A farsa do Conselho de Trump: exclui a Palestina e recompensa “israel”
Criado para “pacificar” Gaza, o órgão nasce sem representação palestina, dá assento ao agressor e tenta substituir a ONU por um clube de poder e impunidade.
Trump batizou de “Conselho de Paz” aquilo que, na prática, é uma usurpação do direito internacional travestida de governança. O nome é uma fraude: não é um instrumento de paz, é um instrumento de mando. Não nasce para mediar — nasce para substituir, atropelar, contornar, impor. E a primeira prova de que o projeto é moralmente podre e politicamente criminoso é simples, brutal e incontornável: não há palestinos à mesa.
O desenho do Conselho para tratar Gaza foi anunciado sem a participação palestina institucional. A Autoridade Nacional Palestina não foi convidada. Israel, ao contrário, foi chamado e aceitou. Isso não é “falha protocolar”. É o DNA do projeto: o povo destruído vira objeto administrativo; o Estado que destruiu vira “parceiro” de reconstrução. A vítima é silenciada; o agressor é premiado com cadeira.
Chamam isso de “paz” para tentar embalar como diplomacia o que, no fundo, é colonialismo com gravata.
Uma ONU de pedágio: pague, sente-se, obedeça
O Conselho não se limita a Gaza. Ele vem com a ambição explícita de ser uma espécie de ONU paralela — só que sem Carta, sem regras, sem compromisso real com direitos humanos e, sobretudo, sem o inconveniente da igualdade formal entre Estados. Em vez disso, apresenta-se como um clube de “membros relevantes”, com a lógica do dinheiro e do alinhamento político.
O simbolismo é revelador: assento permanente mediante contribuição bilionária. Isso transforma a política internacional em condomínio de luxo: quem paga entra, quem não paga assiste. O multilateralismo, que já sofre com a desigualdade estrutural, vira oficialmente uma vitrine de compra e venda de influência.
E o que sustenta esse edifício é uma ideia antiga, reembalada com brutalidade contemporânea: a paz como produto, administrada por quem tem poder militar e financeiro para impor condições. Não é mediação. É tutela.
Gaza como “negócio”: ruínas como ativo, corpos como detalhe
A “paz” de Trump para Gaza veio acompanhada do que realmente importa para esse projeto: um imaginário imobiliário. Fala-se em “reconstrução” como se fosse uma página em branco para designers e investidores — com megaempreendimentos, zonas turísticas, arranha-céus, porto, aeroporto, corredores logísticos, parques industriais. A linguagem é de prospecto: “oportunidade”, “modernização”, “revitalização”. A tragédia humana vira rodapé.
Mas Gaza não é um lote à disposição do capital. Gaza é um território massacrado, uma sociedade pulverizada por bombardeios, cerco e fome. E aqui está o ponto moral que o Conselho tenta enterrar: reconstrução sem justiça é continuação da violência por outros meios. Você não “reconstrói” um povo sob o mesmo sistema que o destruiu. Você não “planeja” um futuro apagando quem vive ali.
A reconstrução apresentada como vitrine global — sem soberania palestina, sem autodeterminação, sem garantias concretas — é, na melhor hipótese, um protetorado. Na pior, é a institucionalização do saque: transformar a catástrofe em projeto e o projeto em lucro.
Paz sem palestinos: o crime político que revela o fascínio autoritário
A ausência palestina não é detalhe técnico; é a confissão do objetivo. Um Conselho que pretende “resolver” Gaza sem palestinos não quer construir paz — quer administrar a submissão. Quer produzir um resultado conveniente aos patrocinadores do poder: um território “estável” para negócios e segurança, com população domesticada, dependente, tutelada, sem voz, sem veto, sem direito real de decidir.
Esse é o ponto em que o impulso autoritário de Trump aparece sem disfarce: a tentativa de substituir a ONU não é “inovação”, é repulsa a limites. A ONU, com todas as suas contradições, ainda carrega uma ideia perigosa para autocratas: a de que existem regras, direitos, responsabilidades, obrigações humanitárias, constrangimentos morais e jurídicos. Trump detesta isso. O que ele quer é o mundo como sala de negociações onde ele preside, define, ameaça, premia e pune.
E quando esse método se projeta para o planeta, ele adquire forma: um autoritarismo internacional, uma diplomacia de “homem forte”, em que a legitimidade não vem do direito — vem do porrete e do cheque.
Israel: o agressor recompensado, o genocídio embrulhado como “paz”
Nenhuma palavra sobre esse Conselho é honesta se não encarar o essencial: o que Israel fez em Gaza é genocídio — uma campanha de destruição que esmagou a vida civil, tratou a população como alvo coletivo. E isso não é só um veredito moral: está sob investigação no Tribunal Penal Internacional que apura o crime de genocídio. Diante disso, o “homem da paz” não aparece como mediador: aparece como fiador político da impunidade, tentando rebatizar a catástrofe como “reconstrução” e transformar o genocídio em vitrine diplomática. E Trump — agora fantasiado de “homem da paz” — foi peça decisiva na blindagem política desse massacre. O Conselho surge como o próximo estágio da impunidade: depois da devastação, vem a “administração” do pós-devastação. Depois da destruição, vem a propaganda. Depois do terror, vem a legitimação: o agressor sentado à mesa e o agredido mantido do lado de fora.
A presença de Israel e a exclusão palestina não são apenas imorais: são uma declaração de guerra à própria ideia de justiça. É como propor um “conselho de paz” para uma casa incendiada convidando o incendiário para decidir a reforma — e proibindo os moradores de entrar na reunião.
Se isso é paz, então a palavra perdeu o sentido.
A “nova fase” do imperialismo: mais desesperadora, mais bruta, mais cínica
Esse Conselho não é um episódio isolado. Ele se conecta a um padrão: quando o império perde capacidade de liderança por consenso e legitimidade, ele tenta liderar por coerção, chantagem e espetáculo. A política externa vira show de força, ameaça tarifária, imposição de “soluções” feitas sob medida para aliados estratégicos e interesses corporativos.
É a diplomacia do pedágio e do ultimato. É a substituição do diálogo por pressões. É a normalização do cinismo como método de governo global.
E isso, paradoxalmente, revela decadência. Um poder seguro de si não precisa transformar a ordem internacional em franquia pessoal. Não precisa vender cadeira. Não precisa criar estruturas paralelas para escapar de regras. Esse tipo de brutalidade é sintoma de quem já não consegue sustentar hegemonia pela autoridade moral — e tenta sustentar pela força nua.
O que esse Conselho realmente é
O “Conselho de Paz” de Trump é:
Uma tentativa de privatizar a diplomacia e colocar a governança internacional em regime de assinatura.
Uma operação de apagamento palestino, transformando o povo palestino em problema logístico, não em sujeito de direitos.
Uma recompensa a Israel, que sai do massacre não com sanção e responsabilização, mas com convite e protagonismo.
Um ataque à ONU e ao que resta de freios multilaterais, para substituir regras por vontade presidencial.
Um retrato do imperialismo em fase mais agressiva, porque mais inseguro, mais contestado, mais incapaz de liderar sem violência política.
Paz de verdade começa pelo óbvio: palestinos com voz, veto e soberania sobre o próprio destino; fim do cerco e da ocupação; responsabilização por crimes; reconstrução sob direitos — não sob tutela; vida civil protegida, não tratada como dano colateral aceitável.
O resto é propaganda. E propaganda, quando vem acompanhada de exclusão, impunidade e prêmio ao agressor, não é só mentira: é cumplicidade.