Documentos expõe relações de milícia sionista com a Alemanha nazista

Avraham "Yair" Stern e seus capangas do Lehi buscaram apoio de Adolf Hitler para expulsar judeus da Europa e enviá-los à Palestina

14/04/2026

Combatentes da milícia fascista sionista Lehi na década de 1940. (Foto: Wikimedia Commons CC BY 2.5)

Por Ofer Aderet*

Em maio de 1941, Eliyahu Golomb, fundador e comandante de fato da Haganah, o exército dos judeus na então Palestina sob Mandato Britânico, falou em um pequeno fórum: “Tenho informações… sobre suspeitas a respeito de um grupo de judeus que tem ligações com o inimigo”, disse. Na época, durante a Segunda Guerra Mundial, o inimigo a que ele se referia eram os alemães. “Segundo as informações, há um homem que contatou os alemães. Esse homem é conhecido; seu nome é S”, acrescentou.

“S” era Avraham “Yair” Stern, líder do Lehi, a milícia clandestina pré-estatal também conhecida como Grupo Stern. Ele havia se separado do Irgun porque acreditava que a luta contra os britânicos deveria continuar mesmo durante a guerra.

“A polícia já está falando de uma ‘quinta coluna’ judaica”, acrescentou Golomb, referindo-se à polícia britânica.

As observações de Golomb foram registradas em tempo real em um documento de inteligência da Haganah arquivado sob o título “Contatos com o Eixo”. O arquivo foi mantido nos arquivos das Forças de Defesa de Israel e depois transferido para os Arquivos do Estado. Há cerca de três anos, o Haaretz solicitou sua desclassificação. Ele foi recentemente digitalizado e disponibilizado.

A análise do arquivo oferece uma visão do material coletado pela Haganah, e posteriormente pelo Shin Bet e pelas Forças de Defesa de Israel, sobre as tentativas do Lehi de estabelecer vínculos com as potências do Eixo, Itália e Alemanha.

A ideia de recrutar a Alemanha nazista para ajudar a libertar a Palestina do domínio britânico [N.T.: e submetê-la ao domínio estadunidense e europeu através de ocupantes eurojudeus] foi concebida por Stern, que defendia uma resistência violenta intransigente contra os britânicos. Sua posição contrariava a da maioria da comunidade judaica, que havia suspendido sua luta contra a Grã-Bretanha para priorizar o combate à Alemanha.

Um documento descreve a ideologia de Stern da seguinte forma: “Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial… Stern argumentou que não há melhor momento para uma guerra de independência do que durante a guerra. As forças britânicas estão comprometidas… e seria possível superá-las. A questão da orientação parecia simples para ele.

“Os judeus são parte na guerra e, portanto, não podem ser neutros. A Grã-Bretanha traiu o povo judeu e jamais permitirá o estabelecimento de um Estado judeu. Por outro lado, a Alemanha não tem interesse especial na Palestina e, como os nazistas querem ‘limpar’ a Europa de judeus, nada é mais simples do que transferi-los para seu próprio Estado.”

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O documento acrescenta que Stern acreditava “ser possível chegar a um acordo prático com os alemães… deveriam ser abertas negociações, e os judeus da Europa deveriam ser recrutados para um exército especial que abriria caminho até a Palestina e a conquistaria dos britânicos. Os alemães, argumentava ele, concordariam porque isso os livraria dos judeus, ao mesmo tempo em que removeria os britânicos do Oriente Próximo.”

Outro documento observa que Stern acreditava haver duas correntes na Alemanha nazista em relação à comunidade judaica na Palestina. Uma defendia a aproximação com os árabes e apoiava a liderança do Mufti de Jerusalém, Hajj Amin al-Husseini, por considerar a comunidade judaica ali “mais perigosa do que qualquer outra comunidade judaica, já que era dotada de qualidades agressivas e desejo de liberdade”.

A outra corrente, segundo Stern, apoiava o fortalecimento do assentamento judaico por meio da vinda de judeus da Europa, acreditando que eles seriam gratos e ajudariam a Alemanha.

O arquivo que acompanha os contatos do Lehi com as potências do Eixo também inclui um documento escrito em 1949. Seu autor anônimo afirmou que esclareceu com Stern, em tempo real, o “fundamento ideológico” de sua posição. Segundo o autor, Stern disse:

“Daremos um jeito com os alemães depois que conquistarem a terra, assim como os soviéticos lidaram com eles quando necessário.”

