“israel” assassina renomada ativista ambiental libanesa que se destacou por proteger tartarugas

Mona Khalil liderou durante décadas os esforços para proteger uma área de nidificação de tartarugas próxima à sua casa, no sul do país.

22/06/2026

Mona se destacou pelo trabalho de proteção de tartarugas. (Foto: AFP)

Por Oliver Holmes*

A ativista marinha libanesa Mona Khalil, que se tornou uma figura muito querida no país por seu esforço de décadas para proteger uma área de nidificação de tartarugas próxima à sua casa, morreu em decorrência dos ferimentos sofridos em um ataque israelense.

Khalil, de 76 anos, administrava um santuário chamado Orange House Project, perto da cidade mediterrânea de Tiro. Ela recebia voluntários em sua casa para limpar e monitorar uma praia de cerca de 1,6 quilômetro de extensão e acolhia turistas interessados em aprender sobre conservação ambiental.

Um ataque aéreo israelense atingiu sua casa no início deste mês, ferindo gravemente Khalil, que foi transferida para uma unidade de terapia intensiva em Beirute antes de sucumbir aos ferimentos na sexta-feira, segundo amigos. Sua assistente, uma mulher etíope, sofreu queimaduras, mas estava se recuperando.

Durante a guerra civil libanesa de 1975 a 1990, Khalil mudou-se para os Países Baixos. Ela retornou às terras de sua família em 1999, quando teve um encontro casual, certa noite, com uma tartaruga cavando um ninho na areia da praia.

Khalil pintou a casa de laranja para combinar com a cor nacional dos Países Baixos, que, segundo ela, lhe haviam dado refúgio em um momento de necessidade, e iniciou um projeto de proteção e ecoturismo voltado para as tartarugas-cabeçudas e as tartarugas-verdes, que nidificam ao longo da costa sul do Líbano.

Os turistas estrangeiros precisavam coordenar suas viagens com as forças armadas libanesas, já que a pousada ficava em uma área que Israel havia repetidamente invadido e ocupado. Aqueles que conseguiam autorização hospedavam-se na idílica residência de Khalil, cujo pátio florido frequentemente estava repleto de cães e gatos resgatados. A praia ficava a apenas uma curta caminhada por entre plantações de banana.

Os frequentes cortes de energia elétrica e a ausência de ar-condicionado levaram alguns visitantes a deixar avaliações negativas na internet, embora a maioria fosse extremamente elogiosa, pois Khalil oferecia algo que outras pousadas não podiam proporcionar: a oportunidade de testemunhar e ajudar no nascimento de filhotes de tartaruga e de participar da proteção dessas populações vulneráveis.

Os esforços de conservação marinha de Khalil inicialmente despertaram resistência entre alguns moradores locais, incluindo incorporadores imobiliários e pescadores que utilizavam pesca com dinamite, prática contra a qual ela lutou com sucesso. Sua casa também foi atingida por bombardeios israelenses durante a guerra de 2006 com o Hezbollah.

Apesar das repetidas invasões israelenses, Khalil permaneceu em sua casa. Em uma entrevista concedida em 2017, afirmou que não havia perdido a esperança na conservação das tartarugas e que continuaria seu trabalho indefinidamente. “Enquanto Deus me der vida”, disse.

O grupo libanês de conservação da vida selvagem Green Southerners lamentou a perda de uma ativista ambiental que, segundo a organização, inspirou gerações de libaneses a valorizar e proteger seus ecossistemas.

“Seu trabalho fez dela uma das vozes mais respeitadas do Líbano na conservação marinha e na proteção da biodiversidade”, afirmou o grupo em comunicado.

“A Green Southerners condena veementemente o ataque que tirou a vida de Mona Khalil e feriu sua assistente. O ataque teve como alvo um local há muito conhecido por seu trabalho de conservação ambiental, proteção da biodiversidade e conscientização pública. Sua morte é um lembrete contundente do impacto devastador que os ataques israelenses continuam a impor aos civis, aos defensores do meio ambiente e ao patrimônio natural que eles procuravam proteger.”

A Live Love Beirut, uma organização social voltada para questões ambientais, afirmou que Khalil será “lembrada por meio de um legado extraordinário”.

“Sua vida foi altruísta e impactante”, declarou o grupo. “Que ela descanse em paz e que o trabalho pelo qual se dedicou tão profundamente continue por muitas gerações.”

* Oliver Holmes é jornalista do The Guardian. Já foi correspondente em Jerusalém e enviado especial pelo Oriente Médio e Ásia. Reportagem publicada no Guardian em 20/06/2026.

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