O genocídio em Gaza e o direito à verdade: os novos nazistas também incineram as evidências
Passados exatos oitenta anos das tentativas nazistas de destruir as provas de seus crimes, estamos testemunhando algo análogo em Gaza
Pelo menos 392 corpos foram recuperados no Complexo Médico Nasser, no sul da Faixa de Gaza en 2024 [AFP]
Por Fábio Bacila Sahd*
Percebendo a iminência da derrota, os nazistas começaram a destruir as evidências de seus crimes, recorrendo a valas coletivas, incinerando cadáveres e destruindo reminiscências dos campos de extermínio. Naquele contexto, foi dito às vítimas que, mesmo que sobrevivessem, ninguém acreditaria nelas, aumentando assim seu tormento. Afinal, além do extermínio concreto de milhões, os sobreviventes não teriam nem o direito à memória e à verdade.
Sobre esses direitos, o Plano Nacional de Direitos Humanos do Brasil (2009) afirma que a consciência sobre os acontecimentos, ou “resgatar sua verdade”, é fundamental para a construção da cidadania, transmissão da experiência e constituição da memória individual e coletiva, impedindo esquecimentos e silenciamentos cúmplices, que geram “graves lacunas na experiência coletiva”, que, por sua vez, favorecem “tentações totalitárias”. Portanto, o direito à memória e à verdade escudam as sociedades de negacionismos.
Desse modo, é necessário seguir falando sobre o que ocorre em Gaza. Trata-se do compartilhamento necessário de experiências de dor, violência e mortes para garantir o direito à memória e à verdade e que, assim, as vítimas não serão exterminadas pela segunda vez por meio da negação ou da distorção do ocorrido, que caracterizam a última etapa dos genocídios.
Passados exatos oitenta anos das tentativas nazistas de destruir as provas de seus crimes, estamos testemunhando algo análogo em Gaza. É a história se repetindo como catástrofe. Afinal, como compreender a persistente recusa do governo israelense de terminar a etapa exterminista do genocídio e se retirar da Faixa de Gaza? Talvez haja consenso em seu “gabinete de guerra” de permanecer não como tentativa de requentar projetos falidos de colonização de um território muito reduzido, amplamente habitado por “não judeus” e agora completamente devastado e ambientalmente comprometido, mas, sim, de permanecer para negar o direito à memória e à verdade, impedir que esta venha à tona, que saibamos a real dimensão do genocídio praticado.
A plausibilidade dessa hipótese é óbvia. Não passaram nem dois anos do início desse crime contra a humanidade e já há vários relatórios demonstrando seu cometimento pelo Estado de Israel e por parte de sua sociedade. Além das banalizadas incitações ao genocídio, milhares de fotos e de vídeos retratando a destruição e o cometimento diário de massacres em Gaza já circularam amplamente nas redes sociais e mesmo em canais hegemônicos de comunicação. Pessoas mortas por bombardeios, por sede, por fome, por doenças, em filas, em diferentes circunstâncias.
Inclusive, em abril de 2024 o escritório de direitos humanos da ONU, ACNUDH, noticiou que “relatos perturbadores continuam a surgir sobre valas comuns em Gaza, nas quais vítimas palestinas teriam sido encontradas nuas e com as mãos amarradas”. Um mês depois, a al-Jazeera reportou uma situação semelhante, apresentando uma foto muito ilustrativa, apesar das proibições israelenses do acesso ao território e da perseguição e morte de muitos jornalistas, a maior do gênero em todos os tempos.
Desde então outras valas coletivas foram encontradas, inclusive com corpos algemados e alvejados nas costas ou nuca, evidenciando assassinatos coletivos e o ocultamento das evidências. Ao menos três organizações criaram bancos de testemunhos: al-Mezan, Palestinian Center for Human Rights e B’Tselem. Esta última, em seu relatório sobre a fome intencional em Gaza usada como arma de guerra por Israel (o que equivale ao ato genocida de submeter a população a condições de vida que provoquem sua destruição, uma das condições expressamente descritas na Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio), traz testemunhos de massacres ocorridos justamente nos momentos de distribuição de ajuda humanitária, tornada rara ou indisponível de todo:
“Mas o que aconteceu na Praça al-Nabulsi, em 29 de fevereiro de 2024, é algo que jamais esquecerei. Fui lá com milhares de outras pessoas para buscar sacos de farinha e, quando chegamos perto dos caminhões, fomos alvo de fogo massivo. Muitas pessoas ficaram feridas pelos tiros e algumas foram mortas. Foi uma visão chocante. Horrível. O sangue pingou na farinha, e a frase ‘pão mergulhado em sangue’ se tornou realidade”.
