“israel” bombardeou nossa casa e fez meu irmão assistir

"Parece que Israel quer impedir que o mundo saiba do nosso sofrimento."

01/07/2025

Destruição na área ao redor da casa de Ohood Nassar (Foto: Ohood Nassar)

Ohood Nassar*

Acordei às 7h da manhã do dia 14 de maio e comecei a me preparar para mais um dia de trabalho.

Meu plano era ir até uma tenda educacional no campo de refugiados de Jabaliya, no norte da Faixa de Gaza. Eu dava aulas lá desde fevereiro.

A tenda funcionava como escola para 120 meninos e meninas.

Antes de sair, perguntei à minha mãe o que ela prepararia para o almoço. Com sua voz doce e terna, ela respondeu:
— Vou fazer dawali [folhas de uva recheadas].

— Obrigada, mãe — eu disse, abraçando-a apertado. — É minha comida favorita.

Encontrar os ingredientes para esse prato tem se tornado praticamente impossível em Gaza, onde a comida é escassa e os preços são exorbitantes.

Somos oito pessoas na minha família. Custa mais de 60 dólares preparar dawali para todos nós.

Ao chegar à tenda educacional, senti um entusiasmo contagiante dos meus alunos, que disseram:
— Bom dia, professora!

Disse a eles que eu estava organizando um concurso de histórias.

As crianças seriam incentivadas a escrever narrativas pessoais sobre suas experiências durante a guerra. Os melhores textos seriam premiados.

Às 11h, um supervisor do Ministério da Educação de Gaza veio me visitar. Contei a ele sobre minha vontade de ampliar a tenda para que pudéssemos dar aulas também para os alunos do quinto e sexto anos.

O supervisor apoiou fortemente a ideia.

Coloquei então um aviso na entrada da tenda, informando que novos estudantes seriam bem-vindos.

Às 13h, já estava de volta em casa, onde comecei a assistir às gravações das aulas da universidade.

Preciso assistir às aulas gravadas porque fui impedida de frequentar as aulas presenciais desde que Israel declarou sua guerra genocida contra Gaza, em outubro de 2023.

Fazia anotações enquanto assistia e tentava prestar atenção.

Mas minha mente estava dispersa. O trauma que estamos vivendo torna quase impossível se concentrar.

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Caos
Às 16h, meu raciocínio foi interrompido pelo meu irmão mais velho, Uday. Em pânico, ele me disse para sair imediatamente de casa, levando apenas minha pasta com documentos essenciais.

De repente, ouvimos gritos. Um clima geral de caos tomou conta.

Vi pessoas correndo sobre os escombros, gritando.

Perguntei a um homem o que estava acontecendo. Ele me disse que as forças israelenses haviam avisado que uma casa a menos de 20 metros da nossa seria bombardeada nos próximos minutos.

Encontrei minha mãe e irmãs em um acampamento próximo.
— Depressa — disse minha mãe.

Demos as mãos e corremos até a casa da minha irmã, que fica a cerca de 80 metros de distância.

Soltei minha pasta no chão e comecei a chorar. Senti como se a ansiedade fosse me matar.

Liguei para meu pai, que estava no trabalho, para avisá-lo que não voltasse para casa. Disse que estávamos em segurança na casa da minha irmã.

Uma hora depois, meu pai chegou. Disse que passaríamos a noite ali e tentaríamos alugar um lugar na região oeste de Gaza no dia seguinte.

Enquanto discutíamos o que levar e como nos preparar para o deslocamento, ouvimos vizinhos gritando que a casa ao lado havia recebido um novo aviso. Mais uma vez, tivemos que evacuar às pressas.

Corremos para fora, em direção à casa da minha tia em Beit Lahiya, a cerca de 600 metros de onde minha irmã mora.

Após caminhar cerca de 150 metros, fomos tomados pelo medo. O céu estava repleto de drones e aviões de guerra.

Então voltamos e fomos ao Hospital Al-Awda. Ao chegarmos lá, sentamos no chão do lado de fora.

Já eram 22h. Não comíamos nada desde o café da manhã.

Correndo um grande risco, meu irmão Uday voltou até nossa casa para buscar comida. Ele chegou ao hospital segurando uma panela de dawali.

