Genocídio televisionado: o assassinato de jornalistas palestinos e a vergonha da mídia
Em 10 de agosto de 2025, o jornalista palestino Anas Al-Sharif, correspondente da Al Jazeera, foi assassinado em um ataque aéreo deliberado da entidade ocupante israelense. Ele não estava sozinho: cinco colegas jornalistas, incluindo Muhammad Qreiqeh, Ibrahim Zaher, Mohammed Noufal e Moamen Aliwa, também foram assassinados, junto a um familiar de Anas que tentava documentar o cotidiano da cidade sob bombardeios. O ataque atingiu uma tenda de jornalistas próxima ao Hospital Al-Shifa, um espaço reconhecido como zona civil e humanitária. Com essa ação, toda a equipe da Al Jazeera na Cidade de Gaza foi exterminada.
Quinze dias depois, em 25 de agosto de 2025, a cena voltou a se repetir em escala ainda mais brutal: um ataque duplo (“double-tap”) contra o Hospital Nasser, em Khan Younis, matou cinco jornalistas durante transmissão ao vivo, além de médicos, pacientes e equipes de resgate.
Entre os assassinados estavam:
- Hussam al-Masri, repórter da Reuters;
- Mariam Dagga, fotógrafa freelancer da Associated Press;
- Ahmed al-Banna, correspondente da Al Jazeera;
- Sami Abu Daqqa, cinegrafista independente;
- Omar Shaheen, repórter de uma rádio comunitária local.
O primeiro míssil atingiu o quarto andar do hospital, atingindo pacientes. Minutos depois, uma segunda explosão atingiu diretamente jornalistas, socorristas e médicos já no local. A cena, captada em transmissões ao vivo, deixou explícita, mais uma vez, a lógica da perseguição: cada câmera ligada em Gaza é transformada em alvo, cada transmissão em sentença de morte.
Este assassinato não foi um acidente isolado. Ele é parte de uma política deliberada de extermínio da imprensa palestina, que já vitimou 245 jornalistas desde outubro de 2023 — a maior matança de jornalistas dos genocídios e guerras contemporâneas, segundo o último relatório da FEPAL. Durante toda a Segunda Guerra Mundial, em seis anos, foram assassinados 69 jornalistas. Se aplicada a mesma escala atual de Gaza, seriam 183 mil jornalistas mortos no mesmo período, ou 265 mil na Europa considerando a demografia da Segunda Guerra. O massacre é quase 2.600 vezes maior do que o registrado no período hitleriano, o que revela o caráter sistemático da atual política de silenciamento da imprensa palestina.
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O objetivo é claro: silenciar testemunhas e apagar provas. Matar jornalistas é parte da estratégia do genocídio, porque eles são quem documentam, registram e revelam a verdade ao mundo. Ao exterminá-los, não apenas se elimina a voz que denuncia, mas se destrói a possibilidade de documentar o crime, numa tentativa deliberada de eliminar evidências históricas.
Relatórios internacionais expõem como essa política é sistemática: uma unidade militar israelense, conhecida como “legitimisation cell”, foi criada para difamar jornalistas palestinos, acusando-os falsamente de vínculos com o Hamas, de modo a justificar assassinatos e reduzir a indignação global. O bloqueio absoluto à entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza concentra toda a cobertura nos profissionais locais, transformando-os em alvos estratégicos enquanto a narrativa oficial é imposta sem contestação. Muitos foram mortos usando coletes de imprensa claramente identificados, o que prova que não eram vítimas do acaso, mas alvos deliberados. Organizações como PCHR e Al Mezan denunciam que há uma política planejada de destruir a imprensa palestina, bombardeando escritórios, casas de jornalistas e até tendas de imprensa, tudo para espalhar medo e silenciar testemunhas.
O genocídio palestino é o primeiro da era digital a ser transmitido ao vivo pelas próprias vítimas. Cada câmera ligada em Gaza é uma ameaça à continuidade do massacre, porque transforma a barbárie em evidência diante do mundo. É por isso que eliminar jornalistas não é apenas eliminar pessoas: é tentar assassinar a própria memória, impedir que a história seja documentada e garantir que, sem provas, reste apenas a versão dos opressores.
