Do petróleo à pólvora: liturgia da dor

"O retorno do Xá inaugurou uma era de repressão brutal, amparada por tecnologia ocidental e silêncio diplomático"

20/06/2025

Apoiadores da revolução iraniana erguem cartaz com a imagem do aiatolá Khomeini, 1979.

Por Wellington Lima Amorim*

“Se nós vendermos nossa terra , vós deveis lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e também vossos. E vós deveis dar aos rios a ternura que mostrais a um irmão. Sabemos que o homem branco não entende nossos costumes. Um pedaço de terra, para ele, é igual ao pedaço de terra vizinho, pois é um estranho que chega ,às escuras, e se apossa da terra de quem tem necessidade. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e uma vez conquistada, o homem branco vai mais longe. Seu apetite arrasará a terra e não deixará nela mais que um deserto.” “O que é o homem sem os animais? Se os animais desaparecerem, o homem morrerá dentro de uma grande solidão. Ensinai também a vossos filhos aquilo que ensinaremos aos nossos: que a terra é nossa mãe. Dizei a eles que a respeitem, pois tudo que acontecer à terra acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no chão, eles cospem sobre eles mesmos. 

Ao menos sabemos isto: a terra não é do homem; o homem pertence à terra. Todas as coisas são dependentes. Não foi o homem que teceu a teia de sua vida, ele não passa de um fio dessa teia. Tudo que fizer para essa teia estará fazendo a si mesmo.” Dee Brown

 

Em 1951, o petróleo iraniano, até então explorado por potências britânicas sob condições profundamente coloniais, foi nacionalizado. Sua intenção era clara: recuperar a soberania econômica e devolver ao povo iraniano o controle sobre suas riquezas. O Ocidente respondeu com uma frieza cirúrgica. O golpe de 1953, orquestrado pela CIA e pelo MI6, estabeleceu o Xá Mohammad Reza Pahlavi no poder. Esse evento não foi apenas uma operação política: foi uma ferida aberta no inconsciente coletivo iraniano, um estigma que o Islã xiita converteria mais tarde em mitologia de resistência. O retorno do Xá inaugurou uma era de repressão brutal, amparada por tecnologia ocidental e silêncio diplomático. A SAVAK, polícia secreta iraniana treinada pela CIA e pelo Mossad, serviço secreto israelense, tornou-se sinônimo de terror noturno. Opositores políticos, intelectuais, religiosos, estudantes e até artistas eram perseguidos com ferocidade metódica. Estima-se que dezenas de milhares de dissidentes tenham sido presos arbitrariamente e muitos jamais foram vistos novamente. Em masmorras subterrâneas, corpos eram desfigurados por instrumentos de tortura, desde choques elétricos em genitálias até técnicas de afogamento lento e suspensão por ganchos cravados nas costas. As execuções sumárias eram precedidas de interrogatórios onde o objetivo não era obter confissão, mas aniquilar o espírito.

Em um silêncio sepulcral, os corredores subterrâneos da SAVAK ecoavam gritos mudos e agonizantes, onde o horror não se limitava apenas ao corpo, mas se espalhava como uma sombra que contaminava a alma. Tortura não era mero instrumento de intimidação: era ritual de destruição integral, arquitetado com frieza quase litúrgica, como uma blasfêmia contínua contra a dignidade humana. A SAVAK, criada com a mão invisível das potências ocidentais e israelenses não poupava nenhum recurso para pulverizar qualquer vestígio de dissidência, transformando prisões em verdadeiros templos do sofrimento. As técnicas eram múltiplas e sofisticadas no cruel refinamento do tormento. O prisioneiro era arrancado de seu tempo e espaço, submetido a privação sensorial extrema: luzes incandescentes jamais apagadas, som constante de ruídos mecânicos, isolamento em celas de concreto que aboliam toda referência à realidade, fazendo a mente desabar em espirais de loucura. A suspensão por ganchos nos ossos das costas não era apenas para dor física, mas para fragmentar a identidade, arrancar o eu da existência.

Mas o horror não parava na tortura corporal. A SAVAK institucionalizou o sofrimento simbólico: a dissolução das famílias. Homens eram obrigados a assistir à humilhação e violação de suas mulheres e filhas, que eram estupradas como métodos perversos de dominação que visava desmantelar os laços mais sagrados da vida social. A tortura sexual era um mecanismo sistemático para quebrar a resistência, estigmatizando para sempre as vítimas, tornando-as invisíveis na própria comunidade. O medo não era apenas do físico, mas da aniquilação do próprio ser no seio dos seus. Intelectuais, poetas e clérigos desapareciam em meio à noite e seus corpos, quando reapareciam, traziam marcas de experiências tão brutais que ultrapassavam a crueldade humana comum. Era um sofrimento ritual, onde o prisioneiro se tornava símbolo da luta invisibilizada, mártir silencioso de uma tirania sem rosto. A tortura psicológica, aliada à física, instalava um medo que penetrava nas entranhas da cultura iraniana, fazendo do silêncio um território de sobrevivência, mas também de fermentação da revolta. 

