“Eles nos deixam comer para que não morramos de fome diante das câmeras”

Para desviar a indignação internacional, a estratégia de "israel" é clara: manter controle suficiente para matar com impunidade e prover ajuda suficiente para parecer humano enquanto o faz.

04/08/2025

Palestinos caminham pelas ruas com sacos de farinha após a chegada de caminhões de ajuda humanitária pelo ponto de passagem de Kerem Shalom, controlado por Israel, no sul de Gaza, em Khan Yunis, em 24 de julho de 2025. (Abed Rahim Khatib/Flash90)

Por Mohammed R. Mhawish*

Nas últimas semanas, as imagens que saem de Gaza tornaram-se impossíveis de ignorar, até mesmo para os aliados mais ferrenhos de Israel. Crianças esqueléticas, recém-nascidos morrendo de desidratação e relatos de adultos desmaiando de fome ocuparam manchetes em todo o mundo. Mais de 100 organizações humanitárias de destaque assinaram uma declaração conjunta pedindo “ação decisiva” para pôr fim ao cerco, enquanto o Programa Mundial de Alimentos da ONU alertou que um terço dos habitantes de Gaza passa vários dias sem comer absolutamente nada. Até celebridades que não haviam dito uma palavra sobre o ataque contínuo de Israel a Gaza nos últimos dois anos sentiram-se compelidas a condenar sua fase mais recente.

Em resposta, vários governos ocidentais, normalmente relutantes em criticar Israel abertamente, começaram a emitir declarações de preocupação, exigindo fluxo irrestrito de ajuda humanitária. Reino Unido e França juntaram-se ao coro — esta última deu um passo além e anunciou que reconhecerá o Estado da Palestina — e até o presidente dos EUA, Donald Trump, agora denunciou o que descreveu como “fome real” em Gaza, em uma repreensão pública ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.

Há uma semana, diante da crescente pressão internacional, Israel anunciou várias medidas que, supostamente, visam aliviar a crise humanitária que ele mesmo criou: uma “pausa tática nas atividades militares” de 10 horas diárias dentro dos 13% do território de Gaza ainda acessíveis aos palestinos; a abertura de “rotas seguras” para permitir a entrada de mais caminhões de ajuda humanitária na Faixa; e a retomada dos lançamentos de ajuda aérea.

Qualquer afrouxamento do bloqueio israelense ao enclave deve ser bem-vindo, especialmente após uma semana em que dezenas de palestinos morreram de fome. No entanto, enquanto um renovado fluxo tímido de alimentos é conduzido por terra ou lançado do céu para 2 milhões de pessoas severamente desnutridas, o gesto parece menos uma ação de boa vontade por parte de Israel e mais uma recalibragem estratégica — um esforço para desviar a indignação internacional crescente e, assim, continuar aniquilando Gaza. Foi o que ministros israelenses admitiram abertamente em maio, quando Israel afrouxou ligeiramente o bloqueio total de dois meses sobre a Faixa, e é isso que estão repetindo agora.

A mudança de postura de Israel ocorreu apenas algumas horas após o colapso da mais recente rodada de negociações de cessar-fogo entre Israel e Hamas em Doha. Esse timing não foi coincidência: sem trégua à vista e com sua campanha militar se intensificando por toda Gaza, Israel precisava mudar a narrativa. Permitir a entrada de ajuda, por mais limitada que seja, foi concebido como uma forma de projetar responsabilidade, enquanto continua a perseguir o objetivo de tornar Gaza inabitável. A ajuda humanitária, nesse enquadramento, torna-se tanto um escudo contra críticas quanto mais um instrumento de dominação.

A tragédia é que até o mínimo indispensável agora é visto como misericórdia. Mas quando a ajuda só é permitida sob cerco, quando os alimentos vêm após os bombardeios e a destruição retoma assim que as pessoas terminam de comer, a estratégia dominante de Israel torna-se evidente: manter controle suficiente para matar sem consequências, e prover alívio suficiente para parecer humano enquanto o faz.

