“Tudo o que quero é apenas um olho de volta, para poder ver minha família”, diz palestino torturado por “israel” até ficar cego

“Mesmo depois de eu perder a visão, o interrogador continuou me torturando. Meu coto amputado foi golpeado várias vezes, e fui pendurado por ele mais de uma vez", diz Mahmoud Abu Foul, que ficou quase dez meses preso. "Em um dos interrogatórios, me obrigaram a sentar diretamente sobre a perna amputada. A dor era insuportável e causou sangramento e inflamação.”

20/10/2025

Prisioneiros palestinos detidos na prisão israelense de Ofer, próxima a Jerusalém, na Cisjordânia ocupada, em 28 de agosto de 2024. (Chaim Goldberg/Flash90)

Por Ibtisam Mahdi*

Na tarde de segunda-feira, dezenas de milhares de palestinos lotaram o pátio do Hospital Nasser, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza. Eles estavam ali para receber os ônibus que traziam os detentos palestinos libertados como parte do acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas. Alguns vieram para saudar familiares, outros apenas para testemunhar o momento histórico. O pátio transbordava de emoção: alegria, lágrimas, dor e incredulidade.

Dos quase 2.000 detentos palestinos libertados na primeira fase do acordo entre Israel e o Hamas, mais de 1.700 são da Faixa de Gaza. Ainda assim, muitos palestinos consideraram o resultado aquém das expectativas em comparação com trocas anteriores, nas quais o Hamas conseguiu a libertação de um número muito maior de prisioneiros em troca de poucos cativos israelenses — especialmente o “Acordo Shalit” de 2011, que libertou 1.027 palestinos em troca de um único soldado israelense.

Após passarem por exames, os detentos deixaram o hospital e caminharam pelas ruas destruídas da cidade, ainda vestidos com os uniformes cinza da prisão, cobrindo seus corpos emagrecidos. Suas cabeças estavam raspadas, as barbas crescidas, os rostos marcados por semanas, meses e, em alguns casos, anos de sofrimento.

“Deus nos trouxe de volta das profundezas do túmulo”, repetiam muitos deles. A frase capturava tanto o tormento do cativeiro quanto a euforia da libertação. No entanto, para muitos, a liberdade veio acompanhada de uma perda inimaginável.

Entre eles estava Haitham Moein Salem, de 43 anos, morador de Beit Lahiya, no norte da Faixa de Gaza. Ele havia sido detido pelo exército israelense pouco mais de um ano antes, durante uma incursão em Gaza. Em 10 de setembro, um mês antes de sua libertação, um ataque aéreo israelense atingiu a tenda de sua família na suposta “zona segura” de Al-Mawasi, perto de Khan Younis, matando sua esposa e seus três filhos — Iman, Layan e Baraa. Ele acreditava que eles o estariam esperando em casa.

“Ninguém me informou que minha família havia sido alvo”, disse ele à revista +972 após ser libertado. “O exército israelense era conhecido por trazer más notícias de Gaza, especialmente quando nossas famílias eram atacadas ou mortas.”

Palestino que esteve confinado em uma prisão israelense é recebido por familiares após sua libertação, em Khan Younis, em 13 de outubro. (Doaa Albaz/Activestills)

Ao ouvir a notícia, Salem desabou, e paramédicos precisaram levá-lo em uma cadeira de rodas. Durante mais de um mês, ele vinha preparando um pequeno presente para sua filha Layan, esculpido em caroços de azeitona que recolhera do chão. Guardou-o no bolso o tempo todo, para entregá-lo no aniversário de 9 anos dela, em 18 de outubro.

“Comecei a contar os dias [na prisão], esperando sair a tempo de comemorar seu aniversário”, lembrou. “Mas hoje, apenas cinco dias antes, soube que ela havia sido martirizada.”

A tragédia de Salem não era única. Entre os recém-libertados estava Mohammad Assaliya, de 28 anos, preso no fim de janeiro de 2024 durante uma invasão terrestre israelense em Jabalia. Cinco meses depois, em 31 de maio, um ataque aéreo destruiu a casa de sua família, matando seu pai, mãe e oito irmãos. Apenas uma irmã sobreviveu.

“A liberdade tem um sabor indescritível; nossa alegria era imensa — mas se despedaçou quando soube do martírio da minha família”, contou à +972. “Um guarda me disse isso, mas eu me apeguei à esperança de que fosse mentira, apenas uma forma de tortura psicológica.”