Em outra publicação, a mencionada organização israelense afirma que “os poucos testemunhos que chegaram do norte de Gaza descrevem corpos enfileirados nas ruas, fome, indisponibilidade de água potável e civis sendo mortos quando bombas são lançadas sobre suas casas sem aviso ou enquanto fogem para salvar suas vidas”.
Seis militares israelenses foram entrevistados em uma reportagem da +972Magazine. Seus relatos conferem com os de palestinos e de especialistas da área da saúde. Como havia total liberdade de disparo, civis foram mortos sem que representassem qualquer risco aos militares, com seus corpos deixados nas ruas ou ocultados apenas de comissões de investigações. Segundo um dos relatos, uma família inteira foi fuzilada, simplesmente por ter errado a direção que era para evacuar. Casas foram incendiadas também por simples prazer, sendo um slogan comum “estou entediado, por isso atiro”. Inclusive a reportagem direciona para um vídeo de corpos soterrados na areia, com equipes profissionais trabalhando no local. Possivelmente mais uma vala coletiva.
Somente se reunidos, cruzados e analisados devidamente esses testemunhos, com amplo acesso ao território, acompanhados ainda dos relatórios, poderá se desvelar a real dimensão do genocídio em Gaza. É esse o ponto, inclusive reconhecido pela maior organização de direitos humanos do mundo, a Anistia Internacional, em seu denso relatório (“Você se sente como se fosse sub-humano: o genocídio israelense contra palestinos em Gaza”). Afinal, com as restrições de acesso e a desestruturação intencional do governo local, é impossível quantificar e qualificar devidamente os estragos humanos e materiais causados pelas forças israelenses.
A Anistia Internacional cita uma publicação, de julho de 2024, apontando que os dados das autoridades em Gaza subrepresentam a realidade, não sendo impossível que as mortes estivessem em torno de 186.000 ainda naquela data. Seguindo seu pressuposto de 4 mortes indiretas para cada morte direta contabilizada, o total poderia estar próximo de 300.000 em meados de 2025 (288 mil pelos números apresentados pelo do Escritório Central de Estatísticas Palestino, que utiliza como fonte o Ministério da Saúde da Palestina, e da ONU, colhidas por seu Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, OCHA, pela sigla em inglês).
Eis o ponto que pode revelar o provável motivo da continuidade indefinida da presença israelense. Como sua derrota militar não está iminente, como outrora esteve a dos nazistas originais, não há pressa. Cabe seguir dissimulando falsas investigações, falsa garantia de ajuda humanitária, falso combate ao “terror”. Segue em operação tanto a engrenagem retórica perversa do que chamamos de “negasionismo” em outra circunstância quanto a do genocídio, com mais e mais pessoas sendo exterminadas, seja diretamente em assassinatos em massa quase diários, seja indiretamente ou de modo “lento”, pela destruição das condições para que a vida seja reproduzida no território e pela imposição de indeléveis danos físicos e mentais.
Configuram-se, assim, três dos cinco atos genocidas expressamente descritos nessa convenção internacional e cujo cometimento já está suficientemente comprovado por relatores e comissões da ONU, além de organizações e acadêmicos. Logo, a retirada imediata de Israel de Gaza é fundamental não só para garantir a vida como, também, ao direito à verdade.
Por fim, qualquer perspectiva de um futuro justo deve, necessariamente, passar por uma justiça de transição, que apure o regime israelense de apartheid e sua recorrência ao ato desumano mais aberrante: o genocídio. A culpa não recai exclusivamente sobre um governo específico, mas sobre todo um regime de apartação racial, inaugurado com a fundação de um Estado racializado em 1948 por autoproclamação (Israel como Estado judeu e não de todos os seus cidadãos), que culminou no extermínio de parte da população palestina, possibilidade esta latente desde a fundação do sionismo como movimento colonial, portanto racista.
Colonialismo, apartheid e genocídio, três crimes raciais interligados: eis a correta causalidade da violência. Cabe enfatizar: são, literalmente, crimes contra a humanidade, logo, somos todos lesados por eles e devemos exigir seu término e a devida responsabilização.
*Fábio Bacila Sahd é doutor pelo programa interdisciplinar “Humanidades, direitos e outras legitimidades” da Universidade de São Paulo (USP), mestre em história pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), professor adjunto no Departamento de História da UFPR e secretário de Direitos Humanos e Solidariedade da FEPAL.
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