“Eles usaram cães”: documentário expõe o uso de estupro por “israel” em prisões

Ex-detentos relatam tortura sistemática e violência sexual, incluindo estupro, enquanto estavam sob custódia israelense.

11/06/2026

Um dos palestinos presos e torturados durante dias por soldados israelenses mostra o número com o qual foi identificado e sua mão inchada devido às algemas [Abdelhakim Abu Riash/Al Jazeera]

Por Simon Speakman Cordall e Awad Joumaa*

Aviso: Esta reportagem contém descrições de agressão sexual que podem ser perturbadoras para alguns leitores.

Muhammad al-Bakri lembra-se especificamente da data em que foi estuprado.

Foi em 10 de abril de 2024, durante o feriado do Eid al-Fitr, no final do mês sagrado do Ramadã. O funcionário público de Gaza vinha sendo espancado, torturado, amarrado e forçado a se sujar com as próprias fezes desde sua prisão por soldados israelenses um mês antes.

Os soldados e seus cães de guarda o cercaram naquele dia. “Havia seis soldados à direita e seis à esquerda”, recordou. “Eles perguntavam o seu nome. Se você dissesse ‘Muhammad’, eles respondiam: ‘Não, diga que seu nome é filho da p***’.”

Al-Bakri disse que estava detido com outros sete prisioneiros. Todos foram despidos, vendados e algemados.

“Fomos estuprados depois de sermos despidos”, afirmou. “Estávamos gritando: ‘Ó Senhor, ó Deus’, mas eles apenas riam e nos filmavam.” Al-Bakri então repetiu o que diversas organizações de direitos humanos também relataram: que os guardas usavam cães durante os abusos sexuais contra os prisioneiros. “Os cães seguiam ordens dos oficiais para nos [atacar]”, disse.

“Não houve misericórdia. Ficamos nesse estado de abuso sexual e espancamentos por cerca de 20 minutos a meia hora. Depois mandaram que nos vestíssemos e nos levaram de volta para a prisão.”

Al-Bakri está entre vários ex-prisioneiros que deram depoimentos detalhados à Al Jazeera para Bodies of Evidence: Israel’s Darkest Weapon (“Corpos como Prova: A Arma Mais Sombria de Israel”), uma investigação documental sobre aquilo que juízes do Tribunal Penal Internacional (TPI), as Nações Unidas e sua relatora especial para os territórios ocupados, Francesca Albanese, afirmam constituir o uso generalizado e sistemático de estupro e tortura sexual pelo exército israelense contra palestinos. Organizações de direitos humanos como o Palestinian Centre for Human Rights (PCHR) e o Euro-Med Human Rights Monitor também documentaram testemunhos de prisioneiros relatando como soldados israelenses usaram cães para estuprá-los.

As alegações de abuso sexual de palestinos em prisões israelenses não são novas — remontam a décadas. Mas, ao lançar sua guerra genocida contra Gaza após o ataque liderado pelo Hamas em outubro de 2023, Israel parece ter ampliado o uso do estupro como arma de guerra, segundo a investigação da Al Jazeera e diversos relatórios da ONU e de importantes organizações de direitos humanos.

Um relatório da ONU publicado em março de 2025 encontrou evidências do uso “sistemático” por Israel de violência sexual, reprodutiva e outras formas de violência baseada em gênero desde 7 de outubro de 2023. Em maio, Israel foi incluído na “lista negra de violência sexual em zonas de conflito” da ONU. A Human Rights Watch, a Anistia Internacional, o grupo israelense de direitos humanos B’Tselem e o PCHR descreveram a cultura disseminada de violência sexual dentro das forças israelenses, especialmente entre aqueles encarregados de supervisionar prisioneiros palestinos. Muitos foram presos e mantidos sem acusação sob o sistema israelense de detenção administrativa.

Nenhum soldado ou guarda foi condenado por abuso sexual contra palestinos. Israel deteve 10 agentes de segurança depois que um vídeo do estupro de um prisioneiro foi vazado do campo de detenção de Sde Teiman, no deserto do Neguev, em julho de 2024. Mas grupos de manifestantes de direita, incluindo parlamentares, tentaram invadir a instalação onde os guardas estavam detidos para libertá-los.

Em julho passado, Israel retirou todas as acusações contra os guardas. A oficial que supostamente vazou o vídeo da agressão, a major-general Yifat Tomer-Yerushalmi, foi posteriormente presa. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu classificou seu “crime” — compartilhar imagens do estupro cometido por soldados israelenses — como o “mais grave ataque de relações públicas” sofrido pelo país desde sua fundação.

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A relatora da ONU Albanese afirmou que a intenção por trás dos abusos sexuais contra prisioneiros palestinos era clara: não apenas infligir dor, mas destruir a vítima e seu senso de dignidade.

“Há algo mais profundo nisso, no sentido de que a tortura, especialmente o estupro e outras formas de tortura sexual, destrói a mente da pessoa, especialmente sua capacidade de reconstruir ou desfrutar de sua intimidade”, disse ela à Al Jazeera, relatando entrevistas com dois sobreviventes de estupro.

