Quando vozes anti-guerra falam a linguagem do império

Ao "equilibrar" sua condenação, essas vozes neutralizam sua própria posição. Sugerem, intencionalmente ou não, uma forma de equivalência moral: a guerra EUA-Israel contra o Irã é errada, mas o Irã também é culpado; o genocídio em Gaza é horrível, mas os palestinos também têm culpa. O resultado não é equilíbrio — é paralisia.

20/04/2026

Muitos que se consideram anti-guerra parecem incapazes de assumir uma posição moral clara sobre as ações dos EUA e de "israel" no Sul Global sem inserir qualificações. (Fotos: Wikimedia. Design: Palestine Chronicle)

Por Ramzy Baroud*

Uma respeitada ativista de direitos humanos tem se manifestado repetidamente contra a agressão de EUA-Israel contra o Irã. Ela reconhece a ilegalidade da guerra e não hesita em condená-la em termos claros. No entanto, quase invariavelmente, sente-se compelida a qualificar sua posição, lembrando seu público de que o Irã matou “dezenas de milhares de manifestantes” durante recentes protestos antigovernamentais.

O número em si é altamente questionável. Mesmo estimativas amplamente citadas por reportagens internacionais — como a cobertura da Reuters em janeiro de 2026 — situam o número de mortos nos protestos na casa dos milhares, não de dezenas de milhares. Mas a questão aqui não é o número exato, nem mesmo o contexto complexo desses protestos, que começaram como expressões genuínas de descontentamento, mas foram posteriormente explorados por diversos atores externos e internos que buscavam desestabilizar o país.

A questão é a própria qualificação.

Muitos que se consideram progressistas, anti-guerra, liberais ou até mesmo de esquerda parecem incapazes de assumir uma posição moral clara sobre as ações dos EUA e de Israel no Sul Global sem inserir essas qualificações. O hábito pode parecer inofensivo, até responsável, mas na realidade é profundamente prejudicial. Não é um sinal de nuance — é um sintoma de uma hesitação moral mais profunda.

Ao qualificar sua condenação, essas vozes neutralizam sua própria posição. Sugerem, intencionalmente ou não, uma forma de equivalência moral: a guerra EUA-Israel contra o Irã é errada, mas o Irã também é culpado; o genocídio em Gaza é horrível, mas os palestinos também têm culpa. O resultado não é equilíbrio — é paralisia.

Compare isso com a clareza moral daqueles que apoiam a guerra. Sua posição nunca é qualificada. É assertiva, absoluta e frequentemente construída sobre exageros ou falsidades evidentes, ainda assim carrega convicção porque não se autossabota.

Esse padrão não é novo. Está profundamente enraizado na história do discurso político ocidental. Desde o bombardeio atômico de Hiroshima, justificado como um ato necessário para salvar vidas, até as intervenções militares da Guerra Fria em lugares como o golpe na Guatemala em 1954, onde a mudança de regime foi enquadrada como defesa contra o comunismo, a linguagem da moralidade tem sido consistentemente usada para legitimar a violência.

A invasão do Iraque oferece um dos exemplos mais claros. Saddam Hussein foi apresentado como a encarnação máxima do mal — o “novo Hitler” — enquanto os Estados Unidos e seus aliados foram retratados como libertadores.

De fato, autoridades americanas falaram abertamente em serem “recebidas como libertadoras”, mesmo quando o país mergulhava no caos e na violência extrema. Alguns anos depois, a então secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, descreveu a devastação causada pela guerra israelense contra o Líbano em 2006 como “as dores de parto de um novo Oriente Médio”, reduzindo imenso sofrimento humano a um passo necessário em uma grande transformação geopolítica.

Essa tradição remonta ainda mais atrás, à era do colonialismo, quando potências europeias justificavam a conquista por meio de supostas missões humanitárias. A abolição da escravidão, por exemplo, foi frequentemente invocada como justificativa moral para a expansão colonial na África, reinterpretando a dominação como benevolência e a violência como dever civilizatório. Matar, nesse paradigma, acontece em nome de salvar; a destruição é apresentada como progresso.

Israel opera há muito tempo dentro desse mesmo quadro. Suas guerras têm sido consistentemente apresentadas como existenciais e necessárias para a sobrevivência da democracia e da própria civilização.

Muito antes do surgimento do Hamas, a resistência palestina foi enquadrada por meio de rótulos variáveis que serviam ao mesmo propósito. Durante a revolta de 1936–39, combatentes palestinos foram descritos no discurso britânico e sionista como “terroristas”, “bandidos” e “gangues”. Em décadas posteriores, o rótulo mudou — de nacionalistas para comunistas e depois islamistas — mas a lógica subjacente permaneceu inalterada: o inimigo é sempre ilegítimo e, portanto, qualquer violência contra ele é justificada.

