As ruas interrompem a estrada: La Vuelta e a Questão Palestina na Espanha
A afirmação de que “esporte e política não se misturam” é uma das grandes falácias ideológicas de nosso tempo. Ela não é um princípio, mas, antes de tudo, uma estratégia de poder. Beneficia aqueles que já detêm o palco global e silencia aqueles para quem a interrupção do espetáculo é uma das poucas armas para romper o cerco midiático e fazer ecoar seu grito. Diversos outros eventos esportivos expressam esta posição: para nós brasileiros é impossível não recordarmos das manifestações contra a Copa e as Olimpíadas no começo da década passada.
A La Vuelta a España de 2025 não foi “politizada” por manifestantes; ela já era, em sua essência material, um evento profundamente político [1]. Desde a escolha das cidades sede – um cálculo econômico, onde quem paga mais tem sua paisagem projetada globalmente – até a lógica que rege seus contratos de patrocínio, a corrida e os ciclistas são vistos como um produto das relações de produção dominantes. A corrida não é apenas uma competição desportiva, mas também um produto do seu tempo, refletindo inevitavelmente as tensões e contradições que tecem a nossa realidade social. A questão nunca foi se a política estaria presente, mas qual política prevalece: a dominante, que move as grandes voltas e o esporte de forma geral, com suas lavagens de imagem e tudo mais, ou a da solidariedade internacionalista e da resistência.
O genocídio em Gaza é o centro gravitacional desta crise. Com levantamentos que apontam para quase 700 mil mortos (vidas ceifadas diretamente pelas bombas ou indiretamente pela fome e inanição deliberadas impostas pelo Estado sionista), a participação da equipe Israel Premier Tech (IPT), cujo proprietário é Sylvan Adams “embaixador global de Israel” e “orgulhosamente sionista” [2], atua como um braço da máquina de propaganda israelense. Reduzir a questão a um debate sobre se a equipe é “estatal” ou “privada” é cair numa falácia liberal que dissocia artificialmente os interesses privados dos objetivos expansionistas e genocidas. O sportswashing é a alquimia moderna onde capital e Estado se fundem: interesses privados desempenham uma função política, limpando a imagem de um regime de apartheid e extermínio em troca de visibilidade e lucro. Permitir sua participação e todos os outros exemplos de sportswashing (aqui podemos citar a Copa do Mundo de 2022 no Catar como maior exemplo) não é neutralidade; é conivência ativa com a política dominante, no caso, com o genocídio palestino.
A resposta veio das ruas, o único terreno onde a justiça real ainda pode ser demandada quando todas as instituições falham. Os 100 mil manifestantes na etapa final em Madrid foram apenas o ponto culminante de uma onda de protestos que varreu a Espanha, destacando Bilbao e Castro Urdiales, lugares onde as etapas foram encurtadas por conta dos protestos. Mas é preciso saudar todos os outros milhões de militantes que levaram a bandeira da Palestina durante todas as etapas de La Vuelta. Estes atos, criminalizados pelo comentarista Celso Anderson da ESPN como “terrorismo”, são a expressão legítima de solidariedade internacional. A declaração de Anderson é um sintoma perfeito da hipocrisia que impera na grande mídia: ele, por um lado, elogia os trabalhadores da comunicação (jornalistas, videomakers, fotógrafos) que tornam o espetáculo possível; por outro, ignora deliberadamente os 197 desses mesmos profissionais da imprensa assassinados em Gaza pela mesma força que os protestos denunciam. Sua defesa de “descer a borracha” nos manifestantes é a tradução perfeita de sua moralidade: a do conforto do espectador, que não pode ser perturbado, mesmo que o preço seja o silêncio sobre as crianças sob os escombros de Gaza. É simples: a ESPN precisa se posicionar; quem defende que corpos sejam violentados em repressão policial não pode defender a excelência de corpos no esporte.
