Na Cisjordânia, o vinho a serviço da colonização
Nos territórios ocupados da Cisjordânia, as vinhas se expandem cada vez mais. Produzidos em terras confiscadas dos palestinos, com o apoio constante de Tel Aviv, os vinhos israelenses prosperam e são exportados. Bastam alguns artifícios de dissimulação para que sua origem seja esquecida e eles sejam escoados no mercado europeu.
Plantação de vinho em Susya, Sul de Hebron, após colonos israelenses destruírem 200 videiras em agosto de 2025
Por Meriem Laribi e Marta Vidal*
As fileiras de vinhas recém-plantadas acompanham as colinas onduladas da paisagem árida. Perto dali, encontram-se uma bicicleta infantil abandonada, uma mala velha e uma bota empoeirada: vestígios de uma comunidade palestina recentemente expulsa por colonos israelenses. Um homem idoso, Issa Abu Al-Qabach, conhecido como Abu Safi, relata como foi expulso de sua casa em Khirbet Ar-Rathim. “Eles nos ameaçavam constantemente, todas as noites, todos os dias, todas as horas, nos humilhavam… Cinco deles me espancaram com seus fuzis M16, bem entre os olhos. Disseram: ‘Você vai morrer se não for embora, tem cinco dias para sair’.”
As colinas ao sul da cidade de Hebron estão entre as regiões onde a viticultura cresce mais rapidamente. À medida que os ataques se intensificam, as terras palestinas são esvaziadas, confiscadas e depois incorporadas aos assentamentos, abrindo caminho para a anexação da Cisjordânia por Israel. “Meu avô comprou esta terra de outra tribo na época otomana. Ela passou para meu pai e depois para nós… Vivíamos de suas colheitas, de suas bênçãos”, acrescenta Abu Safi. Mas hoje “tudo desapareceu… Estamos arruinados, dispersos… Eles nos arrancaram pela raiz”. Abu Safi faleceu alguns meses após essa entrevista. Seu caso ilustra a situação dramática vivida na Dheffa, na Cisjordânia. Khirbet Ar-Rathim faz parte das setenta comunidades palestinas deslocadas à força desde outubro de 2023. Nos últimos dois anos, mais de mil palestinos foram mortos e milhares ficaram feridos em ataques conduzidos pelo Exército israelense ou por colonos.
O governo investe maciçamente
O plantio de vinhas oferece aos colonos perspectivas econômicas, ao mesmo tempo em que impede o retorno dos palestinos às suas terras. Duas vinícolas instaladas na região de Hebron vendem suas garrafas no mercado francês: a La Forêt Blanche, fundada por um colono condenado pelo assassinato de três palestinos, e a Antipod, que opera no assentamento israelense de Kiryat Arba e comercializa sua produção sob três denominações: Jerusalem Winery, Noah Winery e Hevron Heights Winery.
Antes de fundar seu domínio vitivinícola, Menachem Livni — um dos dirigentes do grupo extremista Jewish Underground (HaMakhteret HaYehudit, em hebraico) — foi condenado pelo assassinato de três estudantes palestinos em Hebron e por ter ferido trinta e três pessoas em 1983. Também esteve envolvido em tentativas de assassinato de prefeitos palestinos na Cisjordânia e em um plano de atentado contra a mesquita Al-Aqsa, em Jerusalém. Condenado à prisão perpétua em 1985, foi libertado menos de sete anos depois graças a um indulto presidencial.
Ao deixar a prisão, lançou-se na viticultura na região de Hebron, fundando em 2003 a propriedade Livni Winery. Em seguida, associou-se a dois franceses, o enólogo Bruno Darmon e o empresário Yaacov (Jacques) Bris. Juntos, rebatizaram a propriedade, que em 2018 passou a se chamar La Forêt Blanche.
A propriedade de Menachem Livni não é um caso isolado: outras vinícolas da região também estão ligadas a colonos envolvidos em atos de violência contra palestinos. Documentos obtidos pela organização de monitoramento Kerem Navot revelam que a empresa Ba’al Hamon também cultiva vinhas nas colinas ao sul de Hebron. Entre seus acionistas está Shimon Ben Gigi, “coordenador de segurança” em Havat Maon, um posto avançado de colonos considerado ilegal até mesmo pela lei israelense. Ben Gigi foi processado por agressão e citado em múltiplos episódios de violência e assédio contra moradores palestinos.
