Negligência médica é generalizada nas prisões de “israel”

“Entrei saudável e saí com doenças crônicas”, diz um palestino sequestrado por "israel" e depois libertado

08/06/2025

Familiares recebem de volta detentos palestinos, libertados como parte de uma troca de prisioneiros com Israel em 27 de fevereiro de 2025. – Omar Ashtawy / APA images

Por Fedaa al-Qedra*

Detentos palestinos nas prisões israelenses enfrentam não apenas condições abusivas intoleráveis, mas também uma negligência médica sistêmica, o que agrava sua saúde física e mental.

Em entrevistas ao The Electronic Intifada, ex-detentos descreveram experiências angustiantes que refletem um padrão de negação deliberada de cuidados médicos básicos — uma situação que piorou desde 7 de outubro de 2023.

Adel Sobeih, de 21 anos, foi detido em 20 de março de 2024 enquanto estava em um leito hospitalar.

Na época, ele era paciente do hospital al-Shifa, onde recebia tratamento por um ferimento na perna sofrido durante o chamado “massacre da farinha” em fevereiro de 2024.

Mas em 18 de março, tropas israelenses cercaram o hospital e começaram a prender sistematicamente pacientes e funcionários.

“Os soldados forçaram todos — inclusive os pacientes — a irem para o pátio do hospital”, contou Adel ao The Electronic Intifada. “Eles nos fizeram tirar a roupa e caminhar em direção a eles. Eu estava lento por causa do ferimento, mas eles não se importaram. Bateram na minha perna ferida até que começasse a sangrar.”

O abuso não parou por aí.

“Fui colocado em um caminhão militar onde os soldados”, disse ele, “apagaram cigarros no meu corpo.”

Quando Adel chegou ao campo de detenção de Sde Teiman, ele já havia perdido a consciência por causa da tortura.

Na clínica de Sde Teiman, um “médico me deu um tapa e murmurou algo em hebraico.”

O ferimento de Adel foi tratado, e disseram que ele seria levado ao hospital.

“Quando acordei no hospital, um médico me disse que amputariam minha perna. Assinei um formulário sob pressão concordando com a cirurgia e renunciando ao direito a transfusão de sangue.”

Após a operação — que resultou na amputação da perna acima da coxa — zombaram dele.

“Disseram: ‘Levamos sua perna’ e riram. No mesmo dia, fui transferido de volta para Sde Teiman.”

Adel passou dois meses e meio detido, durante os quais sofreu espancamentos repetidos e permaneceu com frio, já que muitas vezes era mantido nu, usando apenas uma fralda.

“Vivi 44 dias no inferno.”

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Abuso deliberado

Asmaa Harish, jornalista freelancer de Ramallah, foi detida por seis meses, entre abril e outubro de 2024.

Ela foi mantida sob detenção administrativa, sem acusação ou julgamento — mecanismo que Israel pode prolongar indefinidamente.

Asmaa contou ao The Electronic Intifada que, durante o tempo em que esteve presa, além de sofrer negligência médica, perdeu muito peso e enfrentou intoxicação alimentar e desnutrição.

“A negligência era intencional — assim como a política de fome. Isso afetou gravemente nossa saúde física. Perdi 20 quilos em seis meses.”

Nenhum analgésico eficaz era fornecido para dores menstruais, e absorventes higiênicos baratos causavam irritações e infecções na pele. Combinado à alimentação escassa e de má qualidade, muitas detentas passaram a sofrer irregularidades menstruais: algumas sangravam muito a cada duas semanas; outras, deixaram de menstruar por completo.

“Quando sentíamos dor, se recusavam a nos levar à clínica”, disse Asmaa. “Só nos davam Acamol [paracetamol]. Em seis meses, consegui ver um médico apenas uma vez. Éramos 97 detidas, entre 17 e 70 anos.”

Segundo ela, a saúde de detentas com hipertensão e diabetes só piorava. Outras, que eram saudáveis ao serem presas, passaram a sofrer fadiga intensa, tonturas e problemas psicológicos — “especialmente as mães separadas de seus filhos.”