Questionado no Knesset, o Parlamento de Israel, em julho de 2024, sobre se alguma vez seria legítimo estuprar um prisioneiro, Hanoch Milwidsky, membro do partido Likud de Netanyahu, gritou: “Sim.”

“Se ele for um Nukhba [combatente do Hamas], tudo é legítimo fazer, tudo.”

Sobrevivendo ao genocídio e ao estupro

O trabalhador eventual Job — nome pelo qual a Al Jazeera escolheu identificá-lo — jamais pensou que houvesse algo particularmente notável em sua vida.

Assim como al-Bakri, Job se considerava um homem comum de meia-idade de Gaza. Ambos colocavam o futuro dos filhos acima do próprio. Ambos priorizaram a segurança de suas famílias desde que Israel lançou sua guerra genocida em outubro de 2023. Ambos haviam se acostumado a conduzir suas famílias através de postos de controle, bombardeios e deslocamentos forçados que definiam a vida cotidiana no enclave sitiado.

Isso mudou quando ambos foram feitos prisioneiros, torturados e repetidamente estuprados por soldados israelenses e cães de guarda.

Assim como al-Bakri, a memória de Job sobre seu estupro é igualmente nítida.

“Soldadas entraram no meu quarto”, contou à Al Jazeera. “Colocaram algemas de ferro nas minhas mãos atrás das costas. Tiraram as algemas das minhas pernas e colocaram outras. Depois me despiram.”

Ele foi imobilizado no chão com botas pressionando suas costas e pescoço, enquanto as soldadas o estupravam usando objetos artificiais.

“Os soldados ao redor delas aplaudiam e filmavam a cena. Estavam filmando a cena do estupro.”

O estupro e a tortura sexual de Job continuaram, tudo isso enquanto ele era interrogado sobre qualquer conhecimento que tivesse do ataque liderado pelo Hamas, do qual nada sabia.

Raiva

O ataque de 7 de outubro de 2023, durante o qual 1.139 pessoas foram mortas e cerca de 250 sequestradas, abalou grande parte da sociedade israelense e as suposições sobre a relação com os palestinos no território ocupado.

Por meio de repetidas exibições nos noticiários, o trauma dos ataques repercutiu por toda a sociedade israelense, enquanto a classe política buscava amplificar os danos infligidos a Israel naquele dia.

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Relembrando os acontecimentos de sua captura, Job recordou ter sido vendado, torturado, pisoteado e espancado, ao mesmo tempo em que era interrogado sobre os acontecimentos de 7 de outubro, apesar de não ter qualquer ligação com o que ocorreu naquele dia.

“Eles nos diziam: ‘Vocês conhecem Deus e o versículo do Alcorão, olho por olho, dente por dente. Quem semeia, colhe’”, recordou. Soldados israelenses lhe disseram: “Vocês entraram em nossas terras, as terras israelenses, e as invadiram. Vocês estupraram e fizeram isto e aquilo”.

Al-Bakri recebeu um número como nome e descreveu ter sido espancado quando tentava se identificar de qualquer outra forma.

“Você está aqui como prisioneiro de guerra”, recorda ter ouvido. “Você veio para cá por causa da destruição que causou.”

Além do estupro, al-Bakri disse que ele e outros prisioneiros eram atacados por cães e pelo que descreveu como bombas sonoras destinadas a causar desorientação.

“Você tinha de dormir de bruços, com as mãos amarradas e os olhos vendados, enquanto eles passavam cães sobre você e o chutavam”, disse.

Albanese afirmou à Al Jazeera que relatos semelhantes de maus-tratos e tortura após o ataque de 7 de outubro são comuns.

“A brutalidade aumentou a um nível sem precedentes”, afirmou. “Tornou-se vingativa.”

“Práticas regulares têm incluído espancamentos severos, tapas, queimaduras, ossos quebrados, dentes quebrados, violência sexual e estupro”, disse ela. “Penetração sexual por meio de objetos, tanto partes do corpo quanto outros objetos; algo recorrente é o uso de barras metálicas, pedaços de metal cortante que podem ser facas, detectores de metal e garrafas.”

Desumanização

Muitos dos soldados israelenses acusados de participar da tortura, abuso sexual e estupro de prisioneiros palestinos foram criados em sociedades descritas por observadores dentro de Israel como condicionadas a enxergar os palestinos como pessoas de alguma forma indignas de respeito humano.

Organizações como o B’Tselem e a Physicians for Human Rights Israel descreveram como muitos israelenses passam a vida inteira sem jamais encontrar palestinos, um povo destinado por políticas estatais a frequentar sistemas educacionais separados.

A ideia de que os palestinos estariam, de alguma forma, fora da categoria de um povo reconhecível está profundamente enraizada na cultura política israelense, afirmou o sociólogo Yehouda Shenhav-Shahrabani. Isso remonta do presente até o período do Mandato Britânico para a Palestina, quando autoridades descreviam a região como uma “terra sem povo”, até os dias atuais, quando palestinos podem ser mortos, estuprados e torturados com aparente impunidade.

