“israel” promove um genocídio reprodutivo contra mães palestinas em Gaza

A destruição sistemática da assistência materna em Gaza levou a abortos espontâneos, mortes neonatais e partos negados — um tema amplamente ausente das campanhas globais sobre violência de gênero

07/01/2026

Uma mãe palestina lamenta a morte de sua filha bebê, Rahaf Abu Jazar, que morreu de exposição ao frio em um acampamento de tendas para pessoas deslocadas, durante seu funeral no Hospital Nasser, em Khan Younis, no sul de Gaza, em 11 de dezembro de 2025 (Ramadan Abed/Reuters).

Por Amira Nimerawi*

A primeira vez que o homem que hoje é meu marido me disse que me amava, eu estava a caminho do Campo de Refugiados de al-Arroub, na Cisjordânia ocupada, para atender pessoas que as forças israelenses acabavam de atacar.

Ele havia me enviado uma mensagem de voz e, em meio ao caos dentro da ambulância, eu a ouvia repetidamente, tentando perceber se ele realmente tinha dito “eu te amo” no final.

A sirene soava enquanto meus colegas debatiam com urgência quais estradas ainda estavam abertas e se conseguiríamos chegar ao campo. Eu estava tão concentrada naquele pequeno e delicado momento que não percebi o perigo até ele atingir minhas narinas. A ardência foi imediata, queimando minha garganta e meus olhos. Havíamos sido atingidos por gás lacrimogêneo.

Abrimos as portas da ambulância esperando pânico, mas encontramos mulheres de pé, calmamente, com os olhos lacrimejando por causa dos vapores. Nenhum grito. Nenhum caos. Apenas resignação silenciosa. Aquilo não era novidade para elas. Era rotina.

Aquele momento me ensinou algo que nunca mais esqueci: na Palestina, nem mesmo os menores e mais íntimos momentos podem simplesmente existir por si sós.

Eles acontecem dentro da violência do ocupante, uma presença constante.

Percebi como o anormal se normaliza com facilidade; como até eu, dentro de uma ambulância a caminho de um ataque, havia por instantes me desligado na suavidade da vida comum.

Só quando o gás atingiu meus pulmões compreendi novamente aquilo que as mulheres palestinas conhecem bem demais: sob ocupação, o cotidiano nunca é apenas cotidiano.

Assistência obstruída

Visito regularmente a Cisjordânia desde 2003.

Um episódio ocorrido no início da Segunda Intifada permanece comigo: uma ambulância teve a entrada negada.

Na época, todas as principais estradas estavam fechadas. Um grupo de nós — mulheres, crianças e idosos — ficou retido nos arredores de Belém, aguardando qualquer transporte que pudesse nos levar em direção a Hebron.

De onde estávamos, observamos uma ambulância tentar passar por um posto de controle com uma mulher em necessidade urgente de atendimento. Os soldados recusaram. A ambulância parou para nos perguntar se alguma estrada ainda estava aberta e depois seguiu viagem, esperando alcançar um hospital em outro lugar. Momentos depois, um jipe militar avançou em nossa direção, e os soldados ordenaram que todos se dispersassem a pé por um terreno não demarcado.

Foi ali que compreendi o quanto a assistência à saúde na Palestina está submetida ao poder militar e quão rapidamente a vida comum pode se tornar perigosa.

Desde 2018, por meio do meu trabalho com as clínicas móveis da Sociedade Palestina de Socorro Médico (PMRS), tenho viajado a vilarejos onde o acesso a cuidados reprodutivos depende não da necessidade médica, mas de postos de controle e de fechamentos militares imprevisíveis.

Já fui assediada em postos de controle simplesmente por tentar prestar atendimento de saúde. Vi colegas mulheres serem submetidas a revistas corporais agressivas e degradantes.

Em comunidades como Khan al-Ahmar, testemunhei mulheres sendo agredidas durante demolições, com seus hijabs arrancados de suas cabeças. Vi jovens palestinas abandonarem os estudos ou o trabalho porque o deslocamento diário por zonas militares se tornou perigoso demais.

E há ainda a violência infligida não aos corpos das mulheres, mas aos seus filhos.

Nas minhas primeiras semanas vivendo em Belém, em 2018, o Campo de Refugiados de Dheisheh foi invadido. Um menino de 13 anos foi morto a tiros em sua cama.

Na manhã seguinte, observei sua mãe conduzir o cortejo fúnebre pela cidade — sua dor palpável, sua força inimaginável. A forma como ela caminhava, e a imagem dela carregando o pequeno corpo do filho cercada por vizinhos, estão gravadas em minha memória. A bala não atravessou seu corpo, mas destroçou sua vida.

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Violência contra crianças

Em Gaza, essa violência atingiu uma escala inimaginável. A dra. Alaa al-Najjar, médica, viu nove de seus dez filhos serem mortos em um ataque direcionado à sua casa. Ela sobreviveu. Eles não.

Não é apenas por meio de bombardeios que mães palestinas sofrem violência. A agressão contra seus filhos assume muitas formas, a qualquer momento — no trajeto para a escola, nas prisões, nos postos de controle, durante incursões noturnas, enquanto seus bebês deveriam estar dormindo em suas camas.