O Holocausto Palestino televisionado
Desde 7 de outubro de 2023, a Faixa de Gaza enfrenta uma escalada contínua de violência sistemática. Até 15 de agosto de 2025, as estimativas apontam para 73.951 palestinos assassinados, número que inclui 11,2 mil desaparecidos sob os escombros e representa 3,32% da população de Gaza no início da ofensiva. Para se ter dimensão, no Brasil isso equivaleria a 7,1 milhões de mortos, enquanto na Europa seriam 25 milhões. Se aplicada a mesma taxa aos seis anos da Segunda Guerra Mundial, o número chegaria a 82 milhões, superando os até 70 milhões da guerra mais mortífera da história.
Estudos apontam que os números reais podem ser ainda mais devastadores. A revista The Lancet alertou que, para cada morte direta em Gaza, outras quatro ocorreriam de forma indireta por fome, doenças ou ferimentos, o que elevaria o total a 314 mil mortos, ou 14% da população. Outro estudo, de Michael Spagat em parceria com Khalil Shikaki, indicou que até janeiro de 2025 já haviam morrido 83.740 pessoas em Gaza. Já o professor israelense Yaakov Garb estimou 177 mil exterminados, metade deles crianças, confirmando que os números oficiais subestimam a magnitude do genocídio.
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Entre as vítimas, 22.882 crianças foram assassinadas, incluindo 4 mil soterradas nos escombros. Isso equivale a 10.306 crianças mortas por milhão de habitantes em menos de dois anos, taxa quase quatro vezes superior à da Segunda Guerra Mundial. Mais de 40 mil ficaram órfãs, sendo 17 mil privadas de pai e mãe.
As mulheres também foram alvos diretos: 13.100 foram assassinadas, incluindo ao menos mil grávidas, configurando duplo extermínio. A taxa de abortos involuntários aumentou 300%, e estima-se que entre 50 e 60 mil palestinas tenham de dar à luz nos próximos meses em condições de fome, sem hospitais, medicamentos ou saneamento. O genocídio já provocou uma queda de 41% na taxa de natalidade em Gaza no primeiro semestre de 2025 em comparação ao mesmo período de 2024.
Entre os idosos, 4.412 foram exterminados. Profissionais que sustentam a vida também foram alvos: 1.411 trabalhadores da saúde foram assassinados, 1.500 ficaram gravemente feridos ou mutilados e ao menos 500 foram sequestrados e torturados em prisões israelenses. Funcionários humanitários sofreram o maior massacre da história: 203 integrantes da ONU foram assassinados, além de 113 membros da defesa civil.
A destruição de Gaza alcança 80% de toda a infraestrutura, com 92% das residências arrasadas. São quase 193 mil edifícios destruídos ou danificados, o equivalente a quatro vezes a cidade de São Paulo. Mais de 12 mil estudantes foram mortos, 20 mil feridos, quase mil professores assassinados e mais de 400 escolas e universidades destruídas. Cerca de 620 mil alunos e 88 mil universitários estão impedidos de estudar há quase dois anos.
Ao todo, 163.559 palestinos ficaram feridos, a maioria mulheres e crianças, o que representa 7,35% da população de Gaza. Essa mutilação em massa demonstra a intenção de transformar a sociedade palestina em um corpo coletivo inválido. A expectativa de vida caiu de 75,5 anos para 36 anos entre homens e 44 entre mulheres, um colapso sem precedentes.
Mais de 85 mil toneladas de explosivos foram lançados sobre Gaza, seis vezes a carga da bomba de Hiroshima, superando até os bombardeios de Dresden, Hamburgo e Londres na Segunda Guerra Mundial.
Essas cifras confirmam que não se trata de uma “ofensiva militar”, mas de um genocídio em larga escala, um Holocausto Palestino televisionado diante dos olhos do mundo, naturalizado por uma mídia internacional que se recusa a reconhecer a gravidade histórica do crime.
A cumplicidade da mídia internacional
A imprensa ocidental, especialmente grandes conglomerados como The New York Times e BBC, tem sido denunciada por sua cobertura enviesada e pela omissão diante do genocídio em Gaza. Reportagem da FEPAL mostrou como esses dois veículos, entre os mais influentes do mundo, atuam de forma cúmplice: enquanto suavizam o termo “genocídio” para descrever os massacres em Gaza, dão espaço desproporcional à versão oficial israelense, legitimando a narrativa militar que busca justificar a eliminação de civis e jornalistas.
