Exportações agrícolas israelenses enfrentam colapso iminente à medida que o mundo rejeita produtos por causa do genocídio em Gaza
Agricultores israelenses alertam que o setor de exportação agrícola do país enfrenta um iminente “colapso” devido à oposição internacional ao genocídio em Gaza. Relatórios recentes mostram o impacto do boicote a "israel" e por que a “marca” israelense talvez nunca se recupere.
Mercado de frutas em Tel Aviv, janeiro de 2016. (Foto: Dr. Avishai Teicher/Wikimedia Commons)
Por Jonathan Ofir*
Nos últimos meses, a emissora pública de Israel exibiu várias reportagens sobre o enorme problema do país para exportar frutas, particularmente para os mercados europeus.
Divulgadas pela Kan 11, as reportagens indicam aquilo que os próprios produtores descrevem como um iminente “colapso”, testemunhando involuntariamente a importância do boicote internacional contínuo a Israel.
Agora Israel se encontra ao lado da Rússia na “aliança dos boicotados”, afirma uma das reportagens da emissora pública. É difícil identificar um único responsável por esse estado de isolamento, mas a Europa é uma grande parte da história.
“Eles não querem nossas mangas”, diz um produtor de mangas à Kan 11 em uma das reportagens. “Na Europa, eles só falam conosco se estiver faltando alguma coisa. Só então compram de nós. Se têm uma alternativa, evitam.”
Outra parte da história é o Ansar Allah do Iêmen, mais conhecido como “os Houthis”. O bloqueio do Mar Vermelho ao sul — apesar do acordo firmado em maio com os EUA, que não deixaram de ameaçar Israel — forçou as companhias de navegação a usar rotas mais longas e mais caras. Isso também comprometeu o mercado asiático.
Mas, apesar da ausência de um único fator claro, o genocídio de Israel em Gaza permanece como uma causa comum evidente que atravessa os diversos elementos. Os israelenses simultaneamente o negam e declaram apoio a ele, como evidenciado por uma grande pesquisa no ano passado mostrando que uma vasta maioria dos israelenses acredita que “não há inocentes em Gaza”.
Devido à autojustificação nacional israelense — e ao senso de direito de cometer genocídio sob o pretexto de “autodefesa” — a primeira vítima da crise de exportação é o ego coletivo israelense. Vemos agricultores chorarem na reportagem, e a simpatia nacional vai naturalmente para os produtores de cítricos e mangas — mesmo quando um deles, um general aposentado, diz a todos como está “farto” dos palestinos.
Em outras palavras, a reação israelense contra o boicote global implicitamente se soma ao ódio aos palestinos, desprezando aqueles que não se alinham com Israel.
Mas o que de fato está sofrendo em Israel não é um setor econômico ou outro — é a marca israelense, e ela talvez não se recupere.
Ironicamente, a melhor representação dessa marca são as “laranjas Jaffa”, que praticamente desapareceram do mercado internacional — uma marca que, por si só, é uma representação da expropriação colonial de assentamento israelense da cultura palestina.
Vejamos duas reportagens principais da mídia, uma sobre cítricos e outra sobre mangas, que constituem duas grandes exportações agrícolas israelenses.
‘Onde estão as laranjas?’
A primeira reportagem da Kan 11, exibida no fim de novembro de 2025 e intitulada “Fim da Temporada das Laranjas” — em referência a uma canção popular israelense — concentra-se nos pomares de cítricos do kibutz Givat Haim Ichud. Por acaso, esse é o kibutz onde nasci e fui criado.
O pomar fica localizado próximo ao ponto onde ainda podem ser encontrados os cactos da aldeia etnicamente limpa de Khirbet al-Manshiyya. O responsável pelo cultivo do pomar do kibutz, Nitzan Weisberg, explica que todos os pomares correm o risco de ser arrancados devido à falta de encomendas para exportação.
Weisberg começou a administrar as plantações do kibutz há dois anos e inicialmente cortou metade dos pomares de cítricos numa tentativa de tornar o setor novamente lucrativo.
