Das leis que Trump inventou

Faz-se claro para bom entendedor que os últimos 25 anos de guerras em todo o mundo se dão pela ânsia dos Estados Unidos e da Europa em assegurar que prosseguirão os máximos protagonistas no poder mundial

18/08/2025

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. (Foto: Getty Images)

Por Melina Manasseh*

Trump, seu maroto… já estavas a aprontar! A tal lei chamada “Protegendo a nação de estrangeiros terroristas nos Estados Unidos” foi uma ordem executiva com ação imediata, assinada em 27 de janeiro de 2017, que catalogava sete países de maioria muçulmana como sendo os principais “exportadores de terroristas”. Isso mesmo, terroristas! Trump, no seu primeiro mandato, assina o “Banimento Muçulmano” (que em seguida é reordenado com a numeração 12780, englobando mais países do que os sete iniciais (Sudão, Líbia, Iraque, Irã, Somália, Iêmen e Síria) e dita regras esquisitas de limite de entradas, dias a ficar em solo estadunidense e, claro, entrada proibida ao chegar. Ou seja, Trump está recém-chegado na Casa Branca e não passado um mês ele já se posicionava contra a crescente demografia de muçulmanos em terras do tio Sam.

As projeções são de que em 2030 a demografia muçulmana irá passar de 6,3 milhões nos EUA, alcançando a controversa demografia estimada de judeus, que sempre é citada como sendo de 6 milhões e que está em declínio. Curiosamente, desde o 11 de setembro, o fatídico 9/11 de 2001, qualquer governo que se coloque na Casa Branca, seja democrata ou republicano, aplica as mesmas políticas externas para a região do Oriente Médio: matar, destruir e aniquilar a ponto de devastar e impossibilitar a sociedade de se recompor e de ser capaz de explorar soberanamente seus minérios, petróleo. A totalidade de suas riquezas são roubadas, inclusive de forma institucionalizada – os novos governantes implantados após a destruição assinam “acordos” entregando suas soberanias nacionais – para servir um ou mais agentes exploradores, a grande maioria estadunidenses.

Com a “guerra ao terror” no Paquistão, Iraque e Afeganistão; mais as ditas primaveras árabes em diversos países, que levaram, por exemplo, à guerras contra Síria e Líbia, assim como as operações militares na Somália e a eclosão da guerra civil do Sudão, tudo isso somado aos ataques de tempos em tempos ao Líbano; os incontáveis ataques de Israel à Palestina desde ao mesmo o bloqueio total a Gaza (2007), tanto em Gaza quanto na Cisjordânia, e de novo a guerra recrudescida na Síria e o genocídio em curso em Gaza desde outubro de 2023, lá se vão 25 anos de ebulição efervescente em países que mal sabemos apontar no mapa, destroçados por uma infinidade de eventos atrozes e violentos.

Em território estadunidense e europeu nada acontece, a não ser a chegada de barcos abarrotados de refugiados. Pobre dos EUA e da União Europeia! Afinal, não são eles os responsáveis, senão pelos conflitos e ataques bélicos, ao menos provocados por suas técnicas de desestabilização, suas cada vez mais destrutivas guerras híbridas, pela morte indireta de mais de 3,8 milhões de civis?

O Oriente Médio é o maior provedor de matérias vivas, em constante mudança: diárias, minuto a minuto. Não para. Não há quem consiga escrever um artigo sem que algo novo se sobreponha ao fato anterior, ou corroborando para a linha histórica já traçada ou redirecionando o futuro para novos desdobramentos. Gaza é isso. Corrobora para o que já era sabido: que o sionismo tem em sua concepção original a limpeza étnica que se dá através do genocídio. 

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Na intersecção do Brasil com o Oriente Médio, temos a maior imigração árabe do mundo, em sua esmagadora maioria sírio-libanesa (os palestinos e descendentes são de 2% a 3% desta imigração árabe ao Brasil), na sua maioria cristãos, adaptados, abrasileirados, que se esquecem de suas origens, se esquecem de seus pares deixados na terrinha e que não são familiarizados com os muçulmanos. São aproximadamente 10 milhões de descendentes que amam a culinária, em parte casam entre si, se relacionam em clubes comunitários, mas não se apropriam de Gaza. 

Mas o Brasil não é os Estados Unidos, menos ainda agora, com dois governantes tão díspares como o presidente Lula e Trump. O Brasil jamais criaria uma lei dessas, contra “estrangeiros terroristas”. Ainda que fosse obra da direita, não faria o menor sentido, já que o terrorista é da sua bancada e, sentado no congresso ou autoexilado nos EUA, articula entregar o país de mão beijada. Se criada pela esquerda, menos sentido ainda, porque a esquerda é mais inclusiva e não é ela que instrumentaliza a islamofobia. 