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A linguagem do sagrado, tão intrínseca à cultura xiita, era profanada no processo: rezas arrancadas à força durante sessões intermináveis de tortura, símbolos religiosos arrancados das paredes das celas, a própria noção de dignidade transformada em objeto descartável. A repressão tinha um caráter quase sacrificial, onde o Estado se apresentava como o deus cru que exige o sangue dos seus filhos para manter a ordem aparente. Não era mera violência física: era uma política que se infiltrava nas almas, um genocídio espiritual que antecipava o retorno do sagrado na forma de resistência. Pois quando tudo que resta é o corpo dilacerado e o espírito humilhado, o sagrado reaparece como vingança, como fogo no deserto, como oração que rasga o silêncio da morte anunciada. A SAVAK não só criou monstros de carne e osso, mas fez germinar a semente do fundamentalismo que, décadas depois, explodiria contra a modernidade pornográfica que eles próprios ajudaram a instaurar. Essa liturgia da dor macabra da tortura e do medo não apenas sustentou o regime do Xá, mas o corroeu por dentro. O retorno do sagrado, portanto, não é uma regressão irracional, mas a resposta de um povo que teve sua alma desfigurada pelo horror estatal, horror ritualizado, quase religioso em sua brutalidade, que transformou a dor em resistência e martírio em linguagem política. E é nesse campo de ruínas espirituais que germina a complexa, trágica e ambígua gênese do fundamentalismo islâmico iraniano, onde terror e sacralidade se entrelaçam numa dança inquietante.

Muitos prisioneiros políticos foram submetidos a privações sensoriais prolongadas, passando semanas trancados em celas insonorizadas, com luzes intensas e ausência total de referências temporais, levando a estados psicóticos. Mulheres eram estupradas diante de seus maridos; filhos assistiam à tortura de seus pais para quebrar a estrutura emocional das famílias. Intelectuais, poetas e clérigos desapareciam de bibliotecas, universidades e mesquitas e reapareciam como cadáveres nos lixões dos arredores de Teerã. A crueldade não era exceção, era política de Estado. Entre os métodos mais aterradores praticados pela SAVAK, destacava-se a “caixa de silêncio”: uma pequena cela onde o prisioneiro não podia ficar de pé nem se deitar completamente. Dentro dela, permanecia nu, privado de comida por dias e sujeito a sons estridentes 24 horas por dia. Havia ainda o “tapete elétrico”, sobre o qual o corpo era estendido e submetido a correntes alternadas que percorriam as terminações nervosas até que o cérebro desligasse da realidade. Muitos enlouqueciam. Outros preferiam o suicídio, às vezes jogando-se das janelas das prisões.

A tortura era institucionalizada e festejada como eficiência. Médicos colaboravam com os interrogadores para manter vivos os corpos torturados apenas o suficiente para que sobrevivessem ao próximo turno de suplício. Testemunhas relatam que crianças eram mantidas presas em corredores próximos às salas de tortura para que os pais ouvissem seus gritos e entregassem nomes. Não bastava punir a dissidência era preciso quebrar a linhagem simbólica da resistência. O Xá construiu, com apoio das potências ocidentais e israelenses um Estado onde a violência física andava de mãos dadas com a violência simbólica. Livros eram banidos, mesquitas vigiadas, universidades infiltradas por espiões. A linguagem foi colonizada: palavras como tradição, fé, recato e humildade tornaram-se subversivas. O próprio ato de rezar em voz alta podia ser interpretado como resistência. A política oficial do regime era eliminar a ambiguidade, e, portanto, a dúvida, o pensamento e o sagrado.

Durante os anos seguintes, o Irã transformou-se em vitrine do que Byung-Chul Han chamaria de “modernidade pornográfica”. O Marquês de Sade ficaria horrorizado ou orgulhoso? Não se trata aqui de pornografia no sentido sexual estrito, mas da exposição obscena dos corpos torturados e expostos, da transparência forçada, da destruição do mistério e da aniquilação do sagrado. A Teerã do Xá era a imagem de um mundo sem interioridade, sem recato simbólico: consumo sem pudor, moda europeia imposta e mulheres desveladas por decreto, opulência ao lado de favelas silenciosas. A política do Xá, inspirada nos modelos ocidentais de progresso e tecnocracia, impunha à cultura iraniana um padrão de vida ocidentalizado que rejeitava as tradições espirituais, éticas e estéticas do Islã xiita. A sociedade se dividiu: uma elite urbana seduzida pela estética da vitrine consumista e uma massa popular mergulhada em pobreza material e desorientação simbólica. O corpo feminino tornou-se o campo de batalha mais visível. A obrigatoriedade da não utilização do véu, imposta por decretos oficiais, visava à suposta libertação da mulher, mas agia como símbolo da profanação dos valores tradicionais.

