“Os carcereiros penduravam nas celas os corpos de detentos mortos e os deixavam lá, apodrecendo”
O premiado escritor palestino Basim Khandakji passou meses seguidos em solitária e era frequentemente transferido de uma prisão para outra, tendo passado por quase todas as 19 prisões israelenses que abrigam palestinos — cada uma “tão infernal quanto a anterior”
O prisioneiro e romancista libertado Basim Khandakji foi deportado para o Egito após ser libertado das prisões israelenses sob um acordo de troca de prisioneiros [Al Jazeera]
Na noite em que o romance de Basim Khandakji venceu o Prêmio Booker Árabe de 2024, guardas israelenses invadiram sua cela, o agrediram, amarraram suas mãos e pés e o ameaçaram.
O escritor, de 42 anos, foi então colocado em confinamento solitário na prisão de Ofer por 12 dias.
Ele acredita que foi uma retaliação por ter envergonhado o sistema prisional israelense, conseguindo publicar um livro sob o nariz dos carcereiros, chamando atenção para si e para as condições a que era submetido.
Agora, ele está fora das prisões israelenses, depois de cumprir 21 anos de três sentenças de prisão perpétua.
“Ainda sinto como se estivesse sonhando, e tenho medo de acordar e me ver de volta numa cela”, disse Khandakji.
Após sua libertação, ele continua impedido de voltar para casa e reencontrar sua família em Nablus. Exilado de sua pátria por Israel, aguarda no Egito, enquanto seus familiares lutam para chegar até ele.
“Vimos novos horrores”
Embora feliz por ter escapado do que chama de “cemitério dos vivos” — as prisões israelenses — Khandakji ainda tenta processar os horrores que testemunhou e a tristeza de deixar outros prisioneiros para trás.
Ele foi condenado em 2004 por supostamente fazer parte de uma “célula militar” e estar envolvido em um atentado suicida em Tel Aviv, crime que afirma ter sido forçado a confessar.
“O advogado me disse que eu tinha que assinar uma confissão… para que três jovens pudessem ser poupados da prisão perpétua. Era uma espécie de troca: você admite uma acusação específica em troca de libertar alguns rapazes de sentenças perpétuas — e foi o que aconteceu.”
Segundo as Nações Unidas, pelo menos 75 palestinos morreram em prisões israelenses desde outubro de 2023, e organizações como B’Tselem e o Centro Palestino de Direitos Humanos denunciaram abusos sistemáticos.
Khandakji passou meses seguidos em solitária e era frequentemente transferido de uma prisão para outra, tendo passado por quase todas as 19 prisões israelenses que abrigam palestinos — cada uma “tão infernal quanto a anterior”, disse à Al Jazeera.
“Há políticas deliberadas de fome, abusos, tortura psicológica e física, humilhação constante e negligência médica intencional.”
As imagens de palestinos libertados causaram indignação global. Saudáveis antes do encarceramento, muitos apareceram ao sair das prisões como sombras esqueléticas de si mesmos.
As coisas mudaram, conta Khandakji, após 7 de outubro de 2023. Ele diz que, desde então, os prisioneiros começaram a morrer com uma regularidade chocante, e os guardas passaram a usar “novos métodos horrendos”, especialmente contra os detidos vindos de Gaza.
“Os presos viram guardas pendurando os corpos de detentos mortos nas celas e deixando-os lá, apodrecendo”, disse.
“Outro me contou que viu mais de 12 corpos empilhados em celas no centro de detenção de al-Jalama.”
As lembranças traumáticas dos palestinos mortos e a brutalidade que presenciou e sofreu, afirma, o assombrarão por toda a vida.
“A principal estratégia usada pelas autoridades para quebrar os prisioneiros era a fome”, contou. “Havia também o que chamavam de ‘resfriamento’, ou seja, negar roupas, cobertores ou qualquer aquecimento durante o inverno rigoroso.”
“E havia espancamentos constantes”, acrescentou. “Eles usam métodos horríveis, selvagens — atingem a cabeça, o pescoço e a coluna.”
A Al Jazeera tentou obter uma resposta das autoridades prisionais israelenses sobre as acusações de Khandakji, mas não recebeu retorno.
As comunicações com amigos e familiares eram proibidas, e ele foi impedido de receber notícias do mundo exterior — embora tenha sabido da morte de seu pai.
“Fui privado do meu pai enquanto ele estava vivo e, depois de sua morte, me negaram o direito de enterrá-lo.”
Atualmente, quase 9 mil palestinos permanecem presos em Israel, muitos detidos em operações em massa, e mais de 3.500 estão sob “detenção administrativa”, mecanismo criado por Israel para prender pessoas indefinidamente sem acusação ou julgamento.
Contrabandeando um romance premiado
Na prisão, diz Khandakji, “a escrita me deu um refúgio, um esconderijo por meio do qual eu podia escapar da brutalidade da prisão e recuperar minha liberdade, mesmo que apenas na imaginação”.
Ele precisou fazer várias greves de fome para conseguir cadernos e canetas.
Escrevia o máximo que podia, escondendo os manuscritos dos guardas e mantendo-se fora do alcance deles até conseguir contrabandear seus textos com a ajuda de seu advogado ou de visitantes.