Embora o retorno da ajuda tenha sido anunciado como um salva-vidas, sua abrangência continua grotescamente insuficiente. Segundo a ONU, Gaza precisa de 600 a 800 caminhões de ajuda por dia para atender às necessidades básicas. Mas ontem*, primeiro dia do novo sistema, apenas 73 caminhões entraram na Faixa, junto com três lançamentos aéreos cuja carga total equivalia a apenas dois caminhões adicionais. Na prática, embora chamativos, os lançamentos aéreos mal arranham a superfície do necessário e frequentemente caem em áreas inseguras ou inacessíveis — chegando inclusive a matar palestinos quando os paraquedas não abriram corretamente.

E embora a comida tenha dominado as manchetes nas últimas semanas, outros pilares fundamentais da vida em Gaza também colapsaram, muitas vezes com muito menos atenção. A escassez de água atingiu níveis catastróficos depois que Israel colocou quase todas as usinas de dessalinização de Gaza fora de operação, seja bombardeando-as ou restringindo a entrada de combustível. As fontes de água subterrânea tornaram-se cada vez mais poluídas, e centenas de milhares dependem de água salobra, carregada de bactérias, que representa sérios riscos à saúde, especialmente para crianças. Agências da ONU alertaram que doenças transmitidas pela água já estão se espalhando em abrigos superlotados e campos de deslocados.

A eletricidade praticamente não existe. Desde outubro de 2023, a Faixa mergulhou numa escuridão quase total, com acesso esporádico a baterias solares ou geradores a combustível — que também estão secando por conta do cerco intensificado. Já a conectividade com a internet praticamente desapareceu: a já frágil infraestrutura de telecomunicações de Gaza foi dizimada pelos ataques e agora encontra-se inoperante, isolando as pessoas entre si e do resto do mundo. Alguns gazatinos encontraram soluções limitadas — usando chips E-SIM contrabandeados conectados a redes egípcias ou israelenses quando há sinal, ou compartilhando conexões satelitais escassas por meio de ONGs e equipes de imprensa. Esses breves sinais permitem apenas o envio de um áudio, uma imagem ou um vídeo curto.

Além disso, enquanto escrevo estas linhas, Israel continua matando dezenas de palestinos todos os dias nos pontos de distribuição de ajuda em Gaza, e tanques israelenses seguem avançando pelas regiões centrais da Faixa que, até agora, haviam sido poupadas dos piores bombardeios — comprimindo ainda mais os palestinos em uma fatia cada vez menor do território. Visto sob essa perspectiva, a aparente guinada de Israel quanto à ajuda humanitária muda muito pouco: a ajuda pode chegar, mas os projéteis também.

Para aqueles que suportam o peso do ataque israelense, o retorno da ajuda foi recebido como mera sobrevivência sob uma coleira. “Eles nos deixam comer para que não morramos de fome diante das câmeras”, me disse Nihal, uma mãe atualmente vivendo no campo de refugiados de Nuseirat, no centro de Gaza, que preferiu usar apenas seu primeiro nome. “Ainda dormimos com o som dos drones e acordamos com as explosões.”

O uso da fome como arma — e agora o uso seletivo da ajuda como válvula de pressão — está no centro da abordagem israelense. Num momento em que o mundo está mais horrorizado do que nunca com o que criou em Gaza, Israel espera se distanciar da percepção de crueldade deliberada — e talvez evitar consequências mais sérias por parte da Corte Internacional de Justiça e do Tribunal Penal Internacional — mesmo enquanto continua a impor políticas que produzem sofrimento em massa.

Essa mudança de política pode até ter êxito em reduzir temporariamente o volume da indignação global, à medida que Israel mais uma vez faz o mundo acreditar que está fazendo algo para ajudar, enquanto garante que nada de fato mude. Mas, embora as pessoas talvez comam hoje, o que é certo é que as bombas cairão amanhã.

* Publicado no portal +972 Magazine em 28/07/2025.

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