Dos bares da Lapa aos muros do apartheid na Palestina: quem tem direito de ter direitos?
Impulsionada pela imprensa comercial e o lobby sionista, a “polêmica” do bar Partisan, no Rio de Janeiro, com a placa que diz que “israelenses e estadunidenses não eram bem-vindos”, inundou as redes sociais e faz parte de uma agenda maior e perigosa de censura e perseguição no Brasil. Vamos qualificar esse debate?
Primeiro, é óbvio que a placa não configura “antissemitismo” ou qualquer “anti-americanismo”, seja lá o que for isso, mas sim um protesto crítico a uma agressão não-provocada e ilegal de “israel” e EUA contra o Irã e ao genocídio palestino em Gaza.
A ideia de que judeus-israelenses são vítimas passivas das “políticas do governo israelense” e, por consequência, “alvo de discriminação” ao se depararem com uma placa de que não são bem-vindos em um bar é uma das maiores aberrações morais dos últimos tempos e mostra incompreensão sobre o próprio sistema de apartheid, segregação e extermínio estabelecido justamente para que exista uma “cidadania israelense” em primeiro lugar.
O próprio conceito de “cidadania israelense” tal qual é hoje — e sempre foi a partir da autoproclamação de “israel” em 1948 – é precisamente aquilo que funda e dá ar de “legitimidade” ao único projeto da história humana de colonização por assentamento e substituição integral da população originária por uma demografia de colonos estrangeiros ilegalmente importados para a Palestina — este em si um crime de lesa-humanidade.
Para que alguém tenha em mãos um passaporte israelense, aquele que permite que ele vá a um bar no Rio de Janeiro, milhões de palestinos foram assassinados, expulsos de suas casas, trancafiados em um campo de concentração e extermínio, submetidos a um sistema de apartheid e ocupação militar ilegal e mantidos por gerações em campos de refugiados — ao menos 6,6 milhões de palestinos seguem refugiados, apátridas e com seu direito de retorno negado por “israel” para que se atinja uma maioria demográfica judaica na Palestina em detrimento da população originária, os palestinos.
A “cidadania israelense” é em si o sistema discriminatório, ferramenta e razão pela qual “israel” promove as atrocidades que assistimos na Palestina e no Oriente Médio no geral.
Não estou entrando aqui no mérito sobre o fato da maioria esmagadora dos judeus-israelenses apoiarem as políticas genocidas de “israel”, menos ainda sobre como demonstram isso em depravadas manifestações nas redes sociais. Estou falando objetivamente sobre a categoria jurídico-política do “cidadão [judeu-]israelense”, aquele que desfruta plenamente e se beneficia de seus direitos nacionais, às custas dos que têm os mesmos direitos nacionais negados pelo próprio sistema que torna possível alguém ter um passaporte israelense em primeiro lugar.
Igualmente não pretendo requentar aqui o debate que já deveria ter sido superado, a tentativa inculta e criminosa de sobrepor e confundir sionismo e judaísmo e, por consequência, antissionismo e antijudaísmo, como faz a deputada Tabata Amaral (PSB-SP) no projeto de lei 1424/26, encomendado e redigido pelo lobby sionista para perseguir críticos e criminalizar a causa palestina no Brasil. Há farta literatura sobre a inconstitucionalidade deste projeto, a exemplo da nota técnica do Conselho Nacional de Direitos Humanos sobre PL semelhante, o 472/25, apresentado pelo deputado Eduardo Pazuello (PL-RJ).
Reservo algumas linhas, porém, ao papel criminoso da imprensa comercial brasileira, uma máquina de propaganda genocida cúmplice do Holocausto Palestino ao desumanizar palestinos, em expediente racista e vulgar, para fabricar consentimento para o extermínio e que agora embarca de cabeça na nova empreitada do lobby sionista: criar o clima político para a formalização de um sistema de perseguição e silenciamento de críticas ao “país” mais assassino e depravado da história humana, “israel”.
Voltando à polêmica do bar: judeus-israelenses não devem ser lidos como sujeitos passivos e alheios às políticas racistas e supremacistas de “israel”, mas sim como seus principais beneficiários e, em última instância, a própria razão pela qual esse sistema segregacionista e genocidário foi construído e é mantido até hoje.
Este não é um apelo à punição coletiva de israelenses como “grupo nacional” — por mais que “israel” tenha como política de estado a punição coletiva contra palestinos —, mas uma tentativa de sair de discursos reducionistas sobre a “polêmica do bar” e genuinamente discutir aquilo que nos leva a esse cenário em sua origem.
Compreender que a própria cidadania israelense é em si uma ferramenta de extermínio e apartheid e a própria razão pela qual há um genocídio continuado de palestinos há 79 anos, como alguns judeus-israelenses já reconhecem, o que torna pública sua rejeição ao sistema supremacista e violento construído em seu benefício, é o primeiro passo para compreender e superar esse paradigma.
Se um sistema de opressão é estabelecido ao seu redor e em seu benefício, não basta reconhecê-lo, é preciso romper radicalmente e enfrentar tal sistema. Não seria essa a mensagem por trás da frase “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”?
Redimir o judaísmo acabando com seu sequestro e instrumentalização pela chaga colonial e genocidária chamada sionismo não é obrigação – e muito menos está ao alcance – do movimento palestino e de solidários à causa palestina. Este é um papel que só a coletividade judaica pode fazer.
Quando a maioria dos judeus-israelenses renunciarem ao culto de supremacia judaica chamado sionismo, abolirem o sistema de apartheid e extermínio feito em seu benefício e aceitarem viver lado a lado e como iguais aos palestinos, este será um momento não apenas de libertação para palestinos, mas para todos naquela terra (cristãos, judeus e muçulmanos) entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo chamada Palestina.
Neste dia, que há de chegar em breve, seremos todos bem-vindos no mesmo bar, no Rio de Janeiro ou em Jerusalém.