Diante disso, a “neutralidade política” da União Ciclística Internacional (UCI) se revela uma farsa grosseira. Esta é a mesma entidade que, com uma agilidade comparável aos ataques de Pogačar, baniu atletas russos e bielorrussos após a invasão da Ucrânia, alinhando-se instantaneamente aos ditames geopolíticos da OTAN. A seletividade na aplicação de sanções não é inconsistência. A política é bem vinda quando serve aos interesses dos poderosos e condenada como “interferência” quando é um instrumento de luta popular. A UCI, o COI e a própria ONU operam nesta lógica de duplo padrão, expondo que a “governança” esportiva internacional age menos como um árbitro neutro e mais como um espelho das assimetrias do poder global.
Até dentro do pelotão, a contradição rachou a fachada do atleta apolítico. Jonas Vingegaard, cuja vitória foi hegemônica, admitiu compreensão pelos protestos, reconhecendo a gravidade do que acontece em Gaza. É sempre válido destacar também a posição do campeão olímpico em Paris, Remco Evenepoel (ausente desta Vuelta), que desde 2024 vem usando suas plataformas para denunciar e pedir o fim do genocídio. Outro caso é o de Derek Gee, campeão canadense que pediu sua rescisão contratual com a Israel Premier Tech por motivos pessoais, mas com fortes indícios de que não queria mais correr com a bandeira sionista no peito. Em contraponto, a postura de outros é a de reduzir o ciclismo à pura “emoção” e competitividade, ignorando as escolhas e a política que geram essa mesma emoção.
O ciclismo de estrada, por sua natureza que invade o espaço público, é um esporte profundamente envolvido nessas contradições. Ele não pode se trancar num estádio. Ele é forçado a encontrar a sociedade em seu caminho, com todas as suas feridas e lutas. E o ciclismo é, em sua prática, um esporte de solidariedade; quem pedala sabe que a dor, a coletividade e o apoio mútuo são constantes. A ASO (Amaury Sport Organisation), empresa que organiza La Vuelta e o Tour de France, ao agir de forma errática durante La Vuelta, e a UCI, ao empurrar o problema com a barriga para evitar uma tomada de posição definitiva, apenas adiaram o inevitável. O conflito entre o esporte corporativo e a política de libertação não é um acidente de percurso; é um dos terrenos principais da luta política hoje.
Cada bandeira palestina que fez a corrida parar foi um ato de memória e um funeral simbólico. Foi o grito que ecoou pelos vales e montanhas da Espanha, lembrando que, enquanto um mundo pedalava, outro era enterrado. Foi uma homenagem aos mais de 800 atletas palestinos assassinados desde o início do genocídio, seus sonhos e corpos destruídos pela máquina de guerra sionista. O esporte nunca foi e nunca será neutro. Ele é uma arena de luta política. E La Vuelta de 2025 provou, gloriosamente, que o povo ainda pode invadir a estrada e ditar o ritmo da história.
Notas
[1] Há um outro destaque importante aqui: O mundial de ciclismo este ano acontecerá em Kigali, Ruanda. É a primeira vez que o mundial ocorrerá no continente africano e isso é fruto de movimento político que tem buscado, de uma forma ainda bem tímida, ampliar a influência da UCI e da sua atual gestão para outros espaços, ganhando mais apoio político e financeiro.
[2] Sylvan Adams vale uma nota: O proprietário da Israel-Premier Tech é um bilionário canadense de ascendência judaica e que atua em negócios espúrios sionistas. Segundo o jornal El Diario a IPT recebe financiamento do Ministério de Turismo sionista. Adams é amigo pessoal de Benjamin Netanyahu e preside a filial israelense do Congresso Judaico Mundial, além de declarar que Donald Trump é “uma bênção”. Com o acirramento do genocídio em Gaza, ele emitiu diversas declarações de apoio à ocupação ilegal e ao projeto expansionista sionista. Suas declarações abertamente supremacistas enfatizam o total desrespeito à vida de crianças palestinas e enaltecem o exército sionista como bastião da moralidade. Esta entrevista é um bom exemplo de seu posicionamento.