoio.
E, no entanto, diante de um fluxo incessante de fotos e vídeos de civis mortos, crianças famintas e bairros inteiros reduzidos a escombros, grande parte do público israelense — e uma fatia significativa dos apoiadores de Israel no exterior — responde de duas formas: ou é tudo falso, ou os gazenses mereceram. Muitas vezes, paradoxalmente, é as duas coisas ao mesmo tempo: “Não há crianças mortas em Gaza, e foi bom que as matamos.”
Uma nova era de negação
A negação de atrocidades é um fenômeno global, mas a sociedade israelense a transformou em algo próximo de uma arte. Não é coincidência que uma das obras acadêmicas mais importantes sobre o tema, States of Denial (2001), do sociólogo Stanley Cohen, tenha sido inspirada por suas experiências como ativista de direitos humanos em Israel durante a Primeira Intifada, no fim dos anos 1980.
Baseando-se nessas experiências, Cohen descreve um repertório de negações empregado por Estados e sociedades: “não aconteceu” (não torturamos ninguém); “o que aconteceu é outra coisa” (não foi tortura, mas “pressão física moderada”); “não havia alternativa” (a “bomba-relógio” tornou a tortura um mal necessário).
Em Israel, essa lógica está enraizada no mito da “pureza das armas” (a crença de que Israel só age em legítima defesa) e na mentalidade antiga do “atirar e chorar” (a noção de que os israelenses podem cometer violência, mas permanecem moralmente únicos porque choram por isso depois). Por mais abjeta que seja essa mentalidade, ela repousa em duas suposições importantes: que atrocidades como tortura, assassinato de civis e deslocamento forçado são essencialmente erradas, e, portanto, exigem justificativa ou ocultação; e que a documentação e exposição da verdade têm valor — ainda que apenas como obstáculo a ser contornado.
Por toda a sua hipocrisia repulsiva, o mito da “pureza das armas” deixa uma brecha, ainda que estreita, para a correção. Quando o abismo entre retórica e realidade é exposto, pode provocar constrangimento e até gerar pressão por mudanças. Nesse mundo, imagens capturadas por um celular e compartilhadas instantaneamente têm peso real.
Mas não é o mundo em que vivemos hoje. Em Israel, o instinto de descartar qualquer documentação vinda de Gaza como “falsa” foi absorvido pelo discurso dominante, das mais altas esferas do poder político até comentaristas anônimos em sites de notícias. Esse reflexo está enraizado em uma mentalidade conspiratória importada dos círculos de direita dos EUA, semelhante à retórica do “Estado profundo” de Donald Trump, que se tornou favorita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e de seus apoiadores.
Nem as crianças, nem as mulheres: 76% dos israelenses acham que ninguém é inocente em Gaza
Um dos principais evangelistas desse estilo de negação é o midiático conspiracionista de extrema direita Alex Jones. Em 2012, o aliado de longa data de Trump afirmou que o massacre da escola primária Sandy Hook, no qual 20 alunos e seis adultos foram assassinados, tinha sido encenado. Apesar das provas esmagadoras, Jones insistiu que todas as imagens do massacre — os pais enlutados, até mesmo os corpos das vítimas — eram falsificações, parte de uma conspiração democrata para minar o direito dos norte-americanos de portar armas.
Esse tipo de discurso começou a infiltrar-se na sociedade israelense antes mesmo de 7 de outubro, primeiro online e depois em arenas formais. Com o prolongamento da guerra, tornou-se uma resposta generalizada e quase automática: um vídeo de pais palestinos carregando o corpo de um bebê? “Atores segurando uma boneca.” Fotos de civis mortos por soldados israelenses? “Imagens geradas por IA, manipuladas ou tiradas em outro lugar.” E assim por diante, ad infinitum.
Esse discurso muitas vezes é associado ao termo “Pallywood” — junção de “Palestinian” e “Hollywood”. Importado dos círculos da direita dos EUA nos anos 2000, sugere que as imagens do sofrimento palestino não são reais, mas parte de uma elaborada indústria cinematográfica: uma vasta conspiração em que palestinos, ONGs de direitos humanos e a mídia internacional colaboram para fabricar atrocidades.