Esse padrão não é exceção, mas regra. Em novembro de 2024, a Folha de S. Paulo repercutiu a denúncia de uma jornalista palestina, Shahd Safi: “A mídia é cúmplice do genocídio contra os palestinos”. Ela ressaltou como grandes jornais e redes de TV tratam o extermínio em Gaza como “conflito” ou “guerra”, evitando a palavra genocídio, ao mesmo tempo em que criminalizam as vítimas palestinas e normalizam as justificativas israelenses.
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Essa seletividade linguística é parte do processo de desumanização: mortos palestinos são reduzidos a números ou descritos como “escudos humanos”, enquanto mortos israelenses recebem tratamento de histórias individuais, humanizadas e carregadas de emoção.
Além disso, há um componente de dependência estrutural: muitos veículos internacionais operam sob forte influência de lobbies políticos e pressões econômicas. O Guardian revelou em agosto de 2025 a existência de uma célula militar israelense dedicada a ligar jornalistas palestinos ao Hamas, moldando o discurso internacional e justificando ataques letais. Se a propaganda oficial israelense encontra eco nas maiores redações do planeta, isso significa que não apenas o massacre é televisionado, mas também que sua justificativa é industrialmente produzida e reproduzida pela mídia global.
Essa cumplicidade é perigosa porque opera em silêncio. Não se trata de defender “israel” abertamente, mas de organizar o esquecimento: escolher quais imagens chegam às telas, quais vozes são amplificadas e quais são descartadas. A consequência é a naturalização de um genocídio que, sem essa blindagem midiática, já teria provocado mobilizações internacionais comparáveis às que ocorreram contra o apartheid na África do Sul.
O padrão de perseguição
O assassinato de jornalistas palestinos não é uma ocorrência isolada, mas parte de um padrão sistemático de intimidação, silenciamento e impunidade. O uso de equipamentos de proteção, como coletes e capacetes marcados com “PRESS”, que antes ofereciam algum grau de segurança, passaram a expor os profissionais a ataques deliberados. Em junho de 2024, uma investigação do Le Monde revelou que pelo menos 108 jornalistas haviam sido mortos desde outubro de 2023, muitos atingidos enquanto transmitiam ou buscavam sinal — “o colete de imprensa agora nos põe em perigo”, afirmaram repórteres.
Em janeiro de 2024, os jornalistas Hamza al-Dahdouh e Mustafa Thuraya foram mortos em Rafah durante fuga após um ataque inicial no qual haviam ficado feridos — o carro em que estavam foi atingido enquanto buscavam socorro, conforme documentado por Al-Haq, PCHR e Al Mezan. A perseguição também ocorre no campo da propaganda. Em agosto de 2025, veio a público a existência da chamada “legitimisation cell”, uma unidade militar israelense encarregada de difamar jornalistas como militantes do Hamas para justificar assassinatos e moldar a percepção internacional.
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Esse cerco opera em diversas frentes: bloqueio de entrada a repórteres estrangeiros, prisões administrativas sem acusações formais, 76 jornalistas palestinos sequestrados em “israel”, dos quais 50 permanecem em masmorras de tortura, perseguição por veículos militares, destruição de equipamentos e ataques até mesmo sob cobertura de identificação de imprensa na Cisjordânia e Gaza.
O caso de Shireen Abu Akleh mostra que essa política não é nova. A jornalista palestino-americana da Al Jazeera foi assassinada em maio de 2022, em Jenin, enquanto cobria uma incursão militar. Vestia colete de imprensa e capacete, mas foi alvejada na cabeça por disparos israelenses. “israel” negou envolvimento, depois alegou “erro”, mas nunca responsabilizou ninguém. Relatórios independentes, como o da Forensic Architecture, apontam que ela foi deliberadamente alvejada e negada de socorro médico. Sua morte tornou-se símbolo da impunidade: até hoje, ninguém foi processado.
Como resumiu o El País, “Israel assassina as testemunhas em Gaza”: quando não consegue impedir que a realidade seja filmada, persegue, criminaliza e elimina quem a registra. Essa é a essência do padrão: silenciar quem prova.
Autocensura e a vergonha da imprensa brasileira
Se no exterior o silêncio e a distorção já configuram cumplicidade, no Brasil a cobertura é marcada por um padrão estrutural de autocensura, alinhamento político e até assessoria de imagem. Em julho de 2024, o Brasil de Fato publicou um editorial perguntando se o Brasil estava “contra ou a favor do genocídio palestino”. A questão não era retórica: ao analisar a cobertura da grande imprensa, o texto mostrou como manchetes brasileiras esvaziam a gravidade histórica do crime, preferindo termos como “conflito” ou “ofensiva” — ocultando a palavra genocídio, como se nomear fosse crime.
