Ex-carcereiro israelense confirma prática de tortura contra reféns palestinos
Associated Press entrevistou testemunhas de abusos nas prisões, negligência médica e mortes, analisou os dados disponíveis e revisou relatórios de autópsias. Relatório de organização humanitária bate com as descobertas da agência
Waleed Husein Ali segura uma foto de seu filho, Mohammad, 45, que morreu sob custódia israelense no centro de detenção de Kishon (Foto AP/Majdi Mohammed)
Por Sam Mednick*
O número de palestinos morrendo sob custódia israelense aumentou para quase 100 desde o início da guerra em Gaza, segundo um relatório publicado na segunda-feira por um grupo de direitos humanos que afirma que violência sistemática e negação de cuidados médicos em prisões e centros de detenção contribuíram para muitas das mortes que examinou.
O quadro que emerge do relatório da Physicians for Human Rights–Israel é consistente com as descobertas da Associated Press, que entrevistou mais de uma dúzia de pessoas sobre abusos nas prisões, negligência médica e mortes, analisou os dados disponíveis e revisou relatórios de autópsias. A AP conversou com um ex-guarda e uma ex-enfermeira de uma prisão, um médico israelense que tratou prisioneiros desnutridos levados ao seu hospital, ex-detentos e seus familiares, além de advogados que os representam e grupos de direitos humanos.
O ex-guarda de uma prisão militar notória por seu tratamento severo de palestinos disse à AP que os detentos eram rotineiramente algemados com correntes e chutados e atingidos com cassetetes, e que a instalação havia sido apelidada de “cemitério” porque muitos prisioneiros estavam morrendo ali. Ele aceitou falar com a AP para chamar atenção à violência nas prisões israelenses e falou sob condição de anonimato por medo de represálias.
Das 98 mortes de prisioneiros documentadas pela PHRI desde o ataque de 7 de outubro de 2023, que desencadeou a guerra, 27 ocorreram em 2023, 50 em 2024 e 21 neste ano, sendo a mais recente em 2 de novembro. A PHRI afirma que o número real de mortos nesse período é “provavelmente significativamente maior”, observando que Israel se recusou a fornecer informações sobre centenas de palestinos detidos durante a guerra.
Menos de 30 palestinos morreram sob custódia israelense nos 10 anos anteriores à guerra, diz a PHRI. Mas, desde o início do conflito, a população carcerária mais do que dobrou, chegando a 11.000 pessoas, conforme indivíduos eram detidos principalmente em Gaza e na Cisjordânia. O número de prisioneiros morrendo cresceu numa taxa ainda mais rápida nesse período, mostram os dados da PHRI.
A PHRI documentou as mortes entrevistando ex-detentos e profissionais de saúde das prisões, examinando relatórios elaborados por médicos que observaram autópsias a pedido das famílias dos presos mortos e confirmando dezenas de fatalidades por meio de pedidos de acesso à informação.
“O ritmo alarmante com que pessoas são mortas sob custódia israelense revela um sistema que perdeu toda contenção moral e profissional”, disse Naji Abbas, diretor da PHRI.
No ano passado, o chefe do sistema prisional de Israel, o ministro da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir, vangloriou-se de ter degradado as condições das prisões ao mínimo legal. Sob pressão de grupos de direitos humanos, as condições melhoraram ligeiramente.
O Serviço Prisional de Israel disse que opera de acordo com a lei. Recusou-se a comentar o número de mortes e direcionou qualquer questionamento ao Exército israelense.
O Exército disse estar ciente de que alguns detentos morreram, incluindo pessoas com doenças preexistentes ou ferimentos relacionados ao combate. Mas o porta-voz militar, Nadav Shoshani, afirmou que o número de mortes no relatório da PHRI está inflado, embora tenha se recusado a dizer qual seria, segundo o Exército, o número real.
Segundo o Exército, alegações de abuso ou condições inadequadas são avaliadas, e aqueles que violam o código de conduta militar são punidos e às vezes submetidos a investigações criminais.
Guardas instruídos a reduzir o número de mortes
Embora hesitante no início, o ex-guarda da prisão militar de Sde Teiman, no sul de Israel, disse que acabou participando das agressões aos prisioneiros.
Numa manhã, no início da guerra de Israel contra o Hamas, o guarda chegou ao trabalho e viu um palestino imóvel deitado de lado no pátio; ainda assim, nenhum guarda correu para ver o que havia ocorrido com o homem, que estava morto.
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“Era meio que uma rotina, com o cara morto ali”, disse o guarda, que não sabia a causa da morte.
Os braços e pernas dos presos estavam sempre acorrentados, e eles eram espancados se se movessem ou falassem, disse o guarda, acrescentando que quase todos urinavam e defecavam em si mesmos em vez de pedir para usar o banheiro.
A ex-enfermeira de Sde Teiman disse que as correntes usadas para prender braços e pernas de muitos prisioneiros causavam ferimentos tão graves que alguns precisavam ter membros amputados. Ela falou sob condição de anonimato por medo de represália. Durante as várias semanas em que trabalhou ali, no início do ano passado, não viu ninguém morrer, mas disse que a equipe às vezes comentava sobre mortes de prisioneiros. Ela deixou o emprego porque não gostava do tratamento abusivo dado aos presos, disse.
