Quando éramos crianças, sonhávamos com o futuro. Até que uma bala israelense levou Malak.
Minha melhor amiga corava facilmente, amava nosso bairro em Gaza e sonhava em ser enfermeira para cuidar de crianças doentes.
[Jawahir Al-Naimi/Al Jazeera]
Por Lujayn*
Malak era como uma irmã para mim.
Tínhamos nove anos quando nos conhecemos na Escola Hamama para Meninas, no bairro Sheikh Radwan, em Gaza. Era 2019, e a família dela havia se mudado para um apartamento a três prédios do meu. Quando ela chegou à escola, me apresentei, e a partir daquele dia, passamos a ir e voltar juntas todos os dias.
Naquela época, Sheikh Radwan parecia ser o nosso mundo inteiro. Havia prédios bonitos e lojas onde comprávamos doces. As famílias se conheciam, as crianças brincavam juntas. Conhecíamos todos os vizinhos e chamávamos os adultos de tios e tias.
No início, pensei que Malak corava porque era nova na escola. Mas, com o tempo, entendi que isso fazia parte dela. Malak era tímida, quieta, gentil e carinhosa. Seu nome significa “anjo”. Combinava com ela.
Ela se importava com nossas colegas e, sempre que alguém estava triste, Malak a confortava. Muitas vezes a via ajudando outras crianças com a lição de casa.
Eu era mais próxima dela do que das outras meninas porque gostávamos das mesmas matérias: matemática, física e música. Eu era apaixonada por física, enquanto ela se destacava em matemática. Ambas tocávamos piano—eu me dedicava à música clássica, e ela amava a música tradicional palestina.
Às vezes, desafinávamos. Lembro-me de uma vez brincando que ela deveria seguir seu sonho de ser enfermeira em vez de musicista profissional. Ela riu e concordou. Sempre fazíamos uma à outra rir.
Mas por trás do sorriso de Malak havia uma tristeza, como se carregasse um peso, uma dor que guardava para si.
“Por que essa tristeza, Malak?”
Um dia em setembro de 2023, estávamos sentadas no pátio da escola, como sempre fazíamos nos intervalos, conversando sobre nossos sonhos. Tínhamos acabado de fazer uma prova de matemática. O dia ainda não havia terminado, mas percebi que Malak queria ir para casa. Ela segurava as lágrimas. “Por que essa tristeza, Malak?”, perguntei.
Ela olhou para o céu e depois para mim, respondendo: “Meu irmão Khaled nasceu com um problema cardíaco. Ele é só um ano mais velho que eu e está muito doente.”
Eu já havia visitado a casa de Malak muitas vezes e sabia que seu irmão era frágil e ficava doente com frequência. Mas não sabia que sua condição era tão grave.
Quando ela me disse que ele poderia morrer, coloquei minha mão em seu ombro. “Quem sabe, Malak? Talvez a gente deixe este mundo antes dele. A morte não se importa com idade ou doença.”
Nunca imaginei que minhas palavras passageiras se tornariam uma verdade brutal tão cedo.
Naquele dia, ficamos horas conversando. Malak falou sobre se tornar enfermeira e voltar a Ramla, a terra de seus antepassados, de onde sua família foi expulsa durante a Nakba. Ela disse que queria cuidar de doentes, especialmente crianças. Eu sabia que ela seria uma enfermeira perfeita por sua bondade.
A guerra e o desaparecimento
Quando a guerra começou, cada uma de nós buscou refúgio com suas famílias e perdemos contato. Fui deslocada mais de 12 vezes—da cidade de Gaza para Khan Younis, Deir el-Balah, o campo de refugiados de Bureij, al-Mawasi e, agora, Rafah, de onde escrevo.
Tentei entrar em contato com Malak, mas nunca conseguia. Os celulares dela e de sua mãe estavam fora de serviço.
Nossa escola foi transformada em abrigo para deslocados antes de ser destruída por ataques aéreos israelenses em 3 de agosto de 2024. Mesmo após essa notícia terrível, não consegui falar com Malak.
O reencontro… e a perda
Após mais de um ano sem contato, numa manhã de janeiro de 2025, recebi uma ligação de um número desconhecido. Fiquei extasiada ao ouvir a voz de Malak. Ela estava feliz e animada, mas soava exausta.
Perguntei como ela e sua família estavam, e sobre Khaled—lembrando que ele precisava de remédios. Ela me disse que estavam vivendo em uma tenda em al-Mawasi, Rafah, a poucos quilômetros de onde minha família estava.
Malak queria conversar. Contou como sua família havia sido deslocada repetidamente por Gaza. Nossa conversa nos levou de volta aos bons tempos em Sheikh Radwan—nossas casas, nossa escola, tudo o que fazíamos antes da guerra.
Antes de desligar, prometi visitá-la e levar sua família para nosso abrigo. Achei que seria mais seguro, já que nosso prédio era de pedra, enquanto ela estava em uma tenda.
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Dois dias depois, em 8 de janeiro, combinei com minha mãe de visitar Malak. Liguei para confirmar. Sua irmã mais nova, Farah, atendeu chorando. “Malak se foi”, soluçou. “Foi martirizada ao amanhecer por uma bala enquanto dormia em nossa tenda.”
Não consegui ouvir. Ou talvez não quisesse acreditar. Meu coração doía sem palavras. Desliguei, sufocada pelas lágrimas, e disse à minha mãe: “Malak se foi.”
Juntos, na morte
No dia seguinte, fomos oferecer condolências à família. Encontramos a tenda crivada de balas, mas vazia. Os vizinhos nos contaram que Khaled havia morrido naquela manhã—sua doença piorou sem remédios, e a dor pela morte da irmã partiu seu coração. A família fora enterrá-lo.
Lembrei-me de minhas palavras no pátio da escola. Nunca imaginei que Malak morreria, nem que Khaled a seguiria tão rápido. Foram enterrados lado a lado. Nem na morte ele se separaria dela.
Quem disparou a bala que matou Malak? Por que a mataram? Ela era uma ameaça aos soldados enquanto dormia? Tinham medo de seu sonho de voltar a Ramla?
Adeus, minha querida amiga. Nunca te esquecerei. Plantarei uma oliveira em seu nome e trarei sua família para ficar conosco, cuidando deles como você faria.
* Escritora baseada em Gaza. Texto publicano na Al Jazeera em 23/03/2025.
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