As regiões vitivinícolas representam uma parte considerável dos territórios ocupados, sejam palestinos ou sírios. Segundo um relatório elaborado para o Conselho da Vinha em Israel, estima-se que a área de vinhedos no planalto ocupado do Golã seja de 1.320 hectares. Na Cisjordânia, é mais difícil avaliar a extensão das vinhas implantadas pelos colonos, pois Israel não faz distinção entre seu território reconhecido e o dos assentamentos. Ainda assim, de acordo com o Conselho, as colinas da Judeia — parte das quais fica além da “linha verde”, a demarcação reconhecida internacionalmente — estão entre as regiões vitivinícolas mais importantes, depois do Golã.
O pesquisador israelense Dror Etkes alerta: os números oficiais não refletem a real dimensão da agricultura colonial na Cisjordânia. “Há muitas apreensões de terras que não são registradas. Observa-se uma expansão nos últimos anos, especialmente em áreas como o sul de Hebron”, explica Etkes, que mapeou 1.300 hectares de vinhedos na Cisjordânia. Em seu laptop, ele mostra imagens aéreas que documentam a progressiva expropriação de camponeses palestinos ao longo das décadas.
Não muito longe de Ramallah, essa expansão colonial transformou profundamente a paisagem. Iman Hamayel recorda uma infância marcada pelos sons e sabores da terra de sua família em Jabal Al-Taweel (a “colina alta”), no município de Al-Bireh: “Minha mãe e eu íamos lá bem cedo, acompanhadas pelo canto dos pássaros. Cada uma levava um cesto e o enchíamos de figos. Na época da colheita, íamos apanhar azeitonas depois da escola. Era como uma festa. Depois, começaram a nos proibir de ir.”
No fim da década de 1990, os proprietários palestinos perderam o acesso às suas terras quando o assentamento de Psagot, criado em 1979 em terras de Al-Bireh, se expandiu gradualmente, apropriando-se de pomares e olivais. Desde 1967, Israel confiscou mais de 200 mil hectares de terras.
Imam Hamayel mostra um documento provando sua propriedade sobre a terra roubada por Psagot
Em 1998, Yaakov Berg, nascido na União Soviética e instalado com a família nesse assentamento ilegal, começou a plantar vinhas em terras confiscadas de palestinos. Cinco anos depois, durante a Segunda Intifada, enquanto fundava com a esposa a vinícola Psagot, o Exército israelense instalou uma cerca que impediu definitivamente os proprietários palestinos de acessar suas terras em Jabal Al-Taweel.
“Uma vez, minha mãe conseguiu se infiltrar para ver a terra… Eles arrancaram as oliveiras e as figueiras e plantaram vinhas”, continua Iman Hamayel. De forma totalmente ilegal, Yaakov Berg construiu uma casa com piscina nas terras palestinas espoliadas. Em 2003, a Administração Civil israelense da Cisjordânia emitiu contra ele uma ordem de demolição, que nunca foi executada. Sua vinícola, por sua vez, beneficiou-se do equivalente a mais de 1 milhão de euros em subsídios públicos. Também recebeu recursos da família americana Falic, que investiu mais de 1 milhão de dólares e se tornou acionista majoritária da Psagot. Seus vinhedos hoje se estendem por mais de oito hectares de terras palestinas.
Assim como a Psagot, muitas vinícolas situadas nos territórios ocupados se beneficiam de generosos subsídios, vantagens fiscais e acesso à água para irrigação fornecida pela empresa pública israelense. “O governo israelense em geral, e ainda mais o atual, investe maciçamente nesse sistema”, confirma Dror Etkes. Essas subvenções estatais e o apoio da família Falic permitiram que a Psagot passasse de pequena exploração a exportadora premiada. A vinícola dispõe hoje de um centro de recepção que oferece visitas, banquetes e eventos privados, além de uma confeitaria inaugurada recentemente. Segundo seu site, a vinícola “tem crescimento constante”, produzindo cerca de 1 milhão de garrafas de vinho, mais de 70% das quais são exportadas para todo o mundo — inclusive para a França.
Assim, nas prateleiras de um supermercado Hypercacher e em uma loja de vinhos nos subúrbios de Paris, garrafas com os rótulos La Forêt Blanche, Golan Heights Winery ou Jerusalem Winery ocupam lugar de destaque. Uma grande variedade de vinhos provenientes dos assentamentos também está disponível em vários sites na internet: Anavim, Mes Vins Cacher, La Route des Vins, Winess, Houra, La Bouteille Dorée e Vinoclub. Os rótulos invariavelmente asseguram ao comprador que trata-se de um “vinho de Israel”. Mais raramente o rótulo esclarece que é “feito nas Colinas de Golã, sob a jurisdição israelense”. Isso não tem nenhum significado legal, contudo, já que o direito internacional não reconhece a jurisdição israelense sobre esse território sírio anexado em 1981. Segundo a ONU, Golã permanece um território ocupado.
