Novo muro do apartheid israelense ameaça milhares de famílias palestinas
"israel" já exerce controle direto sobre 60% da Cisjordânia ocupada, a Área C designada pelos Acordos de Oslo, onde se localizam centenas de assentamentos ilegais israelenses. Desde o início do genocídio em Gaza, o ritmo do roubo de terras por "israel" acelerou para o nível mais alto em décadas.
Abdullah Bisharat, chefe do conselho local de Atouf, uma das aldeias que serão afetadas, está de pé no traçado planejado do novo muro, segurando as ordens de demolição israelenses. (Foto: Zena Al Tahhan)
Por Zena Al Tahhan*
O exército israelense está construindo um muro de 22 quilômetros de extensão e uma estrada exclusiva para uso militar, com 50 metros de largura e acesso proibido, no interior da Cisjordânia ocupada — um projeto que cortará proprietários palestinos de milhões de metros quadrados de suas terras, deslocará comunidades agrícolas palestinas cujas construções serão demolidas e aprofundará a fragmentação da circulação entre partes do norte da Cisjordânia ocupada.
No fim de novembro e início de dezembro de 2025, forças israelenses começaram a emitir dezenas de ordens de demolição para casas, fazendas, estufas, currais, redes de água e outras estruturas ao longo do traçado planejado do novo trecho do muro, no norte do Vale do Jordão. Incontáveis palestinos e suas famílias que vivem dessas terras, sejam proprietários ou trabalhadores empregados, serão severamente afetados.
“O muro irá isolar grandes extensões de terras privadas, muito férteis. Estamos falando de cerca de 190 mil a 200 mil dunams [190–200 quilômetros quadrados] de terra que acabarão do outro lado do muro”, disse à The Electronic Intifada Abdullah Abu Rahmeh, diretor-geral do Departamento de Ação Popular da Comissão de Resistência ao Muro e aos Assentamentos.
Prevista para ser construída a cerca de 12 quilômetros a oeste da fronteira com a Jordânia, esta primeira fase do novo muro passará entre dois grandes postos de controle militares israelenses — Tayasir e Hamra — que controlam o movimento entre Jenin, Tubas e Nablus, no norte da Cisjordânia ocupada, e o Vale do Jordão, incluindo Jericó.
“Esta área é um elo vital entre o norte, o oeste e o leste da Cisjordânia ocupada. O acesso ao Vale do Jordão se tornará extremamente difícil, facilitando ainda mais o esvaziamento da região de seus habitantes”, afirmou Hussein Abu Hatab, membro do conselho local de Ein Shibli — uma das aldeias afetadas.
“Os agricultores que viajam de Tammun ou al-Faraa, em Tubas, para trabalhar no Vale do Jordão terão dificuldades para entrar e sair da área. Isso tornará então mais fácil para a ocupação confiscar [suas terras]”, disse ele à The Electronic Intifada.
Apropriação de terras “Carmesim”
O muro começará na aldeia de Ein Shibli, a leste de Nablus, e se estenderá para o norte até o posto de controle militar de Tayasir, a leste de Tubas. Ele cortará as terras das cidades e aldeias de Tubas, Tammun, Tayasir, Atouf, Yarza, Aqaba e Ein Shibli.
Também transformará as aldeias de Yarza e Ein Shibli em enclaves, sendo que a primeira ficará completamente cercada.
Segundo a mídia israelense, o novo trecho do muro integra o “Fio Carmesim” — nome dado pelo Ministério da Defesa do Estado ocupante a um projeto muito mais amplo, de US$ 1,7 bilhão, para um muro que, quando concluído, se estenderá por cerca de 500 quilômetros — das Colinas do Golã ocupadas, na fronteira com a Síria, ao norte, até o Mar Vermelho, próximo a Eilat, ao sul.
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Em comunicado, o Ministério da Defesa afirmou que o novo projeto visa “fortalecer a segurança nacional e o controle estratégico sobre a fronteira oriental”.
Os palestinos rejeitam a explicação de segurança como subterfúgio.
“O objetivo é claro. Trata-se de se apropriar dos recursos palestinos e separar os moradores de suas terras, para então confiscar e anexar essas áreas em benefício de colonos ilegais”, disse Abu Rahmeh.