Essa “libertação compulsória” era, na linguagem de Han, um exemplo claro da modernidade pornográfica onde o sujeito deve mostrar-se, comunicar-se, realizar-se a olhos vistos. Tudo aquilo que é opaco, oculto, ambíguo e, portanto, sagrado, deve ser eliminado. O véu, que em sua origem é signo de interioridade, de espaço simbólico protegido, foi visto como atraso. O corpo, outrora inviolável, passou a ser um objeto exposto, produto. A pornografia da positividade instala-se quando o invisível torna-se indesejável, quando o silêncio é confundido com opressão e o mistério com ignorância. A modernização do Irã sob o Xá não apenas derrubava mesquitas para erguer prédios comerciais, ela destruía a linguagem do sagrado e desejava instaurar a lógica do espetáculo. O espírito iraniano, acostumado a significações místicas, a poéticas do véu e do segredo, viu-se subitamente exposto a uma nova metafísica: a do lucro, da eficiência, da imagem.

Esse deslocamento gerou o que Han poderia chamar de “violência simbólica”: um assassinato das formas de vida espiritual em nome da vida produtiva. O sujeito religioso, enraizado na tradição, na oração, no pudor, foi substituído pelo sujeito liberal da performance e da autoexposição. E quando o sagrado é ridicularizado, ele não morre. Ele se vinga. Ao impor uma modernidade superficial, sem enraizamento, o regime do Xá intensificou o ressentimento das camadas populares e religiosas. A modernização forçada era vivida como profanação. O sagrado, que para Han é a experiência da negatividade, do outro irredutível, do segredo inatingível, foi devorado pela transparência de uma modernidade satânica e pornográfica. Mas o sagrado, mesmo quando soterrado, nunca desaparece. Ele fermenta nas sombras. Sob a pressão do espetáculo, sob o verniz da modernização, formava-se uma camada subterrânea de raiva sacralizada. A religião não apenas sobreviveu à modernidade pornográfica, ela se radicalizou. Ao perder seu lugar no espaço público, o Islã xiita recolheu-se ao subterrâneo da subjetividade ferida. Tornou-se resistência simbólica, arma do espírito, martírio contra a pornografia ocidental.

Quando o corpo místico é invadido pela lógica liberal, o retorno do sagrado se dá com força violenta. Não se trata apenas de fundamentalismo político, mas de uma contra-ofensiva metafísica. O véu volta não como simples traje, mas como grito ontológico contra o espetáculo. A oração noturna torna-se ato de insurgência. A comunidade de fiéis, que antes era desprezada como arcaísmo, passa a ser refúgio e trincheira. A teocracia não surge do nada, mas da humilhação contínua de um povo que viu sua alma transformada em vitrine pelas potências ocidentais. Se o Ocidente acreditava que destruir templos bastava para apagar Deus, errou. A destruição do templo apenas desloca o sagrado para o campo do político, do simbólico e do sacrificial. O atentado deixa de ser crime e passa a ser liturgia da dor, vingança e resistência. 

Como Jean-Paul Sartre tentou mostrar ao comentar o atentado terrorista de Munique em 1972, em nome da opressão e do genocídio que “Israel” vem organizando logisticamente, que faria Adolf Eichmann ficar orgulhoso, há momentos em que a violência deixa de ser um simples ato de barbárie para tornar-se linguagem extrema de resistência.  Sartre não justificava o assassinato de inocentes, mas compreendia que, quando todos os meios de expressão são negados, a pólvora torna-se discurso. Não se trata de romantizar o terror, mas de reconhecer sua genealogia. O fundamentalismo, nesse sentido, é a sombra do Ocidente. Onde a modernidade pornográfica exibe seus corpos, sua velocidade e sua eficiência, o sagrado retorna como ferida aberta. O véu torna-se antídoto contra a exposição. O silêncio, contra a tagarelice digital. A submissão a Deus, contra a tirania da autoimagem. O martírio, contra o gozo vazio da performance. Estamos, assim, diante de uma contradição trágica: quanto mais o Ocidente capitaneado pelo Estado genocida de “Israel” avança com sua lógica pornográfica, mais prepara o terreno para o retorno explosivo do sagrado. O terror não é um acidente. Ele é uma resposta. Uma resposta trágica, equivocada, sim, mas profundamente enraizada na história que o próprio Ocidente escreveu com sangue, petróleo e pólvora.

* Filósofo, escritor e professor associado – Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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