No corredor kosher do supermercado francês da grande rede de supermercados francesa Auchan é possível encontrar vinhos Recanati e Barkan. Embora os rótulos indiquem que são produzidos em propriedade israelense, as uvas vêm do Golã e da Cisjordânia ocupados. Um relatório do centro independente de pesquisa Who Profits revelou há 15 anos que Barkan tinha vinícolas na Cisjordânia e no Golã, enquanto Recanati lista em seu website vinícolas localizadas no Golã.
Disparam as exportações de vinho de Israel
Israel produz cerca de 45 milhões de garrafas de vinho por ano, e viu suas exportações duplicarem na última década, de acordo com o Instituto de Exportação de Israel, com a União Europeia importando quase um terço. A França, apesar de ser um dos maiores produtores de vinho do mundo, importa cerca de 600 mil litros de vinho israelense todos os anos, em um valor maior que 5 milhões de euros. Isso a torna o maior mercado para Israel na Europa, com cerca de 10% do total de exportações de vinho israelenses.
Como o principal parceiro comercial de Israel, a União Europeia compra cerca de um terço de suas exportações, enquanto o total do comércio bilateral em bens chega a aproximadamente 42 bilhões de euros por ano. Enfrentando desafios da sociedade civil e de organizações de direitos humanos, Bruxelas fez questão de mostrar conformidade com o direito internacional, enquanto protege os interesses de Israel o máximo que pode.
Desde 2004 os exportadores israelenses precisam providenciar um código postal indicando o local de produção, para que os bens originados de assentamentos não recebam tratamento preferencial sob o acordo comercial UE-Israel. Esse arranjo foi fortalecido em 2012 para assegurar que os acordos bilaterais não se apliquem ao Golã e Cisjordânia ocupados. Em 2013 a UE publicou uma diretriz adicional proibindo subsídios e empréstimos de assentamentos beneficiados. Na seção de perguntas frequentes publicada logo em seguida pela comissão europeia, aparece a seguinte questão: “Eu produzo vinho em um assentamento na Cisjordânia. Essas diretrizes vão afetar minhas exportações para o mercado europeu?” A resposta: “Não… Não há nenhum limite de exportações para a UE de produtos produzidos nos assentamentos. De acordo com o Acordo de Associação, esses produtos, contudo, não se beneficiam de isenções de direitos aduaneiros.”
Em 2015 a Comissão Europeia publicou uma notificação interpretativa pedindo aos estados membros que assegurassem que os produtos originados de assentamentos israelenses fossem rotulados como tais. A Corte de Justiça da União Europeia reforçou esse pedido em 2019, ordenando que os estados membros devem assegurar rotulagem diferente para produtos originados de assentamentos e proibindo que sejam vendidos como “produzidos em Israel”.
Em um relatório de 2014, François Dubuisson, professor de Direito Internacional na Université Libre de Bruxelles, argumentou que, sob suas obrigações internacionais, os estados membros da UE deveriam simplesmente banir os produtos vindos dos assentamentos. Esse ponto de vista foi confirmado dez abis depois pela Corte Internacional de Justiça em um parecer consultivo concluindo que os governos que autorizam comércio com assentamentos israelenses contribuem para sua continuidade e crescimento. Como Dubuisson pontuou, apenas indicar que um produto tem uma original ilegal não é suficiente: “É como se você rotulasse um produto ‘feito com trabalho infantil’ e então deixasse o consumidor escolher se quer ou não comprá-lo.”
A ação judicial do fundador de Psagot
Em 2016, descontente com o modo com que as diretrizes da UE estavam sendo aplicadas na França, o fundador da Psagot, Yaakov Berg, apresentou uma ação judicial. Apoiado pela Organização Judaica Europeia da França e pelo Conselho Representativo das Instituições Judaicas Francesas (CRIF), ele as chamou de “discriminação”. Mas o tiro saiu pela culatra: o Conselho de Estado da França levou o ao caso para a Corte de Justiça da UE, que considerou em 2019 que o rótulo “produzido em Israel” era errado porque ocultava o fato de que Israel age nesses territórios como um poder ocupante. A Corte apontou que especificar “assentamento israelense” no rótulo era necessário tanto eticamente quanto sob o ponto de vista do direito internacional. Seu advogado-geral inclusive se referiu ao precedente do boicote de produtos sul-africanos sob o Apartheid, enfatizando o direito dos consumidores europeus se recusarem a comprar certos produtos.
