“Nós apenas sentamos e choramos”: pacientes com câncer em Gaza morrem esperando tratamento
Médicos dizem que as mortes relacionadas ao câncer triplicaram desde o início do genocídio de "israel" contra Gaza, enquanto "israel" impede pacientes de sair e restringe a entrada de medicamentos de quimioterapia.
Uma criança palestina — entre aquelas que sofrem de desnutrição ou de doenças crônicas como o câncer — aguarda com seus familiares no Hospital Nasser, em Khan Younis, Gaza, em 24 de junho de 2024, após supostamente ter recebido permissão do Exército israelense para deixar o território palestino sitiado para tratamento [Arquivo: Bashar Taleb/AFP]
Por Mohammad Mansour e Tareq Abu Azzoum*
Para Hani Naim, a espera não é por uma cura, mas por permissão para salvar a própria vida.
Vivendo com câncer há seis anos, Naim havia sido aprovado para tratamento no exterior. Mas, como milhares de outros, permanece preso em Gaza, impedido de sair pelas restrições israelenses cada vez mais rígidas.
“Eu costumava receber tratamento na Cisjordânia e em Jerusalém”, disse Naim a Tareq Abu Azzoum, da Al Jazeera. “Hoje, não consigo acessar nenhum tratamento. Preciso de radioterapia, e ela já não existe em Gaza.”
Naim é um dos 11 mil pacientes com câncer atualmente retidos no enclave, onde o sistema de saúde entrou em colapso total.
Segundo médicos, o número de mortes relacionadas ao câncer triplicou desde o início, em outubro de 2023, da guerra genocida de Israel contra Gaza. Sem quimioterapia, sem radioterapia e sem possibilidade de sair, o diagnóstico de câncer tornou-se, para muitos, uma sentença de morte imediata.
Um “hospital fantasma”
O epicentro dessa crise é o Hospital da Amizade Turco-Palestina. Antes a única unidade a oferecer cuidados oncológicos especializados na Faixa de Gaza, hoje ele se encontra como uma carcaça esvaziada.
“Ele se assemelha a um hospital fantasma depois de ter sido transformado em um local militar durante a guerra”, relatou Abu Azzoum. “As forças israelenses o explodiram, deixando os pacientes à própria sorte.”
Com a principal unidade destruída, médicos foram forçados a atuar em clínicas improvisadas, sem qualquer recurso.
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Em entrevista à Al Jazeera Mubasher, Mohammed Abu Nada, diretor médico do Centro de Câncer de Gaza, descreveu uma situação de total impotência.
“Perdemos tudo”, disse Abu Nada. “Perdemos o único hospital capaz de diagnosticar e tratar o câncer… Agora estamos no Complexo Médico Nasser, mas, infelizmente, não temos equipamentos para diagnosticar a doença e não temos quimioterapia.”
“Chocolates, mas nenhum remédio”
Apesar dos recentes acordos de cessar-fogo que deveriam permitir a entrada de ajuda no território, suprimentos médicos essenciais continuam bloqueados.
Abu Nada rejeitou as alegações de que a ajuda esteja fluindo livremente, observando que, embora alguns produtos comerciais tenham entrado, medicamentos que salvam vidas não entraram.
“Eles trouxeram chocolates, nozes e salgadinhos… mas tratamentos para doenças crônicas, tratamentos contra o câncer e dispositivos de diagnóstico não entraram de forma alguma”, disse.
“Isso é apenas propaganda”, acrescentou. “Apelamos à Organização Mundial da Saúde… para que ao menos nos fornecesse tratamento, se não nos é permitido sair. Mas, ao contrário, o que tínhamos acabou.”
Abu Nada estimou que 60% a 70% dos protocolos oncológicos estão completamente indisponíveis. Como a quimioterapia frequentemente exige uma sequência específica de medicamentos, a ausência de apenas um componente torna todo o tratamento ineficaz.
Até mesmo os cuidados paliativos estão falhando. Analgésicos — essenciais para controlar a dor do câncer em estágio avançado — agora estão sendo racionados.
“Nós tentamos priorizar”, explicou Abu Nada. “Aqueles com câncer disseminado recebem um pouco, e aqueles que ainda estão em condição estável… nós não damos nada.”
Um assassino silencioso
O custo humano dessas carências é brutal. Abu Nada revelou que, apenas na região de Khan Younis, dois a três pacientes com câncer morrem todos os dias.
“O resultado é que o câncer se espalha no corpo do paciente como fogo em palha seca”, disse. “Voltamos 50 anos no tratamento do câncer.”
Atualmente, 3.250 pacientes têm encaminhamentos oficiais para tratamento no exterior, mas não conseguem atravessar a fronteira devido ao fechamento da passagem de Rafah e às proibições israelenses às evacuações médicas.
Para a equipe médica restante, o peso psicológico é imenso.
“Alguns especialistas deixaram Gaza”, disse Abu Nada. “Mas mesmo para os que permanecem, de que serve um médico sem ferramentas?”
“O médico não tem mais nada a fazer senão sentar e chorar ao lado deste paciente a quem foi negado o tratamento e negada a viagem.”
* Repórteres da Al Jazeera. Reportagem publicada em 09/01/2026 no site da Al Jazeera.
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