“Havia grávidas entre nós, mas não recebiam nenhum cuidado especial, nem mesmo alimentação adequada. Uma delas desenvolveu diabetes gestacional e não recebeu tratamento algum.”

Consultas médicas exigiam ordem judicial e podiam demorar semanas. Mesmo quando aprovadas, a ida à clínica ocorria com os olhos vendados e algemadas. Os médicos só se comunicavam em hebraico e realizavam os exames na presença de guardas.

“Não havia nenhuma privacidade”, contou Asmaa.

Em geral, a prisão era suja e infestada de insetos. As detentas não recebiam xampu adequado, o que causava mais irritações na pele. E ninguém tinha pentes.

“Penteávamos o cabelo com garfos.”

22 anos

Segundo a Comissão de Assuntos de Detentos e Ex-Detentos, a política de negligência médica piorou drasticamente desde 7 de outubro.

Em comunicado, a Comissão acusou as autoridades penitenciárias israelenses de usarem a negligência médica como forma de vingança contra os detentos palestinos. Mesmo aqueles com doenças crônicas ou ferimentos graves são rotineiramente privados de medicação e cuidados adequados.

Vários prisioneiros já morreram em decorrência disso, e muitos outros correm risco se essas violações continuarem.

Mas, embora as condições tenham piorado nos últimos 19 meses, a negligência médica já era prática rotineira antes.

Ativistas iniciam campanha pela liberdade dos brasileiros-palestinos sequestrados por “israel”

Osama Abu al-Asal foi detido aos 27 anos, em 4 de junho de 2003. Foi libertado em 1º de fevereiro de 2025, como parte da troca de prisioneiros ocorrida durante o breve cessar-fogo de dois meses no início do ano. Agora com 49 anos, passou 22 anos preso em Israel.

“Entrei saudável e saí com doenças crônicas”, disse Osama ao The Electronic Intifada.

Apenas três anos após ser preso, sua saúde começou a se deteriorar devido às condições.

“Comecei a sentir dores e desconfortos inexplicáveis”, contou. “Era difícil conseguir ver um médico. E, quando finalmente conseguia, só me davam um comprimido de Acamol, sem nenhum exame adequado.”

Em 2017, Osama teve fortes dores no peito e foi transferido para o Centro Médico Soroka.

Lá foi diagnosticado com hipertensão crônica e, mais tarde, passou por cirurgia cardíaca.

“Durante a cirurgia, os médicos pediram que os guardas me desalgemassem, mas eles recusaram”, disse Osama. “Fiquei algemado por cinco dias no hospital. Nem ao banheiro me deixaram ir. Me deram um balde. Não me trataram como ser humano.”

Ele foi privado de medicamentos para o coração ou qualquer tratamento para a hipertensão. Um ano depois, foi diagnosticado com diabetes. O médico informou que ele provavelmente já tinha a doença há algum tempo — algo que passou despercebido pela falta de exames regulares.

“Comecei a precisar de injeções de insulina, mas a administração da prisão me dava apenas uma dose por dia, em vez das três necessárias”, contou. “Eles não querem que você melhore. Só não querem que você morra.”

Após 7 de outubro, a situação piorou drasticamente.

“Todos os medicamentos foram retirados, até mesmo dos pacientes crônicos. Exames médicos foram interrompidos. Fomos deliberadamente deixados com fome. Não podíamos tomar banho e a água foi cortada. Nossa higiene piorou, e muitos presos desenvolveram doenças de pele, fraqueza e tontura.”

Osama perdeu 22 quilos após outubro de 2023 e contraiu sarna.

“Invadiam nossas celas com cães, nos espancavam com cassetetes elétricos — sem distinguir entre doentes e saudáveis”, disse. “A prisão virou um matadouro.”

* Direto de Gaza. Reportagem publicada no portal The Electronic Intifada em 02/06/2025.

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