Mas mesmo essa medida simbólica de impor uma rótulo apropriado não tem sido respeitada. Um relatório do Projeto Europeu para o Oriente Médio (EuMEP) revelou em 2020 que apenas 10% dos vinhos produzidos na Cisjordânia e nas Colinas de Golã ocupadas eram vendidos com os rótulos corretos. Durante nossa investigação em 2025, não encontramos um único rótulo em conformidade com a lei entre as quase 300 garrafas de vinho que encontramos em duas lojas francesas e em cerca de uma dúzia de websites. A maioria era rotulada de “vinho de Israel”.
Além de enganar os consumidores, o rótulo “produto de Israel” permite que produtores de vinho dos territórios ocupados se beneficiem de tarifas preferenciais sob o Acordo de Associação UE-Israel? Uma fonte afirma que os direitos aduaneiros “estão reduzidos a zero”, mas apenas se o produto se originar de dentro das fronteiras reconhecidas internacionalmente de Israel. Na prática, contudo, as regulações sobre diferenciação territorial e rotulagem são ignoradas. A razão, como notado em um relatório de 80 organizações publicado no site da Oxfam, está na “evasão deliberada de produtores israelenses”, que misturam produtos de assentamentos com aqueles de dentro das fronteiras israelenses reconhecidas internacionalmente.
O endereço no rótulo das garrafas da Vinícola de Jerusalém vendidas na França não corresponde com sua localização real de produção no assentamento de Kiryat Arba, próximo a Hebron. Os documentos da companhia sugerem que ela pode estar usando o endereço de uma instalação de engarrafamento e seu registro administrativo esconde a origem daqueles vinhos na Cisjordânia.
“Por um lado, há uma fraude sendo realizada com uma perda total de cooperação por parte das autoridades israelenses e, por outro lado, insuficientes recursos alfandegários e uma complacência por parte da União Europeia. As autoridades europeias estão claramente tomando medidas que as permitem limpar a cara, para agir como se estivessem fazendo algo para implementar as regulações europeias… mas na realidade elas toleram o fato de que tudo é vago e o sistema é altamente ineficiente”, diz Dubuisson.
Em setembro de 2025, depois de dois anos de massacres e devastação em Gaza, a Comissão Europeia propôs suspender certas provisões comerciais do acordo com Israel, que tirariam de Israel parte de seu acesso preferencial ao mercado europeu e adicionaria aproximadamente 227 milhões de euros por ano em direitos aduaneiros. Mas sem uma maioria qualificada, a proposta nunca foi adiante. Na França, o deputado Aymeric Caron submeteu uma lei à Assembleia Nacional pedindo o banimento de importações dos assentamentos, mas, já que ela não foi colocada em votação durante o “dia da oposição” permitido ao seu grupo parlamentar (A França Insubmissa) em 27 de novembro de 2025, o texto tem poucas chances de ser debatido.
“Golã, uma Europa em Israel”
No final do século XIX, o banqueiro francês Barão Edmond de Rothschild, um fervoroso apoiador do movimento sionista, adquiriu terras na Palestina e importou variedades de uvas, na esperança de criar oportunidades econômicas para os colonos judeus. Para os pesquisadores israelenses Ariel Handel e Daniel Monterescu, esse desejo de modernizar a viticultura em assentamentos judeus foi inspirado nas ideias associadas à “missão de império civilizacional” da França, na qual o vinho era visto como um vetor de cultura e progresso. Apesar de considerável investimento, a empreitada não deu certo: as uvas francesas não conseguiram se adaptar ao clima e ao solo locais e os vinhos não puderam surtir um impacto nos mercados estrangeiros.
“Israel não era conhecido por seu vinho até o início dos anos 90, com a criação da Vinícola das Colinas de Golã”, diz Handel. O objetivo na época era reformular a imagem de Golã para que não aparecesse “mais como um território ocupado, associado com guerra e sangue, mas um tipo de Europa em Israel… Um lugar de turismo e bom gosto”. O papel do vinho na normalização da ocupação do Golã tem sido tão bem-sucedido que o modelo está agora sendo reproduzido pelos colonos na Cisjordânia. “Eles começaram a vender a Cisjordânia como uma nova Toscana: vinho e queijo, descanso e café da manhã”, afirma Handel. Visitas turísticas guiadas da rota do vinho nos territórios ocupados são oferecidas para turistas israelenses e estrangeiros e essa “lavagem do vinho” é promovida no TripAdvisor e em outras plataformas. Um anúncio para um “tour de vinho privado, desde das Colinas Judaicas até Jerusalém” promete “um dia de satisfação, relaxamento e apreciação da herança vinícola de Israel”, levando os visitantes à vinícola Psagot, dentre outras.