Em uma era anterior de negação de atrocidades, as alegações de encenação eram ao menos elaboradas. Muitos ainda lembram o caso de Muhammad Al-Durrah, o menino de 12 anos morto em Gaza em setembro de 2000, cuja morte se tornou símbolo da Segunda Intifada. Israelenses e seus apoiadores investiram enormes esforços para tentar desacreditar as imagens: centenas de horas de análise, relatórios e até documentários, examinando ângulos de tiro, balística e detalhes forenses para argumentar que o evento inteiro havia sido encenado.
Hoje, a negação não exige tal esforço. As teorias conspiratórias intrincadas do passado cederam lugar a uma forma mais bruta de negacionismo que estudiosos chamam de “conspiracionismo” — a rejeição reflexiva de qualquer evidência contrária como fabricada. A documentação é simplesmente descartada com uma única palavra: “falso”.
Pós-verdade, pós-vergonha
Basta considerar a prova inegável da fome em massa em Gaza. A lógica é dolorosamente simples: uma população sitiada, cuja capacidade de autossuficiência foi destruída, inevitavelmente passará fome. E, ainda assim, em Israel, desde comentaristas anônimos na internet até as mais altas instâncias do governo, a resposta reflexiva continua a mesma: “É tudo falso.”
Netanyahu falou sobre a “percepção de uma crise humanitária”, supostamente criada por “fotos encenadas ou bem manipuladas” distribuídas pelo Hamas. O ministro das Relações Exteriores, Gideon Sa’ar, descartou imagens de crianças esqueléticas como “realidade virtual”, citando como prova a presença de adultos “bem alimentados” ao lado delas. O exército alegou que o Hamas estava reciclando imagens de crianças iemenitas ou fabricando falsificações com IA. O jornalista do Ynet, Itamar Eichner, embora crítico do governo em outros aspectos, ecoou o mesmo sentimento: “Eles [os palestinos] entendem que fotos de crianças famintas são um ponto sensível. As fotos provavelmente são encenadas, e as crianças podem estar doentes de outras enfermidades.”
Esse padrão de negação aparece até no discurso acadêmico. Um relatório recente do Begin-Sadat Center for Strategic Studies, da Universidade Bar-Ilan, intitulado Debunking the Genocide Allegations: A Reexamination of the Israel-Hamas War (2023-2025), incluiu uma seção chamada “Fontes falsas e outras geradas por IA”.
Embora provas documentadas de atrocidades sempre tenham sido recebidas com evasivas e negações, a situação hoje é totalmente diferente. Na era da “pós-verdade”, a combinação de maior suspeita da manipulação por IA, a erosão da confiança na mídia institucional e o colapso dos mecanismos democráticos de controle tornou o instinto de gritar “falso” diante de qualquer evidência incômoda muito mais difundido e poderoso do que nunca.
Enquanto isso, a recusa repugnante da esmagadora maioria da mídia israelense em mostrar o que realmente acontece em Gaza significa que, quando imagens conseguem escapar, a reação pública é muitas vezes apenas um encolher coletivo de ombros. Mas quase sempre, esse gesto é acompanhado de um “eles mereceram”, enquanto negação e justificação se entrelaçam em um aparente paradoxo que, na verdade, reflete duas faces da mesma moeda.
Como declarou recentemente o ministro da Herança, Amichai Eliyahu: “Não há fome em Gaza, e quando mostram fotos de crianças famintas, olhem com atenção — sempre haverá uma gorda ao lado delas, comendo bem. É uma campanha encenada.” E, na mesma entrevista, acrescentou: “Não existe nação que alimente seus inimigos. Perdemos a cabeça? No dia em que devolverem os reféns — não haverá fome lá. No dia em que matarem os terroristas do Hamas — não haverá fome.”
Yazan Abu Foul, de dois anos, que sofre de desnutrição grave, é segurado por sua mãe, no campo de refugiados de Al-Shati, no oeste da Cidade de Gaza, em 19 de julho de 2025. (Yousef Zaanoun/Activestills)
Após duas décadas de cerco, nas quais nós, israelenses, tentamos empurrar Gaza e seus 2 milhões de habitantes para fora da vista e da mente, o massacre de 7 de outubro brutalmente trouxe de volta o que havíamos tentado esquecer. Talvez tenha sido então que as duas respostas — “falso” e “eles mereceram” — se fundiram completamente. A primeira serve à autoimagem nacional (“nossos filhos não estão cometendo atrocidades”) e às demandas da hasbara, comprando tempo no palco internacional. A segunda é uma reação visceral à dor e à humilhação de ser atingido por aqueles há muito considerados inferiores. Juntas, fundem-se em uma reação que ignora qualquer apelo moral, não exige pausa e não requer desculpas.