O Observatório da Imprensa analisou dezenas de reportagens de Globo, Folha, Estadão e CNN Brasil e concluiu que o enquadramento da cobertura é quase sempre favorável a “israel”, ainda que de forma indireta. As vítimas palestinas são citadas como “mortos” ou “feridos” sem contexto, enquanto os comunicados oficiais israelenses são reproduzidos como explicação legítima.
O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (SJSP) foi enfático: a grande imprensa brasileira é cúmplice do genocídio por repetir versões oficiais sem checagem e por silenciar vozes palestinas no debate público. A Jacobin Brasil reforçou: “a cumplicidade brasileira com o genocídio tem de acabar”, lembrando que a mídia nacional não é neutra, mas parte de uma estrutura de poder que legitima a violência colonial contra palestinos.
Esse padrão se expressa de forma mais explícita na Rede Globo, acusada pela FEPAL de exercer um papel de assessoria de comunicação a “israel”, ajudando a moldar uma narrativa que minimiza crimes de guerra e normaliza o extermínio. Em 2025, a mesma entidade denunciou a Globo em congresso internacional por censurar vozes palestinas e impedir que especialistas e jornalistas independentes aparecessem em seus programas.
Esse controle da narrativa não se limita à grande mídia televisiva. Plataformas digitais como YouTube também têm colaborado para silenciar críticas. O canal do Brasil 247, que denunciava o genocídio em Gaza, foi excluído sob alegações vagas de “violar diretrizes”, fato que a FEPAL classificou como parte de uma “ditadura global da comunicação”.
O Intercept Brasil também destacou outro traço específico da imprensa brasileira: sua capacidade de usar o genocídio palestino como instrumento de política doméstica. Segundo reportagem de fevereiro de 2024, os veículos nacionais praticaram simultaneamente dois de seus “esportes preferidos”: atacar o presidente Lula e defender “israel”, evidenciando que a cobertura não era apenas enviesada, mas também instrumentalizada para disputas internas.
O resultado é um jornalismo que escreve suas manchetes com sangue palestino: omite, distorce, manipula e silencia. Ao negar voz às vítimas e reproduzir propaganda oficial, a mídia brasileira não apenas falha em cumprir sua função ética — ela se torna parte do genocídio, cúmplice de sua perpetuação e guardiã de sua invisibilidade.
Jornalistas palestinos: da cobertura à resistência
O assassinato de jornalistas na Palestina não é apenas violência contra indivíduos; é um ataque direto à verdade e à memória coletiva. Desde Shireen Abu Akleh, correspondente da Al Jazeera assassinada por um sniper israelense, em Jenin, em maio de 2022, até a nova geração que emergiu durante o extermínio de Gaza, os jornalistas palestinos têm sido alvos sistemáticos de uma campanha que visa silenciar o registro da realidade. Shireen, vestindo colete e capacete, foi morta enquanto documentava operações militares: um caso que evidenciou que a identificação como imprensa não oferece proteção, mas torna o jornalista alvo direto.
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Nos anos seguintes, uma nova geração assumiu a linha de frente da cobertura em Gaza e na Cisjordânia. Motaz Azaiza, com suas imagens transmitidas ao mundo, mostrou o impacto do genocídio sobre famílias, crianças e a infraestrutura destruída. Bisan Owda, premiada internacionalmente, humanizou o conflito e documentou o seu cotidiano sob genocídio, transformando a câmera em instrumento de resistência. Hind Khoudary, destacada por veículos como Al Jazeera English e Middle East Eye, trouxe à tona histórias de civis, frequentemente ignoradas por grandes mídias internacionais. Plestia Alaqad relatou o cotidiano da Faixa de Gaza com precisão e proximidade, construindo um registro histórico que vai além das manchetes. Cada um deles assume riscos constantes, sabendo que cobrir Gaza significa estar sob ameaça constante de ataque, prisão ou intimidação da ocupação israelense.
Entre esses nomes estava também Anas Al-Sharif, correspondente da Al Jazeera, cujo trabalho, registrado antes de sua morte, se tornou um testamento de resistência. Ele se manteve em Gaza mesmo com ofertas de segurança fora do território, consciente de que seu trabalho representava um compromisso com a memória coletiva de seu povo. Sua execução não apenas interrompeu sua voz, mas transformou sua trajetória em símbolo de coragem diante do genocídio.