As áreas visadas estão entre as mais importantes terras agrícolas da Cisjordânia ocupada. O Vale do Jordão situa-se no fundo de uma bacia geológica, onde, por milênios, cursos d’água sazonais provenientes das terras altas centrais depositaram sedimentos ricos em nutrientes, formando solos profundos e férteis e aquíferos subterrâneos. Situado bem abaixo do nível do mar, o vale também é mais quente do que o restante da Cisjordânia, permitindo estações de cultivo longas e produtivas.
Milhares de famílias afetadas
As vastas planícies de Tammun e Atouf — conhecidas localmente como a planície de al-Beqaia — estão entre as áreas que serão mais afetadas.
“Atouf e Tammun perderão cerca de 70% de suas terras — aproximadamente 65 quilômetros quadrados ficarão atrás do muro. Fomos aos tribunais israelenses, mas não sabemos qual será nosso destino”, disse à The Electronic Intifada Abdullah Bisharat, chefe do conselho local de Atouf.
“Aqui cresce de tudo. Temos plantações de banana que cobrem cerca de 1,5 milhão de metros quadrados. Temos nada menos que 1,5 milhão de metros quadrados de tomilho”, continuou. “Temos 2 milhões de metros quadrados de uvas, tanto em estufas quanto em campos abertos. Temos oliveiras, batatas e cebolas. Também temos tomates.”
A área, estimou Bisharat, sustenta “quatro a cinco mil famílias, se não mais”.
“Se tudo isso desaparecer, essas famílias serão devastadas.”
Israel já exerce controle direto sobre 60% da Cisjordânia ocupada, a Área C designada pelos Acordos de Oslo, onde se localizam centenas de assentamentos ilegais israelenses.
Esses assentamentos são servidos e protegidos por quase 800 obstáculos à circulação palestina, desde postos de controle até portões de estrada, além de bases militares, zonas de tiro de acesso proibido e “reservas naturais”.
Desde o início do genocídio de Israel em Gaza ocupada, o ritmo do roubo de terras israelense acelerou para o nível mais alto em décadas. Em 2024, o governo israelense declarou um total de 23,7 milhões de metros quadrados de terras da Cisjordânia como “terras do Estado”. Isso incluiu 12 milhões de metros quadrados apenas no Vale do Jordão — descritos como a maior confiscação única desde o início do processo de Oslo, em 1993.
Ao mesmo tempo, autoridades e ministros israelenses têm abandonado cada vez mais a linguagem de “ocupação temporária” por “segurança”, defendendo abertamente a anexação.
Figuras seniores do governo falaram explicitamente em garantir “o máximo de terra com o mínimo de palestinos”, enquadrando a expansão territorial como um objetivo demográfico claro.
“Prisão a céu aberto”
O novo muro começará em Ein Shibli, que será duplamente afetada — presa entre o posto de controle militar de Hamra e o novo muro.
“Ein Shibli ficará numa situação especial: um posto de controle no lado leste e um muro no lado oeste, transformando-a numa prisão a céu aberto”, disse Abu Hatab, do conselho local da aldeia.
Os moradores estão apreensivos.
“Os residentes aqui sentem profundo sofrimento psicológico e frustração”, disse Abu Hatab à The Electronic Intifada. “Será uma catástrofe para Ein Shibli. Criará uma crise na entrada da aldeia — com dificuldade para estudantes, pacientes e moradores entrarem e saírem. A estrada é pequena, e com um posto de controle haverá congestionamento e fechamento, selando efetivamente a aldeia.”
Grandes extensões de terras agrícolas privadas pertencentes a moradores de Ein Shibli também se tornarão inacessíveis quando o muro for construído, afirmou Abu Hatab.
O novo muro é um entre muitos desenvolvimentos perigosos ocorridos nos últimos dois anos na Cisjordânia ocupada, onde mais de 10 mil palestinos foram deslocados à força de suas casas, enquanto assentamentos e postos avançados israelenses ilegais em terras roubadas aumentam em ritmo acelerado.
“Trata-se de restringir a circulação e isolar os palestinos em centros populacionais sitiados, separados de seus recursos naturais e com seus meios de subsistência destruídos”, disse Abu Rahmeh.
“Eles estão empurrando as pessoas para as cidades e aldeias, em cantões fechados por portões que eles controlam.”
* Zena Al Tahhan é escritora independente e repórter de TV baseada em Jerusalém ocupada. Reportagem publicada em 15/01/2026 no portal The Electronic Intifada.
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