E aqui está o segundo desafio à crença de que smartphones e redes sociais podem impedir atrocidades. A luta por direitos humanos partiu por muito tempo da premissa de que documentar abusos envergonharia os perpetradores e os faria mudar de comportamento. Mas o que acontece quando os perpetradores já não sentem vergonha e desconsideram abertamente a censura moral e até a própria ideia de verdade? Nesse caso, a documentação e a difusão, por mais rápidas ou amplas que sejam, perdem seu poder.
De fato, como relatórios de direitos humanos e petições em tribunais internacionais nos últimos dois anos demonstraram, líderes militares, políticos e culturais israelenses agora admitem abertamente — e por conta própria — o que em outras circunstâncias grupos de direitos humanos teriam se esforçado arduamente para provar.
Após décadas negando a Nakba, chegando até a proibir o próprio termo, legisladores israelenses agora declaram orgulhosamente que Israel está realizando uma segunda Nakba em Gaza. Onde antes voluntários da B’Tselem precisavam filmar meticulosamente atrocidades na Cisjordânia, apenas para ouvir desculpas como “os incidentes foram tirados de contexto”, hoje soldados israelenses eles mesmos registram violações de direitos humanos e as publicam nas redes sociais sem hesitação.
O que estamos testemunhando é o colapso do ciclo tradicional de exposição, negação e confirmação. Nessa realidade, de que servem smartphones e redes sociais?
Palestinos lamentam entes queridos mortos em um ataque aéreo israelense em frente ao Hospital Nasser, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, em 19 de agosto de 2025. (Abed Rahim Khatib/Flash90)
Rachaduras no muro
Embora o benefício de documentar atrocidades seja muito menor do que esperávamos no passado, ele ainda é significativo. Enquanto escrevo, parece que as respostas reflexas “falso” e “eles mereceram” finalmente estão encontrando barreiras sólidas.
Diante da vasta e incessante prova da fome em Gaza, os gritos de “falso” tornam-se cada vez mais histéricos e desesperados. A acusação cruel, repetida sem cessar no discurso israelense, de que uma criança gazense com uma doença pré-existente absolve Israel de responsabilidade por matá-la de fome aparentemente fracassou em conter o crescente reconhecimento em Israel do sofrimento palestino e de sua injustiça fundamental.
As reviravoltas agora comuns nos argumentos israelenses — de que de fato há fome em Gaza, mas a culpa é do Hamas; de que é uma consequência não intencional da guerra; ou de que o mundo é hipócrita por não tratar a fome no Iêmen da mesma forma — remetem todas ao repertório de negações descrito por Stanley Cohen. Mas também sugerem outra coisa: o tímido ressurgimento do constrangimento, e talvez até da vergonha, em ao menos alguns segmentos da população israelense.
O que parece ter contribuído para essa mudança foram, por um lado, as reações da comunidade internacional à fome, e por outro, a possibilidade de reconhecer a fome sem implicar diretamente soldados e pilotos (nossos “melhores filhos”). No entanto, a simples acumulação de fotos e provas irrefutáveis de Gaza também desempenhou um papel. A persistência de indivíduos e organizações em documentar e relatar — de dentro de Gaza e além —, validando e divulgando esse material em Israel e no mundo, acabou tendo impacto.
Mas os planos de Israel de ocupar a Cidade de Gaza e deslocar à força seus habitantes para o que pode equivaler a um campo de concentração, antes de sua possível expulsão permanente da Faixa, ameaçam transformar algo já desastroso em algo ainda pior. O público israelense se refugiará ainda mais na negação ou será finalmente forçado a encarar a realidade?
* Professor associado no Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Ben-Gurion do Negev. Artigo publicado em 22/08/2025 na +972 Magazine.
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