Detido na prisão de Ketziot, no deserto de Naqab (Neguev), Assaliya descreveu os abusos que sofreu durante o cativeiro: “Fomos privados de comida e água, impedidos de dormir e autorizados a usar o banheiro apenas uma vez por dia. Sofremos shabeh [forma de tortura em que o prisioneiro é amarrado pelos pulsos e pendurado contra uma parede, com os braços abertos e os pés quase sem tocar o chão]. Comíamos comida simples enquanto estávamos imobilizados.”

O abuso, segundo ele, continuou até os últimos dias na prisão. “Dois dias antes da libertação, nos colocaram em ônibus e nos mantiveram lá até a hora de sermos soltos. Sabíamos do acordo, mas os soldados diziam que estávamos sendo levados para outra prisão chamada ‘Inferno’. Nesse tempo, não podíamos comer nem beber, e quem falasse com outro detento era espancado. Foi um período de enorme pressão psicológica.”

“Tudo o que quero é apenas um olho de volta”

A condição de Mahmoud Abu Foul, de 28 anos, do norte de Gaza, chamou atenção entre os corpos esqueléticos que saíram dos ônibus no Hospital Nasser. Seu rosto e corpo estavam marcados pela exaustão, doença e abuso. Ao chegar, foi levado direto à emergência e depois transferido ao Hospital Al-Aqsa, em Deir Al-Balah. Horas depois, recebeu alta — cego e com grave inflamação no coto da perna amputada em 2015, após um ataque aéreo israelense enquanto trabalhava em uma oficina de metalurgia.

Quatro dias depois, ele falou à +972 de uma tenda em Az-Zawayda, no centro de Gaza, onde se abrigava com a família. “Fui preso pelas forças de ocupação no Hospital Kamal Adwan, no norte de Gaza, em 27 de dezembro de 2024”, contou. “Fui submetido a torturas horríveis. Eles usavam uma ferramenta de madeira para me golpear repetidamente pela frente e por trás, às vezes ao mesmo tempo, o que me fez perder a visão.”

Abu Foul acredita que ficou cego há cerca de oito meses. “Desde então, não vi mais nada”, disse. “Mesmo depois de eu perder a visão, o interrogador continuou me torturando. Meu coto amputado foi golpeado várias vezes, e fui pendurado por ele mais de uma vez. Em um dos interrogatórios, me obrigaram a sentar diretamente sobre a perna amputada. A dor era insuportável e causou sangramento e inflamação. Claro que não recebi medicação nem tratamento, o que piorou minha condição. Eu só podia lavar o ferimento com água.”

O que mais o feriu, confessou, foi ver o sofrimento da família ao reencontrá-lo. “Foi difícil para eles suportarem o choque de me ver assim, cego. Choravam diante de mim, agradecendo a Deus por eu ter saído vivo.”

Agora, Abu Foul espera conseguir tratamento fora de Gaza. Um oftalmologista lhe deu alguma esperança: “Ele me disse que há chance de eu recuperar parte da visão com certos tratamentos, mas eles não estão disponíveis na Faixa de Gaza por causa do colapso do sistema de saúde.”

“O ferimento na perna também precisa de acompanhamento intensivo para não infeccionar e causar uma nova amputação”, acrescentou. “Tudo o que quero é apenas um olho de volta, para poder ver minha família.”

Mahmoud Abu Foul senta-se com familiares em uma tenda em Az-Zuwayda, no centro da Faixa de Gaza, em 17 de outubro. (Muhammad Sakik)

“Além do que qualquer um poderia imaginar”

A experiência do jornalista Shadi Abu Sido, de 30 anos, revela a profundidade da tortura psicológica infligida a detentos palestinos. Morador de Gaza, ele foi preso em 18 de março de 2024, enquanto buscava abrigo no Hospital Al-Amal, em Khan Younis.

“Fomos tratados de forma terrível, submetidos a shabeh, espancamentos e humilhações verbais, físicas e psicológicas”, contou à +972. “Um interrogador me disse que Israel havia matado todos os jornalistas de Gaza. Disse que os soldados quebraram a lente da minha câmera quando fui detido, para que eu não pudesse mais documentar o que acontecia — e depois ameaçou quebrar meu olho de verdade. Continuou batendo no meu olho até que sangrasse por três semanas. Nunca recebi tratamento.”

Duas semanas após a prisão, informaram-lhe que sua esposa e três filhos haviam sido mortos pelo exército israelense. Mantido quase totalmente isolado do mundo exterior, acreditou não ter mais família. “Saí da prisão com o coração em pedaços, imaginando minha vida sem eles — convencido de que todos haviam sido martirizados”, recordou.