Estimativas da ONU e dados do exército israelense indicam que entre 38 mil e 55 mil crianças palestinas foram detidas sob a lei militar desde 1967.

Antes de outubro de 2023, cerca de 170 crianças estavam em detenção. Desde então, mais de 1.300 foram arbitrariamente presas, e ao menos 440 permanecem hoje ilegalmente encarceradas. Sua ausência devasta as famílias de maneiras que estatísticas jamais conseguem capturar.

Embora meu foco sejam as mulheres, a violência de gênero e o genocídio reprodutivo prejudicam homens, meninos e pessoas de todas as identidades de gênero. Mas, para as mães, a violência infligida a seus filhos é uma forma singularmente devastadora de dano generificado, raramente reconhecida no direito internacional ou nas políticas humanitárias.

Essa violência não fere as mães apenas por meio de seus corpos, mas por meio de seus corações e identidades. Ela reflete uma biopolítica colonial de assentamento que reduz as mulheres palestinas a vasos reprodutivos, ao mesmo tempo que desconsidera os mundos emocionais, relacionais e comunitários que definem sua humanidade.

É nesse cenário que mulheres palestinas tomam decisões sobre seus corpos e seus futuros.

Entre 2000 e 2004, quase 100 mulheres palestinas foram forçadas a dar à luz em postos de controle israelenses. Pelo menos 54 recém-nascidos morreram porque soldados atrasaram ou negaram a passagem. Esses foram sinais iniciais de como até o parto vinha sendo moldado pelo controle militar muito antes do genocídio atual.

Genocídio reprodutivo

O que está acontecendo agora em Gaza é muito mais extremo.

Um relatório recente da Comissão de Inquérito da ONU documenta a destruição sistemática dos serviços de saúde reprodutiva, a obstrução do cuidado materno e neonatal e o uso de violência sexual. Essas conclusões se alinham ao Artigo II(d) da Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio: “impor medidas destinadas a impedir nascimentos no seio do grupo”.

“Genocídio reprodutivo” não é uma categoria jurídica autônoma, mas descreve com precisão esse ato genocida específico: a destruição deliberada da capacidade reprodutiva de uma população.

O principal centro de fertilização in vitro de Gaza foi obliterado, junto com milhares de embriões. Alas de maternidade estão em ruínas. Bebês prematuros morrem por falta de eletricidade. Cesarianas são realizadas sem anestesia. Mais de 155 mil mulheres grávidas e lactantes enfrentam uma negação quase total de cuidados.

Desnutrição, desidratação, água contaminada e deslocamento constante estão causando abortos espontâneos e natimortos. Essas não são perdas incidentais. São os resultados previsíveis de políticas deliberadas.

Ainda assim, durante os 16 Dias de Ativismo — uma campanha global contra a violência de gênero — as mulheres palestinas permaneceram amplamente ausentes da discussão. Isso não foi um acaso. A violência contra mulheres palestinas é rotineiramente despolitizada, tratada como se existisse à parte da ocupação militar e do cerco.

Mas a violência de gênero na Palestina é inseparável da violência política: dos postos de controle que bloqueiam o acesso a hospitais, às bombas que destroem maternidades, às políticas de cerco que fazem corpos grávidos passarem fome.

A saúde reprodutiva não é uma questão secundária. É uma questão central de direitos humanos, e sua destruição é um indicador central de atrocidade.

Nas clínicas móveis da PMRS, trabalhei com parteiras que carregam comunidades inteiras nas costas. Sua coragem é extraordinária. Mas a resiliência não deve ser romantizada. Jamais deve ser exigida como substituto de direitos.

Se o mundo leva a sério o fim da violência de gênero, precisa nomear o que está acontecendo em Gaza: um ataque sistemático à vida reprodutiva. Precisa amplificar as vozes das mulheres palestinas e responsabilizar aqueles que destroem a infraestrutura de saúde reprodutiva. E precisa insistir que o direito de dar à luz com segurança e de criar um filho com dignidade é fundamental.

O destino de um povo está ligado ao destino de suas mulheres.

O que aconteceu naquela ambulância — a mudança instantânea da ternura para o gás, da intimidade para a sobrevivência — não é excepcional na Palestina. É o roubo do ordinário. E o ordinário é um direito.

Enquanto mulheres palestinas não puderem viver um dia que seja simplesmente um dia, livre de ocupação, colonização e violência que fratura cada momento, não poderá haver justiça significativa.

* Amira Nimerawi é uma profissional humanitária palestina e diretora-executiva da Health Workers 4 Palestine. Desde 2018, trabalha com a Sociedade Palestina de Socorro Médico (PMRS), apoiando suas clínicas móveis e atuando como especialista em impacto e programas. Ela viaja à Cisjordânia por motivos pessoais e profissionais desde 2003. Seu trabalho se concentra em atendimento de emergência, saúde reprodutiva e nos impactos generificados da ocupação israelense. Artigo publicado no Middle East Eye em 04/01/2026.

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