“Ao retratar toda a população como animais humanos e terroristas, e invocar a noção de escudos humanos para justificar massacres, Israel efetivamente pintou um alvo nas costas de toda uma população civil”, disse Albanese à Al Jazeera. “Até mesmo crianças retratadas como terroristas em potencial descrevem um medo avassalador de morte iminente.”

O presidente israelense Isaac Herzog não teve problema em responsabilizar “inequivocamente” todos os palestinos pelo ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro, dizendo a jornalistas:

“Há uma nação inteira ali que é responsável. Não é verdade essa retórica de que os civis não sabiam, não estavam envolvidos. Isso absolutamente não é verdade.”

Após o ataque, o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant afirmou que Israel estava lutando contra o que chamou de “animais humanos” e ordenou um “cerco completo” aos homens, mulheres e crianças do local.

Outros, como o ministro das Finanças Bezalel Smotrich e o ministro da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir, têm sido reincidentes, referindo-se rotineiramente aos palestinos como terroristas ou enquadrando amplos segmentos da sociedade palestina em termos genericamente criminosos ou extremistas, especialmente em relação a Gaza e à Cisjordânia ocupada.

“A linguagem desumanizadora desempenha um papel fundamental em empreendimentos como um genocídio ou outras formas de punição coletiva e abuso”, disse Albanese, “porque, para tratar o outro como subumano, é preciso vê-lo como subumano”.

Impunidade

Apesar do que analistas descreveram como um padrão estabelecido de estupro e abuso sexual contra palestinos, Israel ainda não recebeu censura jurídica de qualquer organismo multinacional nem enfrentou sanções por suas ações em Gaza ou na Cisjordânia ocupada. Tentativas de organismos internacionais, incluindo a iniciativa da ONU de investigar as alegações de abuso sexual em janeiro de 2025, foram ativamente bloqueadas por Israel.

Abusos específicos — desde nudez forçada e ameaças de estupro até agressões direcionadas aos órgãos genitais — tornaram-se prática padrão das forças israelenses, concluiu a ONU, sendo realizados com aprovação explícita ou implícita de altos funcionários. Ben-Gvir, por exemplo, classificou as investigações sobre o estupro em Sde Teiman como “vergonhosas”, enquanto o ministro da Defesa Israel Katz descreveu as tentativas de responsabilizar soldados por estupro como uma “calúnia de sangue”.

A tortura de palestinos foi glorificada em Israel, observou Albanese.

“Vocês tiveram não apenas autoridades e líderes israelenses vangloriando-se de quão mal os palestinos foram tratados… Colonos e cidadãos comuns foram levados a centros de detenção para observar, assistir ou até mesmo [participar] da humilhação infligida aos palestinos.”

Triestino Mariniello, professor da Liverpool John Moores University e integrante da equipe jurídica que representa as vítimas de Gaza no TPI, destacou o que descreveu como uma “diferença muito importante no direito penal internacional entre atos isolados de violência sexual e atos que fazem parte de um padrão sistemático contra civis”.

“Os primeiros podem constituir crimes de guerra. Quando os mesmos atos são organizados e disseminados, eles constituem crimes contra a humanidade”, afirmou.

“Esses crimes acontecem em centros de detenção estatais e militares. O fato de os autores não serem julgados, processados ou condenados demonstra uma política institucional por trás de sua prática”, acrescentou Mariniello.

Para Albanese, os palestinos continuam resistindo.

“Os palestinos ainda estão lutando para não serem apagados, para não serem extintos como povo com capacidade de autodeterminação.”

Mas, aos olhos da maioria dos observadores, o genocídio israelense em Gaza continua, desafiando o cessar-fogo formal imposto a Israel pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em outubro de 2025. Israel está promovendo o deslocamento forçado de palestinos por toda a Cisjordânia ocupada em ritmo acelerado, com qualquer resistência de proprietários de terras e agricultores palestinos contra colonos israelenses e forças de segurança sendo normalmente respondida com violência, prisão e, frequentemente, tortura e estupro.

“Sobreviver à violência sexual e à tortura em geral, e ao estupro, é brutal”, disse Albanese. “Imagine quando isso é feito de forma sistemática e em larga escala contra uma população. Significa destruir um povo como tal.”

* Simon Speakman Cordall é um repórter especializado em Oriente Médio e Norte da África, com vasta experiência em campo. Como jornalista freelancer, colaborou anteriormente com o The Guardian, The Economist, Foreign Policy, The Independent, The Moscow Times e The Saigon Times. Também participou de programas da France 24 e do BBC World Service. Awad Joumaa é produtor executivo da Al Jazeera e jornalista premiado, baseado em Doha. Cobriu temas de atualidades no Oriente Médio, África, Europa e Ásia. É cineasta, instrutor de mídia e editor de livros. Reportagem publicada na Al Jazeera em 09/06/2026.

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