Muitos reconhecem esse padrão, mas, em vez de expor suas falácias, alguns continuam a operar dentro dele, buscando uma posição “equilibrada” enquanto ainda se apresentam como anti-guerra ou até pró-palestinos. Reconhecem crimes israelenses, mas sentem-se compelidos a condenar o “terrorismo” palestino. Opõem-se às políticas israelenses, mas insistem em se distanciar do Hamas e de outros, como se a resistência palestina existisse fora da realidade histórica e política que a produziu. Falam de “extremistas dos dois lados”, como se figuras como Itamar Ben-Gvir e um combatente palestino em Gaza pudessem ser comparadas de forma significativa.

Tais posições podem parecer defensáveis isoladamente, mas tornam-se muito menos convincentes quando vistas em outros contextos. Após os ataques de 11 de setembro, os Estados Unidos exigiram — e receberam — solidariedade incondicional. O mesmo ocorreu após os atentados de 7 de julho de 2005 em Londres e o ataque de 7 de janeiro de 2015 ao Charlie Hebdo em Paris. Nesses momentos, não havia expectativa de que as vítimas fossem primeiro contextualizadas ou que a solidariedade fosse qualificada. Milhões expressaram apoio sem hesitação, sem ressalvas, sem necessidade de demonstrar equilíbrio moral.

Esse padrão não se aplica a outros. Não se aplica ao Irã, ao Iraque, ao Afeganistão, à Venezuela — e certamente não a Gaza.

Caso você esteja se perguntando: a guerra EUA-Israel contra o Irã já matou 3.753 pessoas e feriu cerca de 26.500 desde 28 de fevereiro de 2026. Se os americanos experimentassem isso na mesma escala, equivaleria a cerca de 12.000 mortos e 85.000 feridos — quatro vezes mais que o 11 de Setembro, apenas em número de mortos, e com um nível de ferimentos muito superior ao daquela tragédia.

Em Gaza, a escala é ainda mais impressionante. Mais de 72.000 palestinos foram mortos, mais de 172.000 feridos e pelo menos 10.000 permanecem desaparecidos — muitos provavelmente soterrados sob os escombros. Acredita-se amplamente que o número real seja significativamente maior. Ajustado à população dos Estados Unidos, isso equivaleria a aproximadamente 236.000 mortos, mais de meio milhão de feridos e dezenas de milhares de desaparecidos — cerca de 80 vezes o número de mortos do 11 de Setembro.

E, ainda assim, mesmo diante de números tão esmagadores, o impulso de qualificar permanece.

Para muitos ativistas ocidentais, essa qualificação funciona como uma forma de proteção. Permite que mantenham um senso de autoridade moral dentro de suas próprias sociedades sem arriscar sua posição profissional ou social. Ao condenar a violência enquanto simultaneamente se distanciam das vítimas, ocupam um terreno intermediário seguro — que parece baseado em princípios, mas que, em última análise, não muda nada.

Isso não é apenas uma questão de retórica; reflete um problema estrutural mais profundo. Mesmo aqueles que se opõem à guerra frequentemente o fazem dentro de um quadro moldado pelos próprios sistemas de poder que afirmam desafiar. Sua linguagem, por mais crítica que possa soar, ainda ecoa a gramática moral do império.

Como escreveu o falecido intelectual palestino Edward Said em seu ensaio “The Essential Terrorist”, o “terrorismo” adquiriu “um status extraordinário no discurso público americano” e “substituiu o comunismo como inimigo público número um”, fornecendo um rótulo flexível por meio do qual inimigos são construídos e a violência contra eles é normalizada.

Da mesma forma, críticos da chamada “intervenção humanitária” argumentam há muito tempo que a própria linguagem dos direitos humanos tem sido repetidamente mobilizada para justificar a guerra, transformando a preocupação moral em um instrumento conveniente de dominação, em vez de um desafio genuíno a ela.

Sem honestidade, sem contexto e sem coragem para falar com clareza, a conversa não pode avançar. A necessidade constante de qualificar — de equilibrar, suavizar, distanciar — não promove a justiça. Ela a obscurece.

Portanto, da próxima vez que alguém se encontrar condenando o genocídio em Gaza ou a agressão EUA-Israel contra o Irã, vale a pena resistir a esse impulso. Não há necessidade de diluir a verdade para torná-la aceitável. Não há necessidade de neutralizar a própria posição moral para parecer razoável.

E, se isso não puder ser feito — se a condenação sempre vier acompanhada de condições — então talvez seja melhor permanecer em silêncio.

* Dr. Ramzy Baroud é jornalista, autor e editor do The Palestine Chronicle, onde este artigo foi publicado em 19/04/2026. É autor de oito livros. Seu livro mais recente, “Before the Flood”, foi publicado pela Seven Stories Press. Entre suas outras obras estão “Our Vision for Liberation”, “My Father was a Freedom Fighter” e “The Last Earth”. Baroud é pesquisador sênior não residente no Center for Islam and Global Affairs (CIGA).

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