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Mas então as encomendas da Europa começaram a ser canceladas, e agora ele não consegue sequer vender a produção da metade de pomar que restou. “A fruta israelense, apesar de sua alta qualidade, atualmente é menos desejada na Europa”, diz ele. “Estamos, na verdade, operando no prejuízo desde a guerra [em Gaza].”
Se a situação piorar, diz Weisberg, isso levará ao “colapso”.
O tour continua logo do outro lado da estrada, nos pomares do kibutz Ein Hahoresh, onde nasceu o historiador israelense Benny Morris. Ali, Gal Alon, um produtor de cítricos de terceira geração, fala sobre como sua família decidiu não exportar nada desde o início da guerra. A exportação é “um mundo muito duro e agressivo”, diz ele, por isso decidiu depender exclusivamente dos mercados locais.
A equipe então dirige cerca de três quilômetros para oeste até Hibat Zion, um moshav (assentamento agrícola), onde o agricultor Ronen Alfasi está negociando o preço das toranjas com um comerciante que quer vendê-las aos mercados de Gaza. Alfasi diz que os produtos embalados serão caros demais para que eles comprem, embora seus armazéns e câmaras frigoríficas estejam cheios. Ele mostra que os frutos nas árvores ultrapassaram o limite de tamanho e serão inúteis para venda como fruta, quanto mais para exportação. Terão de ser vendidos localmente para suco.
O relatório também observa que quase não se cultivam laranjas. Há algumas, mas apenas para os mercados locais. A marca “laranja Jaffa” é história, mas essa marca foi tornada mundialmente famosa por agricultores palestinos em meados do século XIX, recebendo o nome da cidade portuária de Jaffa que a exportava — uma cidade que foi quase inteiramente etnicamente limpa por milícias sionistas em 1948. Israel então se apropriou da marca, parte da mesma apropriação cultural que considera o húmus e o falafel como israelenses.
“Antes da guerra, exportávamos algumas [laranjas] para a Escandinávia”, diz Daniel Klusky, secretário-geral da Organização dos Produtores de Cítricos de Israel. “Mas depois da guerra, não exportamos sequer um único contêiner.”
‘Aliança dos boicotados’
Ronen Alfasi diz que a maior parte da produção de seu setor costumava ser exportada para países asiáticos, mas menciona o “problema logístico contra os Houthis” como a razão pela qual “todas as linhas logísticas mudaram”. Rotas mais longas e caras foram buscadas, diz Alfasi, com contêineres chegando com 90 a 100 dias de atraso. “E chegaram com grandes problemas de qualidade”, descreve.
O único mercado restante, diz Alfasi, é a Rússia. Embora esteja perdendo dinheiro como produtor de cítricos, ele exporta para a Rússia apenas para cobrir os custos de armazenamento.
Em determinado momento, o entrevistador faz uma pergunta desconfortável: “Podemos dizer que a Rússia é o único mercado que ainda fala conosco?”
“Eles ainda falam conosco”, diz Alfasi, “mas na Europa, menos… eles só falam conosco se estiver faltando alguma coisa. Se têm uma alternativa, evitam comprar de nós.”
“E foi dito explicitamente que é por causa de… da situação nacional de Israel?”, pergunta o entrevistador de forma mais direta.
“Sim”, diz Alfasi claramente.
“Então os europeus não nos consideram, e os asiáticos estão bloqueados. Pelo menos os russos ainda compram alguns produtos de nós — a aliança dos boicotados”, conclui o entrevistador.
Mangas apodrecendo
O quadro foi semelhante em outra reportagem da Kan, do fim de agosto de 2025, sobre a colheita de mangas no norte. Nela, aparece um general aposentado e ex-porta-voz militar, Moti Almoz, agora produtor de mangas. Ele é visto dando ordens aos trabalhadores enquanto usa jargão militar.
A fruta parece boa o suficiente, mas a temporada é, ainda assim, “uma das mais difíceis já enfrentadas pelos produtores de manga em Israel”, descreve o narrador. “Eles estão falando de um colapso real.”