A régua moral de Gaza e o boomerang

Faz-se claro para bom entendedor que os últimos 25 anos de guerras em todo o mundo se dão pela ânsia dos Estados Unidos e da Europa em assegurar que prosseguirão os máximos protagonistas no poder mundial. Sendo assim, vale a reflexão sobre o que está por vir nos próximos 20, 30 anos. Se Gaza é a epítome dos efeitos do colonialismo tardio e é a régua moral de um inaceitável regime opressor, Israel encurta, distorce o sistema métrico, quebra a régua cada vez que descumpre o Direito Internacional e o consenso civilizacional da Comunidade Internacional. Israel obriga o ocidente a enxergar sua mais feia e terrível feição, a de um estado descontrolado, genocida, desrespeitoso. Os Estados Unidos e a Europa criaram um monstro, uma aberração. Nada que não fosse seu próprio reflexo, mas que sai de controle ao engolfar territórios, ao dizimar os palestinos diante das câmeras. 

Aimé Césaire, em seu famoso “Discursos sobre o colonialismo”, de 1950, fala sobre colonização do ponto de vista do colonizado.  Atual, coloca em xeque as políticas trumpistas dirigidas aos imigrantes e implementadas em território nacional prendendo morador de rua a cassetete, deportando inclusive pessoas já tornadas estadunidenses, estudantes, tentando institucionalizar uma marginalização permanente desta parte da sociedade. Para Césaire a análise se dá entre colonização e barbárie. O colonizador, xenofóbico, se vê superior e ao enxergar o povo originário, precisa identificá-lo como bárbaro, bestial, para funcionalizar o colonialismo. No segundo momento, consequentemente, após forçar sua presença e suas práticas brutais, ele, o colonizador, transfere para si a selvageria ao se desnudar da civilidade. É o olhar do colonizador que identifica quem são os seus, os outros, a quem se destina sua irrestrita brutalidade, através de técnicas de opressão, de tortura, do repertório geral do próprio colonizador, transformando-o em “a mais bestial das criaturas”.

Césarie atenta para o conceito do boomerang. O colonialismo funciona como um boomerang, que exercita a maldade escrachando qualquer moral e costume, rebaixando a civilidade do colonizador para sempre e, ao voltar para seu país de origem, o colonizador já está bestializado, condenado pelos atos do passado e não demorará em impor aos “seus” técnicas similares de desumanização (haja visto a polícia do ICE estadunidense nas inúmeras investidas da repressão dos movimentos pró-Palestina).

Passados 75 anos do texto e 77 da Nakba, podemos traçar novos paralelos. Ao regressar, o boomerang não só traz consigo a permissão para implementar na metrópole o mesmo tratamento imposto aos povos de terras longínquas, assim como o olhar e os sentidos do colonizador se afiam, se aguçam e ele volta dessensibilizado. Ele passa a entender-se parte de uma esfera ainda mais exclusiva, a dos sobreviventes, dos escolhidos, dos abençoados, trazendo consigo um passado sombrio. Só farão parte aqueles que dividem com ele os crimes coloniais, crimes de conquistas, de suas batalhas. A população comum de seu país de origem toma outro contorno, o de acessório para fins maiores, ganhos antes não compreendidos. Seriam eles Trump… Netanyahu? 

Há ainda um outro desdobramento: o boomerang migratório. Miscigenação acontece! Os colonizados sonham em ser tal qual seus algozes. Se encantam com a cultura, com o estilo de vida, já dizia Paulo Freire, para quem “quando a educação não é efetiva, colonizado sonha em ser colonizador”.

Por outro lado, o estado colonizador jamais está preparado para se adequar às ondas migratórias, porque separa, rebaixa e precariza à distância suas colônias, cria leis, distinções e estabelece um estado de sítio dentro da metrópole. Israel é esse estado, essa aberração. Um estado pária, de privilégios e privilegiados que se apresenta normalizando práticas desumanas. Que se entende europeu e ocidental no pior sentido possível. Israel é o estranho no ninho. É regime colonial usado para desestabilizar o Oriente Médio, para criar o caos. Para que a Europa e os Estados Unidos possam seguir aproveitando a devassidão das guerras, dos restos deixados após cada capítulo horrendo de 25 anos de jogo de poder. Pouco importa Trump, Biden, Obama. Pouco importa Sharon, Rabin, Peres, Netanyahu. E pouco importa Trump, ocupando ou não o cargo que voltou a ocupar, ainda que ninguém dê um vintém para o que ele diz, desdiz e volta a dizer. 

