“Atire para matar”: soldados israelenses continuam assassinando civis em Gaza sete meses após cessar-fogo

Desde que o cessar-fogo entrou em vigor, mais de 900 pessoas foram mortas pelas forças israelenses em Gaza

02/06/2026

Soldados israelenses ocupam uma posição militar com vista para a chamada Linha Amarela, na região central da Faixa de Gaza, na terça-feira, 26 de maio de 2026. (Foto AP/Ariel Schalit)

Por Sam Mednick*

O soldado israelense de combate viu seus companheiros de equipe gritando em comemoração, parabenizando uns aos outros. Eles acabavam de atingir um veículo com palestinos que trafegava perto da parte da Faixa de Gaza controlada por Israel, matando todos os ocupantes.

O reservista disse que cenas como essa se tornaram comuns depois que um frágil cessar-fogo entrou em vigor em outubro. Nas semanas em que esteve destacado em Gaza, afirmou ter visto soldados se deleitando com a oportunidade de perseguir aqueles que cruzavam — ou chegavam perto de cruzar — a chamada linha amarela que divide a faixa em áreas controladas por Israel e áreas palestinas.

“Era uma selva”, disse o soldado, na faixa dos 20 anos, à Associated Press. “Depois do cessar-fogo, a ordem era: se alguém cruzar a linha, atire nele.”

À medida que os esforços diplomáticos para fortalecer o acordo estagnaram, três soldados descreveram à AP uma sensação de confusão no território devastado pela guerra, com falta de clareza sobre as regras de engajamento em torno da linha amarela. Alguns comandantes prestavam apenas um apoio formal ao acordo, disseram os soldados, enquanto em privado expressavam o desejo de que a guerra em Gaza continuasse. Às vezes, as tropas estavam longe demais ou agiam rápido demais para identificar quem estavam alvejando, disse um soldado — uma preocupação ecoada em comentários de um grupo de veteranos denunciantes.

Os relatos dos soldados oferecem um raro vislumbre do que aconteceu na parte de Gaza controlada por Israel desde que o acordo entrou em vigor, há sete meses. Os soldados — reservistas destacados em diferentes partes de Gaza entre outubro e janeiro e que desde então retornaram para casa — falaram sob condição de anonimato porque temiam ser ostracizados por seus comentários. Disseram que estavam se manifestando porque ficaram indignados e entristecidos com o que testemunharam.

A AP documentou disparos contra civis palestinos, incluindo crianças brincando, perto da linha amarela. E os soldados disseram que parecia que as mortes nunca haviam cessado, apesar do acordo precário.

“Chamar isso de cessar-fogo é uma piada”, disse um dos soldados à AP.

A linha amarela de Gaza tem sido ambígua, e Israel assumiu controle de mais território

Quando o cessar-fogo entrou em vigor, Israel retirou suas tropas para uma zona-tampão demarcada por uma linha amarela, passando a controlar pouco mais da metade da faixa. Pelo acordo, as forças israelenses deveriam concluir uma retirada mais ampla, embora não exista um cronograma para isso. O diplomata apoiado pelos EUA que supervisiona a trégua afirma que o progresso está bloqueado devido ao principal ponto de discórdia: o desarmamento do Hamas, do qual dependem todas as demais questões — incluindo as retiradas israelenses e a reconstrução.

Enquanto isso, Israel ampliou seu controle sobre território adicional em Gaza. Ambos os lados acusaram o outro de violar o cessar-fogo.

A localização exata da linha tem sido ambígua e, às vezes, invisível. Em alguns lugares, ela é marcada com blocos e barris amarelos; em outros, por vezes não há qualquer sinalização.

Nesta semana, os militares israelenses convidaram a AP para ver um trecho da linha amarela no centro de Gaza, próximo ao campo de refugiados de Maghazi. Ali, a linha era visível, demarcada por uma larga trilha de terra e pequenas marcações amarelas. A leste havia uma extensão desolada de espaço aberto que levava a um posto militar israelense fortemente fortificado, situado a cerca de 500 metros.

Um comandante militar israelense afirmou que o Hamas atua do outro lado da linha e frequentemente envia pessoas — militantes e civis — em direção à linha e até mesmo através dela para testar a prontidão e as respostas do exército.

“Não há motivo para alguém se aproximar da linha”, disse ele, sob condição de anonimato de acordo com as regras militares. “Não há nada aqui.”

O exército afirma que toda a linha, que se estende por toda a extensão de Gaza, agora está claramente sinalizada.

Desde que o cessar-fogo entrou em vigor, mais de 900 pessoas foram mortas em Gaza — dezenas delas próximas ou além da linha amarela, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. O ministério não informa quantas eram combatentes, mas homens desarmados e crianças estão entre os mortos.