Após 15 dias do assassinato de Anas Al-Sharif, o extermínio de jornalistas palestinos alcança um novo patamar, agora diante de uma transmissão ao vivo de um ataque deliberado israelense, a comunicação palestina perde figuras como:
- Hussam al-Masri, fotógrafo freelancer que colaborava com a Reuters, estava registrando os danos causados pelos ataques aéreos israelenses quando foi atingido. Sua cobertura era reconhecida por sua coragem em capturar imagens em meio ao perigo constante.
- Mariam Dagga, jornalista visual freelancer que trabalhava com a Associated Press, era conhecida por suas imagens impactantes que documentavam a vida dos civis em Gaza. Ela retratava famílias deslocadas, crianças em situação de vulnerabilidade e os efeitos devastadores do genocídio sobre a população civil.
- Ahmed al-Banna, correspondente da Al Jazeera, estava no hospital para cobrir os esforços de resgate após o primeiro ataque. Ele era conhecido por suas reportagens incisivas e por trazer à tona as histórias não contadas dos palestinos afetados pelo genocídio.
- Sami Abu Daqqa, cinegrafista independente, estava filmando os esforços de resgate quando foi atingido. Ele era reconhecido por sua habilidade em capturar momentos cruciais em meio ao caos, fornecendo imagens que muitas vezes eram a única evidência visual dos acontecimentos em Gaza.
- Omar Shaheen, radialista comunitário, estava transmitindo ao vivo quando o segundo ataque ocorreu. Ele era uma voz vital para a comunidade, fornecendo informações essenciais e apoio moral para os residentes de Gaza durante os períodos mais sombrios do holocausto.
Esses profissionais não estavam apenas cobrindo os eventos; estavam documentando a história em tempo real, enfrentando riscos extremos para garantir que o mundo soubesse da realidade vivida pelos palestinos. Suas mortes, ou, o exílio forçado de alguns não são apenas perdas individuais; são perdas coletivas para a humanidade. Cada um deles representa a coragem, a dedicação e o compromisso com a verdade que caracteriza o jornalismo palestino. Mesmo diante da morte, suas vozes permanecem, lembrando que a imprensa palestina, sob fogo, continua a contar a verdade, e que silenciar uma câmera não é silenciar a história.
Silenciar é comprometer
O assassinato de centenas de jornalistas palestinos não é obra do acaso. É método. É política de extermínio. Para sustentar o genocídio, “israel” precisa eliminar não apenas corpos, mas também vozes, memórias e arquivos. Jornalista morto não escreve. Câmera destruída não mostra. Testemunha silenciada não incomoda. É isso que está em jogo.
E é por isso que a imprensa que se cala está de mãos dadas com o carrasco. Cada manchete que chama genocídio de “conflito” é uma pá de cal sobre a memória das vítimas. Cada jornal que reproduz, sem questionar, a versão oficial da ocupação é cúmplice ativo, não observador passivo. Não existe neutralidade possível diante de 73 mil mortos, entre eles 22 mil crianças, e diante do maior massacre de jornalistas da história moderna. A escolha é simples: ou se denuncia, ou se participa.
A omissão da mídia internacional e brasileira já está registrada na história como cumplicidade. Quando a verdade for cobrada — porque será —, não bastará dizer “não sabíamos”. Sabiam. Viram. Calaram. E ao calar, tornaram-se parte do genocídio.
Mas se há quem silencie, há também quem resista. Anas Al-Sharif deixou seu testamento como ordem e compromisso: “Não permitam que correntes silenciem vocês.” Essa frase não é despedida, é herança. É convocação a todos que se dizem jornalistas: ou carregamos essa tocha ou admitimos covardemente que traímos nossa própria profissão.
O genocídio palestino será lembrado como o primeiro holocausto televisionado da história. E quando a história cobrar, cada jornalista terá de responder: esteve ao lado da verdade ou da propaganda? Denunciou ou compactuou? Escreveu para libertar ou para encobrir?
Silenciar é comprometer-se. E quem se compromete com o opressor será julgado pela história. A diferença é clara: nomes como o de Anas Al-Sharif e de tantos outros jornalistas palestinos serão lembrados com honra e coragem. Os outros carregarão para sempre a vergonha de terem manchado as mãos com o sangue palestino, de terem usado manchetes para encobrir massacres e de terem transformado o jornalismo em arma vil de propaganda.