Mas, nesta segunda-feira, ao ser libertado, ficou atônito ao descobrir, por meio de seu irmão, que toda a família estava viva e em segurança. A princípio, recusou-se a acreditar, achando que o irmão apenas queria consolá-lo. Porém, ao voltar para casa, em Gaza, encontrou a casa intacta — e toda a família à sua espera.

Tareq Tabash, de 45 anos, também libertado, passou 25 anos preso após ser detido em fevereiro de 2001 em um posto de controle em Khan Younis. Foi condenado à prisão perpétua mais 15 anos, acusado de envolvimento na morte de dois soldados israelenses.

Há cinco anos, sua mãe faleceu, e Tabash não pôde vê-la nem comparecer ao funeral.

Apesar das restrições, decidiu estudar na prisão: concluiu o ensino médio, formou-se em História e iniciou pós-graduação — até que, segundo ele, as autoridades prisionais impuseram novas limitações após o início da guerra em 7 de outubro.

“As condições pioraram de um modo indescritível desde a guerra”, relatou à +972. “A tortura e a punição viraram política. O exército nos atormentava contando o que acontecia em Gaza — o genocídio, o número de mártires, a fome.”

“As inspeções de segurança eram uma das principais formas de tortura para nos degradar”, continuou. “Eram realizadas de propósito para nos provocar: tínhamos de ajoelhar, baixar a cabeça e colocar as mãos sobre ela. Qualquer pequeno movimento servia de pretexto para sermos espancados com bastões e coronhas.”

“Fomos privados de comida, bebida e remédios — até os doentes crônicos. Ficamos sem produtos de higiene, proibidos de trocar de roupa ou tomar banho. As prisões estavam superlotadas. Tiraram nossos pertences e até a possibilidade de conversar uns com os outros.”

Tabash apelou à comunidade internacional para agir urgentemente e salvar os que ainda estão presos. “A tortura que sofremos — psicológica, física e social — vai além do que qualquer um pode imaginar.”

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“Fomos privados de tudo”

Assim como Tabash e Abu Sido, Raja Daghmeh, de 30 anos, morador de Abasan, a leste de Khan Younis, sofreu tortura psicológica severa após ser preso em 26 de janeiro de 2024, num posto militar durante a incursão israelense na cidade.

Ele contou à +972 que, pouco antes da libertação, um interrogador na prisão do Neguev o ameaçou: se não deixasse Gaza com a esposa e a filha pequena e fosse para o exílio, seria morto na primeira oportunidade.

“Durante toda a detenção, fomos privados de tudo — até da luz do sol”, relatou. “Fomos submetidos a torturas constantes: shabeh, ossos quebrados, espancamentos brutais, privação de comida e água e restrições para usar o banheiro. Só podíamos tomar banho uma vez por mês, sem trocar de roupa. No inverno, não recebíamos cobertores. Esperávamos morrer a qualquer momento.”

Entre a multidão reunida no Hospital Nasser estava Mahmoud Mohsen, de 39 anos, do campo de refugiados de Khan Younis, que veio receber os libertos. À +972, afirmou que o verdadeiro feito do acordo não foi a libertação dos prisioneiros, mas a interrupção dos ataques israelenses e do banho de sangue diário.

Ismail Al-Thawabtah, chefe do gabinete de mídia do governo de Gaza, compartilhou a mesma opinião ao se juntar à multidão: “A única conquista agora é deter o genocídio”, disse. “Tudo o que queríamos era parar o massacre e a destruição das nossas cidades, independentemente dos detalhes do acordo.”

O porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF) não respondeu diretamente às acusações mencionadas, mas encaminhou a +972 ao Serviço Prisional de Israel, que afirmou que “atua de acordo com a lei e sob supervisão de órgãos oficiais. Todos os detentos são mantidos segundo procedimentos legais, e seus direitos — incluindo acesso a cuidados médicos e condições adequadas — são assegurados por profissionais treinados. Não temos conhecimento das alegações descritas e, até onde sabemos, nenhum desses incidentes ocorreu sob responsabilidade do Serviço Prisional de Israel.”

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* Jornalista freelancer de Gaza especializada em reportagens sobre questões sociais, especialmente relacionadas a mulheres e crianças. Ela também trabalha com organizações feministas em Gaza nas áreas de comunicação e reportagens. Reportagem publicada na +972 Magazine em 17/10/2025.

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