Os militares israelenses afirmaram que a maioria das pessoas mortas ao cruzar a linha representava uma ameaça às tropas. Mas soldados que falaram à AP e à organização de denunciantes Breaking the Silence — que coletou depoimentos de militares ao longo de toda a guerra — dizem que, em alguns casos, os soldados estavam longe demais, agiam rápido demais e sob pressão excessiva para conseguir distinguir quem estavam alvejando.

O exército israelense disse à AP que a área adjacente à linha amarela é um “ambiente operacional sensível”, com avisos indicando que a aproximação é proibida. Afirmou que o exército não tem como alvo civis apenas por se aproximarem da linha e que suas regras de engajamento exigem o uso de advertências antes do emprego da força. Em situações que envolvam uma ameaça imediata, as forças estão autorizadas a agir, acrescentou.

Um soldado diz que as tropas precisam agir rapidamente, com informações às vezes baseadas em intuição

Era a segunda missão do soldado de combate em Gaza quando o cessar-fogo começou. Ele disse que estava posicionado a várias centenas de metros da linha amarela e viu várias pessoas tentando cruzá-la serem mortas por soldados.

Os soldados que atiram ou ordenam ataques com drones nem sempre sabem quem está cruzando a linha, afirmou. Embora os militares precisem fornecer coordenadas e obter aprovação dos superiores antes de atacar, é difícil fornecer informações exatas porque as pessoas estão em movimento. Ele descreveu soldados informando coordenadas com base em um palpite ou no último local onde haviam visto alguém.

A Breaking the Silence afirma que as regras gerais de engajamento são extremamente permissivas, especialmente para aqueles que cruzam a linha, e que as ordens em muitas áreas equivalem a “atirar para matar”. O diretor-executivo da organização, Nadav Weiman, um veterano que serviu em Gaza, mas não nesta guerra, disse que a distância em relação ao alvo e alguns soldados excessivamente propensos a atirar podem ser fatores problemáticos.

Segundo ele, as ordens e políticas dos altos comandantes militares “criaram uma realidade na qual inúmeros civis foram e estão sendo mortos por cruzarem linhas invisíveis”.

Em um dos relatos fornecidos à Breaking the Silence, em notas de entrevista vistas pela AP, um soldado descreve as instruções dadas às tropas sobre qualquer pessoa que cruzasse a linha amarela: “elimine-o custe o que custar”.

Um soldado que esteve destacado em Gaza diz que as vidas humanas não eram valorizadas

Outro soldado que permaneceu em Gaza durante semanas após o cessar-fogo disse que a mensagem dos comandantes era manter a linha a qualquer custo.

“Havia uma sensação geral de que vidas humanas não tinham valor”, disse ele.

Quando se tratava de demarcar a linha amarela, o soldado afirmou que seus superiores lhe disseram que isso exigiria “trabalho demais”, que não era responsabilidade deles e que os palestinos deveriam saber onde ela estava.

Estar em Gaza teve um forte impacto emocional sobre ele, afirmou.

Às vezes, atiradores de elite disparavam tiros de advertência contra pessoas próximas da linha, disse ele, mas os comandantes instruíam as tropas a fazer mais para se protegerem. O soldado entendeu isso como uma orientação para disparar tiros mais letais.

Ele e os outros soldados que falaram à AP disseram que as tropas geralmente compreendiam, com base nas ações dos comandantes e dos colegas, que Israel estava em Gaza para permanecer por muito tempo, e não para realizar uma retirada futura.

Ataques israelenses estão se tornando “cada vez mais proativos”, segundo relatório interno

Um relatório interno distribuído entre grupos de ajuda humanitária no mês passado e obtido pela AP afirmou que, em toda Gaza, Israel se tornou “cada vez mais proativo” em seus ataques.

Dados separados do Armed Conflict Location and Event Data Project (Projeto de Dados sobre Localização e Eventos de Conflitos Armados), uma organização sem fins lucrativos sediada nos Estados Unidos, indicam que abril foi o mês mais letal em Gaza neste ano e que as mortes registradas perto da linha amarela ou de pessoas que a cruzaram aumentaram mais de 25% entre janeiro e abril, passando de 58 para 73.

Nesta semana, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que Israel controla 60% de Gaza e que o próximo passo seria avançar para 70% de controle.

Os soldados disseram à AP que, na prática, o cessar-fogo é ilusório.

“Precisamos parar de usar esse termo”, disse um deles sobre a expressão “cessar-fogo”. “Ela não ajuda as pessoas que querem parar a guerra.”

* Sam Mednick é correspondente da Associated Press para “israel” e a Palestina. Seu trabalho concentra-se em conflitos, crises humanitárias e violações de direitos humanos. Anteriormente, ela cobriu a África Ocidental e Central, além do Sudão do Sul. Reportagem publicada na AP em 30/05/2026. Josef Federman contribuiu para a reportagem a partir da região central da Faixa de Gaza.

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