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Colonos produtores de vinhos prontamente se apresentaram como pioneiros “trazendo de volta a viticultura após 2.000 anos” e “revivendo” tradições bíblicas, como notou Monterescu. “A agricultura em geral, e a viticultura em particular, ocupa um lugar muito forte na cosmologia judaica”, explica. “Ela tem uma profunda ressonância cultural e religiosa. Portanto, é tanto um meio de expansão territorial e apropriação de terra quanto um indicador de enraizamento religioso.” Mencionado centenas de vezes na Bíblia, o vinho também aparece em numerosos sítios arqueológicos, alguns com prensas antigas sobreviventes. Produtores de vinhos messiânicos têm buscado estabelecer uma ligação direta entre a produção moderna e os tempos bíblicos.
Os produtores palestinos respondem que a produção local nunca desapareceu, mesmo que tenha declinado sob o governo islâmico por causa da proibição religiosa ao álcool. Fadi Batarseh é um enólogo na vinícola Cremisan, entre Jerusalém e Belém, fundada em 1885 por monges salesianos. Ele lembra que “mesmo antes do estabelecimento da Cremisan, muitas famílias cristãs produziam seu próprio vinho”.
As uvas permanecem uma das plantações que mais crescem na Palestina, e são comidas frescas ou processadas em passas, melaço, vinagre ou doces, enquanto as folhas de videira são colhidas para serem usadas em vários pratos locais. Batarseh também faz parte de um projeto que mapeia variedades de uvas originárias: “nós fizemos a análise genética e descobrimos que há 21 genótipos diferentes, quatro adequados para vinho – três brancos e um vermelho.” Em 2008 a Cremisan começou a produzir vinhos de variedades locais – Dabouki, Hamdani, Jandali e Baladi – que já venceram prêmios internacionais. Após esse sucesso, a vinícola israelense Recanati lançou um vinho similar em 2014, feito de uvas fornecidas por um produtor palestino próximo a Belém.
Guardiães de um conhecimento ancestral
Ao preservar essas variedades endêmicas, os fazendeiros palestinos se tornaram os guardiães de um conhecimento viticultural ancestral, observa Monterescu. Mas uma vez que as vinícolas israelenses ganham acesso a essas uvas, os produtores palestinos se tornam supérfluos. “Eles não precisam mais deles”, explica. “Hoje, uma multidão de produtores israelenses produz Dabouki, Jandali e Hamdani e vendem essas variedades originárias como “as antigas uvas bíblicas de Israel”.
Para Canaan Khoury, um produtor de vinho no vilarejo palestino de Taybeh na Cisjordânia ocupada, a apropriação dessas variedades por colonos alveja legitimar a ocupação. “Eu posso traçar a presença da minha família em Taybeh por 600 anos. É mais difícil para alguém que chegou de Nova Iorque alguns anos atrás justificar sua presença aqui.”
Enquanto os assentamentos vendem vinhos livremente, os produtores palestinos enfrentam restrições draconianas. “Não podemos importar ou exportar nada livremente… nos custa mais para transportar vinho de uma vinícola ao porto que do porto para Tóquio”, reclama Khoury. Para não mencionar a violência dos colonos e o roubo de recursos: “temos tido terra confiscada pelo exército, e os ataques de colonos são constantes… não temos acesso nem mesmo à nosso próprio fornecimento de água. Os israelenses o roubam de nós e nos vendem de volta em quantidades limitadas”, acrescenta. Poucas semanas após nossa conversa, colonos atacaram novamente e cortaram vários estoques de vinho.
Apesar desses ataques, Khoury e sua família continuam a plantar e colher uvas, produzir vinho e construir novas instalações. “Nós brincamos que estamos construindo para que os colonos possam tomar de nós”, diz ele com um sorriso irônico. O que o mantém ativo, nos conta, é sua ligação com a tradição familiar e a terra, e o desejo de oferecer a sua jovem filha um exemplo de resistência, enraizamento e luta por um futuro na Palestina.
* Meriem Laribi e Marta Vidal são jornalistas. A reportagem contou com o apoio da rede Jornalismo Investigativo para a Europa (IJ4EU), com informações adicionais de Omri Eran Vardi e do coletivo AIN. Publicada na edição de fevereiro de 2026 do Le Monde Diplomatique.
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