Em 2023, seu romance premiado, “Uma Máscara, da Cor do Céu”, foi publicado no Líbano em árabe e entrou para a lista final do Prêmio Internacional de Ficção Árabe — conhecido como Booker Árabe.
A obra conta a história de Nur, um arqueólogo palestino que encontra uma carteira de identidade israelense e assume o nome de “Ur”, passando a trabalhar em uma escavação arqueológica dentro de um assentamento israelense ilegal.
No livro, Khandakji reflete sobre a redescoberta da antiguidade da Palestina e sobre a diferença entre a vida limitada de Nur, com seu documento palestino, e Ur, cuja carteira azul-clara israelense lhe permitia ir a qualquer lugar.
Ao saber da indicação, o ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, ultranacionalista de extrema direita, ordenou condições mais severas para Khandakji, enquanto outros extremistas israelenses chegaram a pedir sua execução.
O prêmio incluiu US$ 50 mil e o financiamento para uma tradução ao inglês, abrindo caminho para uma audiência global.
Com o início da guerra contra Gaza, as condições pioraram ainda mais na prisão: os guardas confiscaram seus materiais de escrita e quebraram seus óculos de leitura.
“Senti-me completamente impotente”, disse. “Ser privado das minhas canetas e cadernos era como ser privado do ar.”
Agora livre, ele pretende publicar outro romance — escrito inteiramente em sua mente durante o último ano de cativeiro. O livro é inspirado em um de seus amigos mais próximos, o escritor Walid Daqqa, que morreu de câncer após o que se acredita ter sido negligência médica deliberada das autoridades prisionais.
Além da escrita, Khandakji diz que as amizades feitas na prisão foram seu único consolo — “amizades que nem a morte pode apagar”.
“Vivo com tristeza e dor porque deixei muitos amigos para trás, ainda sofrendo”, acrescentou.
Entre eles estava Marwan Barghouthi, político da Fatah e companheiro de cela, condenado em 2004 a cinco prisões perpétuas e mais 40 anos.
Barghouthi é frequentemente comparado a Nelson Mandela, devido às décadas que passou preso como preso político e por sua popularidade entre os palestinos.
“Marwan Barghouthi é um grande homem”, disse. “Se fosse libertado, poderia se tornar uma figura nacional unificadora.”
O líder de 66 anos foi espancado até ficar inconsciente no mês passado pelas autoridades carcerárias israelenses, e seu filho, Arab, disse à imprensa internacional que o pai teme por sua vida, já que Israel continua a ignorar os apelos internacionais por sua libertação.
Sua pátria vive dentro dele
Khandakji foi preso em 2004, aos 21 anos, quando cursava o último ano de jornalismo e ciências políticas na Universidade Nacional An-Najah, em Nablus.
Criado em uma família socialista, tornou-se ativo no Partido do Povo Palestino ainda adolescente, e hoje é membro eleito do birô político do partido.
Durante a Segunda Intifada, no início dos anos 2000, decidiu juntar-se à resistência armada na Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP).
“No fim, a violência, em todas as suas formas, é desumana”, reflete.
“Como seres humanos, devemos primeiro tentar resolver nossos problemas por meios pacíficos e civilizados.
Mas quando alguém tenta apagar você — aniquilá-lo —, sua luta se torna uma questão de existência.”“Mas, se o tempo pudesse voltar… talvez eu procurasse outros caminhos”, acrescenta, lamentando o preço de 21 anos longe da família.
Ele foi um dos 250 prisioneiros de destaque libertados por Israel em 13 de outubro, como parte do acordo de cessar-fogo em Gaza mediado pelos Estados Unidos entre Hamas e Israel.
Os israelenses detidos pelo Hamas foram libertados em troca de quase 2.000 prisioneiros palestinos, a maioria dos quais havia sido “desaparecida” por Israel em Gaza, segundo a ONU.
Khandakji descreve a noite de sua libertação como “aterrorizante”, dizendo que seu corpo tremia ao perceber que “o momento da liberdade finalmente havia chegado”.
Mas, ao ver o ônibus seguir para o sul, e não em direção a Nablus, entendeu que sua liberdade plena seria novamente negada.
“Ser exilado da sua pátria é um sentimento ardente e doloroso”, disse. “Minha primeira alegria, minha primeira tristeza e meus primeiros sonhos foram todos na minha cidade, Nablus.
Os palestinos, ao contrário de outros povos, não vivem em sua pátria — sua pátria vive dentro deles.”
Por enquanto, Khandakji pretende continuar escrevendo e fazer doutorado, depois de ter concluído um mestrado em estudos israelenses enquanto estava preso.
Sua família luta desesperadamente para se reunir com ele no Egito, mas vem sendo repetidamente impedida por Israel.
“Ainda tenho esperança de que, em algum momento, haja alguma justiça humana que me permita abraçar minha mãe”, diz.
“Não como um prisioneiro libertado — mas simplesmente como um filho em busca do cheiro da infância nos braços da mãe.”
* Reportagem publicada pela Al Jazeera em 26/10/2025.
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