Almoz diz que isso não se deve a uma produção ruim — ele teve “uma colheita insana” nesta temporada, sustenta — mas sim porque “25% dela está no chão”.
“Por que você não colheu?”, pergunta o entrevistador.
“Porque eu não podia fazer nada com elas. Depois que a geladeira está cheia, e depois que os comerciantes pegam o que encomendaram… o povo de Israel também precisa comer carne, um pouco de pão e queijo. Eles não podem comer só manga.”
Muitos mercados de agricultores para produtores de manga foram fechados este ano, diz a reportagem, e Almoz observa que está perdendo centenas de milhares de shekels, enquanto as grandes fazendas estão perdendo milhões.
Dodi Matalon, agricultor dos pomares de manga compartilhados dos kibutzim de Moran e Lotem, diz que neste ano eles nem sequer estão enviando frutas aos armazéns porque não será lucrativo. Em vez disso, as pessoas chegam em seus próprios carros e compram caixas diretamente do pomar. “Espero que isso nos ajude apenas a nos manter à tona”, comenta Matalon. “Mas não vai realmente nos salvar.”
De 1.200 toneladas de fruta, 700 permanecerão nas árvores, cairão no chão e apodrecerão. “É uma crise como nunca experimentamos”, explica Matalon.
Então vem o enquadramento do narrador. Coma a outra reportagem, esta também alude ao genocídio. “Esta crise foi formada por uma combinação de vários fatores que ocorreram simultaneamente — e a maioria está relacionada à guerra”, diz o narrador. “Gaza, que representava 15% do mercado, foi completamente fechada. Os palestinos da Cisjordânia também compram muito menos. Mas o grande golpe veio do exterior: 30% das mangas israelenses vão para exportação, especialmente para a Europa — mas neste ano, os portos começaram a fechar.”
“Por causa da guerra em Gaza, eles estão reduzindo a escala de compras de Israel”, diz Almoz. “Eles não querem nossas mangas.”
Matalon diz que na Europa há “pequenos sinais indicando de onde o produto veio”, observando que “podemos ver que isso tem efeito”.
Ele acredita que o estado deteriorado da agricultura de exportação israelense exige intervenção governamental se o setor quiser ser salvo, ou então, alerta, “simplesmente nos encontraremos sem agricultura de exportação”.
Preferir quebrar a vender para Gaza
O narrador diz que Almoz é um antigo militante do Partido Trabalhista, um “falcão da segurança” que se tornou ainda mais falcão após 7 de outubro. A posição predominante desse tipo de pessoa foi articulada pelo chefe do movimento kibutziano, Nir Meir, em março de 2024: “Muitos dos kibutzniks que vivenciaram 7 de outubro não suportam ouvir árabe e querem ver Gaza apagada.”
Almoz ecoa sentimentos semelhantes, sustentando que, após 7 de outubro, “precisamos repensar tudo, tudo. Eu era alguém que dizia que mais trabalhadores [palestinos] em Israel poderiam significar menos terror.”
“Você estava errado?”, perguntam-lhe.
“Claro, o que você quer dizer? Estou farto deles”, diz enfaticamente. “Você está falando com uma pessoa que está farta deles. Tudo o que você possa me dizer, que eles podem mudar… são contos de fadas…”
De fato, diz Almoz, ele não venderá para Gaza, mesmo que isso traga algum dinheiro. “Se há uma chance de eu perder dinheiro porque isso [a manga] se transforma em um interesse do Hamas, então eu preciso perder dinheiro.”
Matalon derramava lágrimas literais na reportagem, mas o senso geral de autojustiça em Israel o isolou, e a outros como ele, por enquanto, de ter de reconhecer que o genocídio tem um preço. Estes são os frutos amargos do genocídio.
* Músico, maestro e blogueiro/escritor israelense radicado na Dinamarca. Artigo publicado em 19/01/2026 no portal Mondoweiss.
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