A Lei criada por Trump em 2017 é uma das tantas bravatas de um louco (que, claro, foi derrubada por Biden, sem que, entretanto, ele tenha deixado de seguir as mesmas políticas de Obama, que enxotou milhares de imigrantes, até mais que o próprio Trump em seu primeiro mandato, só que na surdina), assim como as tarifas à Rússia, ao Brasil e a tantos outros países. Trump vocifera enquanto Lula mostra a que veio: se comporta como um estadista de primeira linha. Leis e mais leis, na tentativa de escriturar, constitucionalizar o privilégio ao dizer “Aqui eles não entram”, “podemos tudo”. Tentam também fazê-lo no Brasil, pondo à prova nossa democracia, nossa soberania. 

Sim, hoje o panorama do Oriente Médio é favorável a uma nova onda de colonialismo, senão governamental, ao menos econômica, com países arrasados e dependentes de ajuda humanitária, assim tornados porque propositalmente atrasados durante décadas, ou mesmo por séculos, e irão precisar desse toma lá, dá cá de organizações dominadas pelos países hegemônicos, como FMI e Banco Mundial, inclusive para a constante reconstrução do que foi destruído exatamente pelos países que darão o dinheiro sob as condicionantes que todos conhecemos. Gaza, que precisará de tudo porque não sobrou pedra sobre pedra, é presa fácil neste processo vicioso.

Gaza está aqui

Engana-se quem não vê que Gaza, Somália e Sudão, Líbia, Iraque e todos os países devastados estão aqui, na nossa periferia ou nas concessões de nossas riquezas aos colonizadores, estrangeiros e “brasileiros”. Engana-se quem não entendeu de forma global que os conflitos no Oriente Médio despontam como indicador daquilo que realmente importa: controle de petróleo e minérios, de geografias conectivas, de mercados consumidores aos quais se impedirá produzir para que importes dos gestores da guerra e da ocupação. Engana-se quem não antevê as ondas migratórias devido à fome e às catástrofes climáticas. Engana-se ainda mais quem não enxerga o entreguismo de uma nova forma de direita no Brasil, extremista até no entreguismo. 

Para Césaire, a alegada civilização ultrapassou a barbárie inventada pelos alegadamente civilizados. Basta olhar para as polícias de Alemanha, Reino Unido, França e Estados Unidos. Para os EUA sob Trump e seu séquito, só importa lavar a égua nesse último mandato, porque dessa vez sua voracidade é descontrolada. Devemos lembrar do casaco que a primeira-dama Melania Trump usou em 2018 ao visitar os abrigos de crianças detentas no Texas, que ostentava a infame inscrição “Eu realmente não ligo, você liga?”. Nenhum deles nunca ligou e jamais se importou.

De lá pra cá nada mudou. Nada do que Trump faz é de hoje, mas a violência com a qual impõe sua vontade infantilizada ao mundo e a população estadunidense é uma quase-novidade. Trump perdeu o verniz, o medo de ser responsabilizado, como se estivesse à beira da morte e, precisando provar estar vivo, se faz presente da pior forma possível. Epstein? Ele não liga, mas ligou: fez, por transmissão de dados, 4.725 ligações e transferências para o próprio Epstein, em uma única conta bancária. Não mudou sua política de tirar da frente de forma esquizoide, sem planejamento e sem se debruçar enquanto o americano comum está convenientemente assustado.

Gaza deve ser uma pedra em seus caros sapatos de grife, que sustentam em pé sua empáfia avassaladora. O mundo se importa com Gaza, diferentemente de Trump, que busca soluções simplistas, porque simplesmente sua solução é a não-solução, disfarce para a maior limpeza étnica da história, que persegue com seu sócio genocida Netanyahu. O mundo quer que o genocídio acabe. Quer caminhar para a reconstrução. Restabelecer a Palestina. Trump nunca foi de ler, já dizia sua mãe em documentário sobre ele. Será que ele sabe que suas políticas internas provam que o boomerang já voltou e que ele será lembrado na história como um governante velho, atrasado e fascista e que ajudou a fazer dos EUA uma sociedade decadente e não mais a grande potência de outrora? A nós, reles mortais, falta olharmos para cada um deles e entender quem realmente são e dar a eles a importância devida. São a representação da barbárie, são horrendos, bestas brutas e brutais, abomináveis e desprezíveis. E que, acima de tudo, precisam ser parados já.

*Melina Manasseh é formada em arquitetura e urbanismo pela Belas Artes de São Paulo, com master em estratégias para as artes na UPenn – University of Pennsylvania e atualmente cursa Mestrado de Linguística no Lael da PUC, além de cantora lírica com especialização em música de câmera. Também integra o Coletivo de Direitos Humanos e Solidariedade da FEPAL – Federação Árabe Palestina do Brasil.

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