O Exército afirmou que o uso prolongado de algemas é adotado apenas em casos excepcionais, quando há “considerações significativas de segurança”. Mesmo assim, a condição médica dos detidos é levada em conta, disse. Apenas alguns detidos de Gaza estão atualmente sendo submetidos a esse procedimento, acrescentou.
Segundo o guarda de Sde Teiman, que passou vários meses ali, os guardas foram instruídos por seus comandantes — que também participavam das agressões — de que precisavam reduzir o número de mortes.
Eventualmente, câmeras foram instaladas, o que ajudou a reduzir os abusos, disse ele. Vinte e nove prisioneiros morreram em Sde Teiman desde o início da guerra, segundo a PHRI.
No início deste ano, um soldado israelense foi condenado por abusar de palestinos em Sde Teiman e sentenciado a sete meses de prisão, segundo o Exército, que disse que isso demonstra que existe responsabilização.
Mas advogados de prisioneiros afirmam que Israel raramente conduz investigações sérias sobre denúncias de violência, o que alimenta o problema.
Num sinal do clima público, a principal advogada das Forças Armadas israelenses foi recentemente forçada a renunciar após admitir que aprovou o vazamento de um vídeo de vigilância relacionado a uma investigação sobre alegações de abuso sexual severo contra um palestino em Sde Teiman. O vazamento, destinado a defender a decisão de seu gabinete de processar guardas pelas supostas agressões, acabou provocando duras críticas de líderes israelenses linha-dura que simpatizavam com os guardas.
Vários soldados foram indiciados nesse caso, que ainda está pendente no tribunal militar.
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Negligência médica e abuso
É difícil determinar com certeza a causa da morte da maioria dos prisioneiros. Às vezes, a pedido das famílias, médicos recebiam permissão de Israel para assistir às autópsias e forneciam relatórios às famílias sobre o que viram.
Oito relatórios vistos pela AP mostraram um padrão de abuso físico e negligência médica.
Em um deles, um homem de 45 anos que morreu no centro de detenção de Kishon, Mohammad Husein Ali, apresentou múltiplos sinais de agressão física, provavelmente causando hemorragia cerebral, segundo o relatório. O possível uso excessivo de contenções também foi mencionado. Sua família disse que ele estava saudável antes de ser detido em sua casa na Cisjordânia. Ele morreu dentro de uma semana após ser preso.
Husein Ali já havia cumprido pena em uma prisão israelense depois de ser condenado por associação com militância, segundo sua família. Mas afirmaram que ele não tinha vínculos com militantes quando foi preso no ano passado.
Depois que Husein Ali foi levado, sua filha de 2 anos ficava olhando pela janela chamando pelo pai, disse sua esposa, Hadeel. “Ela dizia ‘baba, cadê o baba’, mas com o tempo parou de perguntar”, disse ela, enxugando as lágrimas.
A desnutrição foi um fator que contribuiu para pelo menos uma morte, segundo a PHRI, levando um garoto de 17 anos a morrer de fome.
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Em setembro, a Suprema Corte de Israel determinou que mais e melhores alimentos fossem servidos aos detentos palestinos. Grupos de direitos humanos dizem que a situação melhorou ligeiramente.
O Exército disse que os detentos recebem três refeições por dia, aprovadas por um nutricionista. Disse ainda que cada detido é examinado por um médico ao chegar e, aqueles que necessitam, são monitorados com consultas regulares.
Ex-prisioneiro não consegue esquecer o que testemunhou
Sariy Khuorieh, um advogado árabe-israelense de Haifa, disse que foi detido no início da guerra depois que Israel o acusou de incitar violência por meio de suas postagens nas redes sociais. Enquanto esteve na prisão de Megiddo por 10 dias, Khuorieh disse ter visto um homem morrer após repetidas agressões.
Khuorieh disse que o homem, um pai de quatro filhos de 33 anos da Cisjordânia, era espancado quase diariamente. O homem e alguns de seus familiares tinham laços estreitos com o Hamas, segundo um funcionário de segurança palestino e alguém que conhecia a família, ambos falando sob condição de anonimato por medo de represálias.
Na noite anterior à morte do homem, ele gritou de dor durante horas enquanto estava em confinamento solitário, disse Khuorieh, que engasgou ao relembrar o ocorrido. O homem pediu um médico repetidas vezes, mas nenhum apareceu, disse Khuorieh.
Um porta-voz do Serviço Prisional de Israel não quis comentar o caso.
Um relatório sobre a autópsia do homem, visto pela AP, disse que a causa da morte era inconclusiva, mas que havia sinais de hematomas antigos e novos, incluindo costelas quebradas. O relatório afirmou ser possível supor que a violência contribuiu para sua morte.
Quando os guardas abriram a cela do homem, chutaram e espancaram-no antes de chamar um médico que tentou reanimá-lo e depois o declarou morto, disse Khuorieh, que afirmou ter conseguido ver o que acontecia pela pequena janela da porta de sua cela.
Depois que o homem foi declarado morto, Khuorieh disse que um dos oficiais riu e disse: havia “pelo menos um a menos” para cuidar.
* Correspondente da Associated Press para “israel” e a Palestina. Ela se concentra em conflito, crises humanitárias e violações de direitos humanos. Mednick anteriormente cobriu a África Ocidental e Central e o Sudão do Sul. Reportagem pulicada pela AP em 17/11/2025.
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