Quando o vi, senti como se meu coração voltasse a bater. Uday havia emprestado uma cadeira de um vizinho para poder servir a refeição.

Fuga novamente
Mal começamos a comer, uma casa próxima foi bombardeada. Estilhaços passaram voando por nós.

Tivemos que fugir mais uma vez — agora para a casa da minha tia em Beit Lahiya.

Ela caiu em prantos ao nos ver. O medo estava estampado em seu rosto.

Ela havia ouvido de um parente deslocado que nossa área tinha sido fortemente atacada.

— Tentei ligar para vocês muitas vezes — disse minha tia —, mas o sinal caía toda hora.

Aquela noite, adormeci profundamente assim que encostei a cabeça no travesseiro. Na manhã seguinte, acordei com a voz suave da minha mãe.

Ela me disse que voltaríamos para a casa da minha irmã.

Às 8h, chegamos lá e tomamos um café da manhã simples: favas, tomilho e um pouco de pão. Decidimos voltar à nossa casa para buscar alguns itens essenciais — roupas, comida e cobertores.

Enquanto isso, meu pai procurava um lugar para ficarmos na parte ocidental de Gaza.

Meu telefone tocou assim que retornamos à nossa casa.

Ao ver que era um “número privado”, meu coração afundou. Eu sabia que só podia ser o exército israelense.

Atendi com hesitação. O homem do outro lado da linha falava hebraico; meu medo se confirmou.

Não consegui lidar com a situação, então entreguei o telefone à minha mãe. O soldado pediu para falar com um homem, então passei o telefone ao meu irmão.

O soldado israelense nos disse que nossa casa seria bombardeada dentro de 10 minutos. Se não saíssemos imediatamente, seríamos enterrados sob os escombros, ele advertiu.

Corremos para fora, avisando os vizinhos sobre o alerta.

O exército israelense ligou novamente enquanto corríamos para a casa da minha irmã. Entreguei o telefone a um vizinho e supliquei que falasse com o soldado.

Então corri de volta para casa para me certificar de que minha mãe e meu irmão haviam saído.

— O exército ligou de novo — disse à minha mãe. — Onde estão minhas irmãs pequenas?

No meu pânico, havia esquecido que elas já estavam na casa da nossa irmã mais velha. Minha mãe colocou a mão no meu ombro e me lembrou de que elas estavam seguras.

Tentamos encontrar algum transporte, mas não havia nenhum. Meus pés doíam e meu coração disparava.

Olhei ao redor para ver se encontrava algum jornalista. Alguém que pudesse documentar o que estávamos vivendo.

Parece que Israel quer impedir que o mundo saiba do nosso sofrimento.

Tantos jornalistas no norte de Gaza foram assassinados. Repórteres corajosos como Ismail al-Ghoul e Hossam Shabat.

Um soldado israelense ligou novamente. Meu irmão atendeu.

O soldado ordenou que ele voltasse à nossa casa para garantir que estivesse vazia e, em seguida, caminhasse 300 metros para assistir à sua destruição. Quando o míssil atingiu, estilhaços passaram perigosamente perto do meu irmão.

Ainda estávamos na casa da minha irmã quando o míssil atingiu nossa casa.

Ouvimos a explosão. Vimos fumaça preta subindo.

Ficamos devastados. Saber que o exército havia instruído meu irmão a assistir de perto tornou a experiência ainda mais horrível.

Menos de uma hora depois, os israelenses emitiram um novo aviso: a casa ao lado da da minha irmã seria o próximo alvo. Tivemos que fugir novamente.

Não tínhamos para onde ir.

Conseguimos encontrar um veículo que nos levou até a região oeste de Gaza. Ao chegar lá, tivemos que esperar nas ruas até meu pai encontrar um abrigo temporário.

Dois dias depois de termos nos mudado para o oeste de Gaza, um vizinho me contou que a tenda educacional onde eu trabalhava havia sido completamente queimada, depois de um novo bombardeio israelense na área.

A tenda educacional era meu refúgio. Eu havia dedicado muito tempo e energia a ela.

Agora virou cinzas.

* escritora, está concluindo sua graduação em estudos da educação, em Gaza. Texto publicado em The Electronic Intifada em 20/06/2025.

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