Documentos adicionais afirmam que Stern aspirava “tomar o controle de toda a Eretz Yisrael pela força com a ajuda de uma potência estrangeira”, e que “é claro que ele considerou seriamente tornar-se um ‘Quisling judeu’, com a ajuda de uma potência estrangeira”. A referência é ao primeiro-ministro norueguês que colaborou com os nazistas e cujo nome se tornou sinônimo de traição.

Esses planos não eram meramente teóricos. Pesquisas históricas documentam várias tentativas de emissários do Lehi de contatar autoridades alemãs. Uma delas resultou em um documento propondo “parceria ativa” com a Alemanha na guerra, baseada em “interesses comuns entre a política alemã e as aspirações nacionais judaicas”. Também sugeria que um Estado judeu formaria uma aliança com o Reich alemão.

Esses contatos não tiveram sucesso, mas a Haganah os monitorou de perto.

O arquivo também registra outras declarações de Golomb em 1941, em dois fóruns fechados: “Não há dúvida de que houve uma tentativa de contato com os alemães, e é possível que tenham prometido algo, talvez uma força policial judaica interna.” Ele acrescentou que o governo britânico havia obtido material que poderia ser usado politicamente contra a comunidade judaica. “Vários judeus foram presos, suspeitos de ligações ou tentativas de ligação com italianos ou alemães, muito provavelmente com os alemães.”

Golomb também se referiu a um panfleto interno do Lehi explicando a ideologia: “A Grã-Bretanha é traidora. Quem decidiu que o lado oposto deve necessariamente ser contra os judeus? Em todo caso, os judeus devem conduzir uma política independente e se conectar com quem for conveniente.”

Na mesma reunião, Zalman Shazar, que mais tarde se tornaria ministro da Educação e presidente do Estado, também estava presente.

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“Conversei com alguém que leu esse panfleto, e ele me transmitiu seu conteúdo”, relatou. “Os nazistas são de fato contra os judeus, mas seu ódio é dirigido aos judeus da diáspora. Não há oposição no programa nazista a um Judenstaat (um Estado judeu).”

O arquivo também menciona Naftali Lubenchik, membro do Lehi que foi enviado para se encontrar com representantes alemães. Um documento escrito em 1951 afirma que ele acreditava que “o Eixo não busca a destruição física do povo judeu, mas sim sua expulsão da Europa e sua concentração em um único lugar…”

Acrescenta ainda que ele procurou “provar aos formuladores de políticas do Eixo que valeria a pena designar a Eretz Yisrael como esse local de concentração, obtendo assim a amizade do povo hebreu, que se alistaria para esse fim na guerra contra a Inglaterra.”

Lubenchik morreu em 1946 na Eritreia, para onde havia sido exilado pelos britânicos. Ele é lembrado no memorial Yizkor como um dos mortos de Israel. O site observa que seus contatos com os alemães tinham como objetivo “salvar os judeus da Europa e concentrá-los territorialmente na Terra de Israel.”

O arquivo também inclui declarações de dois líderes do Lehi apoiando tentativas de estabelecer vínculos com os nazistas.

Natan Yellin-Mor, então conhecido como Natan Friedman e futuro membro do Knesset, escreveu em 1943: “A Alemanha ainda não foi derrotada e pode ainda se tornar nossa aliada.”

Israel Eldad, que, segundo o site memorial do Lehi, era “membro do comitê central do Lehi e seu principal ideólogo e intelectual público”, foi citado em 1949 dizendo: “Yair agiu corretamente, e estava justificado ao buscar um aliado contra a Grã-Bretanha, assim como a União Soviética agiu em seus próprios interesses ao se aliar à Alemanha nazista para não ser abandonada pela Grã-Bretanha.”

Os contatos do Lehi com os nazistas acabaram não resultando em nada. O próprio Stern foi morto pelos britânicos em 1942 e, no fim, como afirma um dos documentos do arquivo, “nada resultou disso”.

* Jornalista e repórter do jornal israelense Haaretz desde 2007. Reportagem publicada no Haaretz em 14/04/2026.

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